MELODIA DE AMOR

Leanna Wilson

 

Ttulo Original: Babies, Rattles and Cribs... Oh, My! (1999)

Resumo:
Luke Crandall sabia lidar muito bem com mulheres, mas estava sem ao diante do adorvel pacotinho de gente gritando em seu colo. Ele estava determinado a ser um excelente pai solteiro, mas precisava de ajuda de uma guia para embrenhar-se naquela selva de mamadeiras, chupetas e papinhas.
A bela Sydney Reede era capaz de trocar uma fralda em dois segundos... e sabia exatamente como funcionava a mente feminina!
Conforme a rotina de troca de fraldas e canes de ninar transformava-os em uma famlia, os dias de solteiro ficavam cada vez mais remotos na lembrana de Luke. Ser que agora, ganhando experincia no mundo dos bebs, seria hora de se arriscar a singrar guas do matrimnio?

Digitalizao: Simoninha
Reviso: Carina

Copyright  1999 by Leanna Wilson
Originalmente publicado em 1999 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e coloao so marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Babies, rattles and cribs... oh, my!
Traduo: Maria Cecilia Zanlorenzi
Editor: Janice Florido
Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
Paginador: Nair Fernandes da Silva
 
Querida leitora,

Neste livro Leanna Wilson aborda um tema delicado: a infertilidade feminina. E mostra que, embora o problema destrua o sonho de muitas mulheres,  preciso manter olhos abertos para as boas surpresas. A vida muitas vezes oferece compensaes. Se bastam ou no,  uma questo pessoal. Mas trazem esperana e alegria, como trazem! Tenho certeza de que voc vai adorar esta histria!

 
CAPTULO I
Bebs, chocalhos e beros... Oh, meu Deus!
Sydney Reede massageou a testa na altura das sobrancelhas na tentativa de aliviar a terrvel dor de cabea. Por que aceitara aquela tarefa? Como organizaria o ch de beb?
Convites delicados em tons de rosa e azul, uma lista de utenslios para bebs e receitas de suculentos aperitivos pareciam no bastar.
A organizao da festa deveria ser to simples quanto fatiar uma torta de chocolate. Em vez disso, estava deixando-a em pnico.
E era tudo culpa de Roxie.
Se sua colega de trabalho no tivesse engravidado, nem a acolhido to bem desde sua mudana para Dallas, ento no se sentiria obrigada a organizar o ch de seu beb.
Mas a opo da futura mame em abandonar a carreira aps o nascimento da criana abria para Sydney uma bela possibilidade de ascenso profissional. E, para que esse sonho se concretizasse, seria preciso ir alm de seu habitual e excelente desempenho cotidiano no trabalho.
Teria de agir de maneira poltica dentro da empresa, fazendo-se no apenas necessria como desejvel na nova funo.
Enfim, por causa de Roxie, via-se em uma situao no mnimo incomum: dirigia-se  casa de um estranho para ter aulas de culinria!
Ser que perdera o juzo?
Lembrou-se de sua chefe dizendo: Eu a-do-ro baklava. Considere servir este prato no ch de beb de Roxie.  uma sobremesa maravilhosa com tanta tradio familiar...
Ellen ficara com expresso suave e distante no olhar normalmente glido. E logo acrescentara: Mame costumava servi-la em ocasies especiais. E o que  mais especial do que um ch de beb? Qual era mesmo a especiaria que ela sempre usava? Canela, mel...? Gostaria de me lembrar. Oh, mas voc descobrir.  o toque especial que diferencia um baklava dos demais, que em geral so muito simples.
Baklavas simples? A sobremesa era rica o bastante para ser servida em um palcio!
Sydney seguira passo a passo a receita encontrada em uma das muitas bibliotecas onde pesquisara sobre pratos tpicos. Apenas acrescentara uma pitada de canela na esperana de agradar o paladar da chefe e ganhar alguns pontos em sua avaliao.
Sua chefe no fora a nica a fazer uma requisio especial, entretanto. Roxie, a futura mame, implorara por um pudim de chocolate. E a vice-presidente da empresa sugerira creme brul Aquela iguaria parecia difcil de preparar, mas a mulher jurara que o sabor celestial compensava o esforo.
Bem, seria bom se o esforo se convertesse em uma promoo, pensou Sydney.
Imaginara que seria capaz de preparar tudo com a facilidade com que tantas vezes fizera panquecas em formato de animais nas manhs de sbado para os irmos, ento crianas.
Claro, sabia que os pratos favoritos da chefe e da vice-presidente no bastariam para elev-la ao cargo de Roxie. Mas tambm no a prejudicariam.
Queria demonstrar que sempre tinha boa vontade e era capaz de correr um quilmetro alm do habitual... ou, nesse caso, de preparar alguns quilos de massa alm de sua cota, por uma boa causa.
Mas sua confiana rura como um pudim aguado quando Sydney tirou a primeira poro de baklava do forno.
Pensou que a massa ficaria firme... ou fofa... ou pelo menos unida. Isso no aconteceu. Parecia a erupo de um vulco, mais dura do que pedra e com um sabor terrvel.
Aps ter desperdiado um final de semana inteiro experimentando receitas aps receitas, Sydney finalmente despiu o avental sujo de farinha e foi para o telefone.
Roxie comeara aquilo, e a futura mame talvez pudesse salv-la.
O calor do Texas umedecia os cabelos da nuca de Sydney o ela ajeitou as mechas curtas, corte que adotara pouco tempo aps seu divrcio no ano anterior.
Estacionou o carro, fechou a porta do passageiro e acomodou a sacola com livros no ombro. Suspirando, caminhou at a casa com pedras vermelhas situada na esquina.
O calor parecia emudecer toda a vizinhana, ornada com altos carvalhos a formar um teto verde sobre a rua. Ficou imaginando que tipo de homem moraria em uma regio to pitoresca.
Nada sabia sobre Luke Crandall, a no ser o pouco que Roxie lhe contara. Ele havia ganhado diversos prmios por suas habilidades culinrias e era dono de um restaurante.
Somente o desespero a fez concordar em encontrar-se com ele. Ainda se lembrava do som da voz grave ao telefone quando combinaram o encontro... ou melhor, o horrio para a aula de culinria.
Quando alcanou a porta, colocou a sacola pesada no cho, aprumou-se e aspirou profundamente para se acalmar. Buscou a campainha, rezando para que Luke Crandall realmente fosse capaz de ajud-la.
Antes que pudesse pressionar o boto, entretanto, a porta foi aberta subitamente. Atnita, Sydney prendeu a respirao e deu um passo para trs. O homem a sua frente literalmente roubara-lhe o flego.
 No toque a campainha  o sussurro era em tom de urgncia, quase desespero.
Os olhos escuros do estranho pareciam pertencer a um louco. O corao de Sydney disparou.
No podia ser aquele o homem indicado por Roxie.
Suas mos eram grandes e rudes, como se estivesse habituado a usar um machado em vez de uma colher. Poderia provavelmente dividi-la em dois pedaos com as mos. E duvidava que fosse sentir remorso.
Seu corao parecia bater descompassado e frentico. Claro, estava na casa errada! Imediatamente seu olhar procurou os nmeros no batente da porta, comparando-os com o endereo cravado em sua excelente memria. Ser que Roxie dera-lhe o endereo errado?
 Sr. Crandall?  indagou, arregalando os olhos ao fitar o dele, to pecaminosos a ponto de deix-la arrepiada.
 Luke  corrigiu-a, ainda falando baixo. Uma sensao estranha invadiu Sydney.
Estava diante do homem certo. Luke Crandall. Mas a constatao no a acalmava.
Talvez porque ele no combinasse com o que havia imaginado: um chef rechonchudo que vivia experimentando molhos. Um tipo parecido com um urso de pelcia, muito animado e afetuoso.
Aquele sujeito, com a barba por fazer, parecia-se mais com um urso pardo. Os cabelos escuros e ondulados estavam em desalinho como a juba de um leo. A musculatura peitoral era ressaltada a cada leve movimento, escondida apenas por uma camiseta branca simples que tornava-o sensual demais para um chef... e muito perigoso para ela.
Sydney deixou que o olhar passeasse por aquele corpo, dos ombros largos aos quadris estreitos. A cala jeans ganhara um tom esbranquiado nos joelhos e estava desfiada perto dos ps descalos. Os sentidos dela ficaram plenamente alertas.
 Srta. Reede?
Seu olhar subiu para o rosto de Luke Crandall. Engoliu em seco ao perceber que fora flagrada observando-o. Assentiu.
 Sydney  balbuciou. Ento, engolindo a perturbao, acrescentou:  Vim em um momento ruim?  Olhou para o relgio de pulso para certificar-se do horrio.  Pensei que tivssemos combinado s duas horas.
Ele passou a mo pelo rosto.
 J so duas horas?
 Sim.
 Ouvi a porta do carro bater. O som me acordou. Quando eu a avistei andando pela calada, pensei...  Seu olhar pousou no terninho de linho de Sydney.  Achei que estivesse vendendo algo. Como cosmticos.
 Ainda no.
Inconscientemente Sydney ajeitou a blusa branca e deu mais um passo para trs, decidida a contratar uma cozinheira e esquecer-se da tentativa de agradar a chefe, a vice-presidente e Roxie. Preferia qualquer coisa a colocar os ps na casa daquele homem.
 Eu poderia voltar mais tarde e...
 No h problema algum...  disse ele, olhando para trs por sobre o ombro.  Combinamos mesmo s duas horas.  Ento baixou o tom de voz para um sussurro.  Normalmente no durmo  tarde, mas foi uma noite e tanto.
Ela arregalou os olhos, surpresa. Luke deu de ombros, como se o comentrio explicasse tudo.
 Entre  convidou, abrindo a porta amplamente. Sirenes tocaram na mente de Sydney. Sentia-se como uma atriz sendo convidada a entrar no castelo de Drcula enquanto a audincia gritava: No entre!
Algo estava errado por ali.
Aquele homem era amigo e antigo chefe de Roxie. Certamente a colega no a teria mandado falar com algum perigoso.
 Trabalhou at tarde no restaurante?
 No. Emily manteve-me acordado. Mais uma vez  acrescentou, franzindo a testa.
Emily? Roxie no mencionara uma esposa ou namorada. Estaria atrapalhando algum encontro? Mordeu o lbio. Ora, no se importava com a vida particular dele.
 Talvez eu deva retornar mais tarde.
 No  falou de prontido, segurando-lhe o pulso como se a mo fosse uma algema.
Sydney sentiu um frio na regio do estmago. O sangue pareceu gelar, depois ficar quente.
 Deixe-me ir.  Tentou parecer mais forte e durona do que seus joelhos bambos indicavam. Aprumou os ombros e encarou-o.
 Preciso de voc.
O tom de voz de Luke Crandall abalou as defesas de Sydney. Ela observou os olhos escuros, quase negros. Pareciam capazes de devor-la. Ento sentiu um calor pelo corpo todo. O brao cujo pulso ainda estava sob domnio dos dedos fortes relaxou e imediatamente foi solto. Sydney poderia, ter se afastado, mas no conseguia se mover. O olhar firme a hipnotizava.
Ele piscou e deu um passo para trs, como se acabasse de perceber o que fizera.
 Desculpe.
Seu olhar caiu para a marca esbranquiada que seus dedos haviam gerado no pulso delicado de Sydney.
 Roxie falou que voc poderia ajudar.
 No em relao a sua vida pessoal. Sou contadora, sr. Crandall. No conselheira.
Observou-a dos ps  cabea, com vagar.
 No se parece com qualquer contador que eu j tenha visto. 
Ela cruzou os braos.
 As aparncias enganam. Voc tambm no parece um chef.
 E o que esperava? Algum gorducho e sorridente? 
Sim, pensou Sydney. Estaria se sentindo muito mais segura e infinitamente mais confiante.
Se antes julgara-o apenas sensual, enganara-se. Quando ele sorria, um raio de sol transformava seu rosto, fazendo os olhos escuros queimarem como carvo. Os dentes brancos pareciam ainda mais brilhantes contra o escuro da barba por fazer. E a boca larga fazia-a pensar em beijos roubados.
Ele riu, o som reverberando no calor da tarde. Os ombros ento penderam para a frente como se o riso lhe causasse dor.
 L vai. Um  disse, apontando um dedo na direo de Sydney , dois  acrescentou outro dedo , trs!  completou, fechando os olhos firmemente.
Um grito estridente comeou em algum lugar atrs dele. O choro de beb tornou-se um longo lamento.
 Entre  convidou-a, dando alguns passos para trs. Ento virou-se, passou a correr e falou por sobre o ombro:  Voltarei logo.
Desapareceu na escurido da casa, os ps nus ecoando contra o piso de madeira.
Atnita, Sydney permaneceu na varanda. O choro de beb a envolvia. Para seu corao de mulher, a vida simplesmente parecia injusta.
Determinada a superar sua frustrao, comeara uma vida nova. Decidira dedicar-se a uma carreira de sucesso, o que a maior parte das mulheres com famlia e filhos no podia conquistar. Ascenderia na escala da corporao to longe quanto pudesse. Nada a deteria.
Sentindo-se melhor, observou Luke reaparecer, ninando um beb rechonchudo. A garotinha, vestindo macaco rosa florido, tinha os olhos escuros do pai e cabelos pretos. O choro cessara, e Sydney ouvia murmrios de deleite.
Observou o homem grandalho sorrindo ao aconchegar o beb contra o peito. O corao dela enterneceu-se e, mesmo assim, ardeu com uma dor to intensa que a sufocava.
Luke girou a pequenina nos braos para que Sydney observasse seu rostinho e disse:
 Esta  Emily. Roxie falou que voc poderia me dar alguns conselhos sobre como cri-la em troca das aulas de culinria.
Sydney sentiu um n na garganta e obrigou-se a engolir em seco.
 Falou?
 Achei que Roxie houvesse lhe explicado tudo...
Por que Roxie no lhe falara? Ser que a amiga sabia que no teria vindo? E por que a esposa de Luke no o ajudava?
Ora, estava se precipitando. No queria saber a resposta. Francamente, no gostaria de saber mais nada sobre aquele cozinheiro sensual e sua filha adorvel.
Pegou a sacola com livros de receitas e disse em tom formal: 
 Desculpe, sr. Crandall. Houve um engano.  Sentia-se anestesiada.  No posso ajud-lo com seu beb.
Ele franziu a testa e deixou de sorrir, deixando-a com uma sensao de traio.
 Voc no ajudou a criar seus irmos e irm? Roxie disse... 
Os joelhos de Sydney fraquejaram, mas no sua resoluo.
No era uma bab, era uma contadora.
 Escute, sr. Crandall...
 Luke  corrigiu-a.
Colocou as mos sob os braos da menina. Ergueu e baixou-a algumas vezes, fazendo-a rir.
Sydney desviou o olhar do rosto pueril e encontrou os olhos firmes de Luke a encar-la com frrea determinao.
 Luke  ela repetiu. Percebeu como sua voz estava trmula e franziu a testa.  E-eu no sei de tudo o que Roxie lhe falou, mas...
Ele deu um passo adiante, sua sombra envolvendo-a e fazendo Sydney esquecer as palavras.
 Ela falou que voc sabia lidar com crianas.
 Sabia... M-mas no tenho estado com nenhuma j h algum tempo.
Lembrou-se do cheiro adocicado de beb de sua irm e dos abraos entusiasmados dos irmos mais novos. Sua resoluo fraquejou.
 Meus irmos e irm so adultos.
 Voc no pode me ajudar?
As rugas no rosto dele se intensificaram. Sydney sentiu o corao contrair.
 O que eu farei agora?  acrescentou, desconsolado.
Ela procurou fortalecer a resistncia, mas o desespero naquela voz e a dor no olhar venceram sua tentativa. E se no o ajudasse, ento talvez no recebesse auxlio tambm.
A quem mais poderia recorrer para ajud-la com o ch de beb? No tinha tempo para aulas tradicionais. O que faria? Desistiria?
No, nunca desistia. Ou, emendou, raramente desistia.
Era muito importante que o ch de beb desse certo. Sua carreira inteira poderia estar em jogo. Bem, talvez estivesse exagerando, mas sua pulsao acelerada fazia-a sentir como se estivesse escolhendo entre uma carreira e o desemprego.
Simplesmente teria de afastar a irritao e fazer o que era preciso. Como se puxando as mangas para uma tarefa desagradvel, endireitou os ombros e deu um passo decisivo adiante. Sim, faria o que era necessrio e depois voltaria  rotina de sempre...  solido.
 Verei o que posso fazer.

Luke Crandall sentia-se como que resgatado de um pntano. O intenso alvio, entretanto, vagarosamente foi se transformando em sensao de culpa.
Ento Sydney no soubera do preo da aula de culinria. Por que Roxie deixara de dizer isso a ela?
Afastou as preocupaes. Sydney Reede estava ali. E Luke precisava de sua ajuda.
Ajeitou Emily nos ombros. Inquieta, a menina agarrou-lhe os cabelos com fora. Luke fez uma careta de dor. Apoiou as costas pequeninas e quadris em uma mo e conduziu Sydney pela zona de desastre em que sua casa fora transformada.
Parecia que um tornado havia passado pela sala de estar. Os cuidados para com Emily requeriam mais energia e tempo do que imaginara. Durante a ltima semana, nem sequer importara-se em reunir os brinquedos. Ou qualquer outra coisa. Estivera ocupado demais alimentando ou trocando a menina.
 Roxie lhe falou alguma coisa a respeito de Emily?  indagou, encarando a visitante.
Tentou ignorar como os lbios rosados eram belos. Seria impossvel, entretanto, conter sua reao a Sydney Reede. Naqueles olhos grandes e azuis como um dia de vero no Texas, havia determinao e calor humano.
Se a houvesse conhecido duas semanas atrs, teria cedido ao luxo de cortej-la. No para um relacionamento longo, porm. Esse nunca fora seu objetivo com mulheres. Mas gostava do jogo da conquista.
Atualmente, entretanto, no tinha tempo nem energia para isso. E tudo por causa de Emily.
Ora, mas em que estava pensando?, admoestou-se. De modo algum estava ressentido com a chegada da pequenina e doce filha a sua vida.
 No.  A voz de Sydney pareceu ento mais suave ao acrescentar:  O que Roxie devia ter me contado?
 Na verdade nada. Pensei apenas que poderia ter explicado esta... emergncia.
 No sou bab  disse com convico.
 No, no. Voc interpretou mal. Veja, a me de Emily... Sheila... minha ex-namorada... bem, no somos casados. Ela teve Emily. Dez meses atrs.
Sydney arregalou os olhos.
 Isto realmente no constitui uma emergncia nos dias atuais, sr...
 Luke. A emergncia ... aqui. Agora. Eu no sabia da existncia do beb.  Ele balanou a cabea, ainda no acreditando nos eventos dos ltimos dias.  No sabia at a semana passada. No estvamos juntos quando ela descobriu que eslava grvida. Ento Sheila decidiu ter o beb sozinha.
 Por qu?  Sydney perguntou, deixando-o perplexo. Luke deu de ombros, tambm no entendendo muito bem o motivo. Filho de um lar desfeito, sabia a importncia da Ia mi lia. Ou da falta de uma.
Conhecia a dor de no ter um pai, de a me estar absorvida demais nos prprios fracassos para prestar ateno nele.
Sheila nunca parecera muito maternal. Certamente jamais se Interessou por casamento. Luke a conhecera em Dallas, durante unia visita de negcios. Apreciara sua independncia, determinao e discernimento. Mas, acima de tudo, o quanto era racional.
Observou o terninho de linho de Sydney e a blusa branca, pareciam ser do mesmo estilo de Sheila. Por que Roxie achara que Sydney sabia alguma coisa sobre bebs? Antes de concordar com aquela troca de... bem, servios, era melhor descobrir suas credenciais.
 A me de Emily  uma mulher de carreira como voc. Sempre investindo no sucesso profissional. Fico surpreso por ela ter seguido com a gravidez.
 Por que ela no entrou em contato com voc?  perguntou Sydney, as palavras saindo vagarosamente de seus lbios e os olhos azuis tornando-se to frios quanto o cu de inverno.
 Est imaginando como sei que Emy  minha  disse com um sorriso.  Eu teria duvidado... questionado mais se Sheila no fosse uma das mulheres mais honestas que eu j conheci. Alm de Emy ser muito parecida comigo.
Ele ajeitou a menina nos braos e virou-a para que Sydney pudesse observ-la melhor. Em seguida apoiou o rosto no da filha. Ambos sorriam. Orgulho e amor faziam o peito de Luke expandir-se agradavelmente.
 Voc no acha?
Houve um brilho estranho nos olhos de Sydney. Ela engoliu em seco, os msculos de sua garganta parecendo rijos.
 Sim.
 Olhe para isto.  Virou-se e pegou uma pequena fotografia em preto-e-branco do aparador.
 Achei outra noite, aps Emily finalmente adormecer.
A impressionante semelhana nos cabelos quase pretos, olhos negros e nariz ainda o espantava, emocionava e levava lgrimas a seus olhos.
Sydney assentiu.
 Sem dvida alguma  muito parecida com voc.
Seus olhares se encontraram. Um calor especial o tomava. Tossiu, sentindo-se meio tolo, vulnervel at.
Teria detectado certa rouquido na voz de Sydney? Suas palavras foram elogiosas, e Luke procurou engolir uma resposta maliciosa. No era o mesmo homem de outrora. Sua filha o havia alterado.
Ento notou a postura quase defensiva de Sydney. Mas disse a si mesmo que o interesse dele pela recm-chegada era at natural, Afinal, via-se trancado em casa havia quase uma semana. Sentia-se como um animal enjaulado e...
Ora, novamente atribua a Emily seu confinamento. No era culpa da menina!
 Bem  tentou hesitante , se voc se oferecer para trocar a fralda de Emy, ento poder verificar melhor as semelhanas.
 Troca de fraldas faz parte das tarefas de um pai  alegou.  Voc precisa praticar.
O sorriso de Luke esmoreceu com a fora da realidade. Anos de trocas de fraldas, refeies interminveis com colher, limpeza, baguna sem fim... Sentiu-se sufocado com o peso da responsabilidade.
A boca de Sydney curvou-se em um delicioso sorriso que o fez pensar em beijos perfumados e suaves que poderiam durar a metade da noite. Seu corpo pareceu acordar. Aquela mulher o tentava a esquecer-se das responsabilidades... conforme seu pai fez em relao  famlia.
Ento Emily resmungou, e Luke mentalmente condenou-se por at mesmo ter pensado em dar as costas  filha. Que espcie de pai era?
Pousou o dedo no minsculo nariz da criana.
 Ela pode ter minha aparncia, mas a termina a similaridade. Nos outros aspectos, acho que  como a me. Gosta de permanecer acordada metade da noite e de despertar ao alvorecer. Voc acha que o relgio biolgico dela ainda responde aos horrios da costa leste? Alm disto,  muito decidida em relao ao que come. Esta caracterstica certamente no herdou de mim.
 Pensei que chefs fossem muito exigentes quanto ao que comem  Sydney desafiou-o.
 Gosto de toda espcie de comida. Mas Emy aprecia apenas queijo e ameixas.
 Ela tomava mamadeira com leite especial? A me de sua filha disse alguma coisa a respeito?
 Sim, Emily bebe leite duas vezes por dia. Mas detesta cereal. E no posso culp-la. Parece cola. No comer metade das coisas que Sheila falou para eu tentar. Fiz folhado de ma.  uma especialidade de meu restaurante. H clientes que voltam muitas vezes apenas por causa do folhado. Ento, preparei o creme com ma sem toda aquela massa, na esperana de que Emy comesse. Mas ela torceu o nariz.
 Provavelmente est um pouco desorientada  Sydney explicou.  O mundo dela foi virado de cabea para baixo.
Assim como o de Luke.
 Leva tempo.
 Talvez esteja certa.
Claro, demoraria para ele transformar-se de celibatrio em pai devotado.
Luke sentou-se no brao do sof e pousou a filha na perna. Emily balanou as pernas e gritou alegremente.
 Sheila no tinha muito tempo para dar explicaes. Basicamente deixou Emily e partiu no avio seguinte.
 Mas isso  terrvel! 
Ele deu de ombros.
 Era minha vez. Ela disse que j havia feito sua parte. E deixou Emily comigo, juntamente com os papis da custdia assinados e selados.
 Nunca consideraram se casar?
Surpreso com o comentrio, Luke balanou a cabea em sinal negativo.
 Jamais me casaria com algum que eu no amasse. Sei que parece terrvel, mas Sheila tambm pensa assim.
O leve mexer na sobrancelha de Sydney mostrava sua desaprovao, mesmo enquanto tentava aparentar calma. Ela ajeitou os cabelos curtos e ruivos, atraindo o olhar de Luke para o pescoo bonito.
Algo em Sydney, talvez o rosto em formato de corao, os cabelos avermelhados em contraste com a pele alva ou os expressivos olhos azuis como brilhantes safiras... alguma coisa o deixava inquieto.
Seria a antecipao de algo? Deveria afastar-se daquela beleza aparentemente inocente? Ou tentar conhec-la melhor?
Definitivamente no! Entre as constantes necessidades de Emily e o restaurante, mal tinha tempo de dormir!
O olhar de Sydney pousou na criana. Algo em seus olhos suavizou-se, notou Luke.
 H quanto tempo est com Emily?
 Uma semana.
A menina resmungou, e Luke ergueu-a e baixou conforme vira em um filme. Vira muitas reprises naquela semana, enquanto alimentava Emily no meio da noite.
A menina brindou-o com um sorriso que derreteu seu corao. Sua filha! Nunca imaginou que pudesse sentir uma conexo to forte com algum. Cada vez que a fitava, ficava embasbacado.
Podia passar horas observando os minsculos dedos curvando-se ao redor do seu, a boca sugando o leite da mamadeira, os olhos repletos de luz. Por um instante, o fardo da responsabilidade foi aliviado, e seu corao pareceu leve.
 Ela parece feliz e saudvel. O que mais voc espera? 
Segurava a sacola de encontro ao corpo, pronta para ir embora. A pulsao de Luke acelerou. No podia deix-la partir. Precisava de sua ajuda. Havia tantas perguntas a respeito daquele mundo de fraldas e macaces. E aquela moa parecia ter algumas das respostas que to desesperadamente vinha buscando.
Colocou Emily no cercado. Disfaradamente deu alguns passos de forma a ficar entre Sydney e a porta da sada.
 Preciso de ajuda, Sydney  falou com desespero e imensa honestidade.  No sei o que estou fazendo. No sou qualificado para trocar fraldas ou... ou para aliment-la tarde da noite. Eu recebi plena custdia de uma criana... minha filha. Tenho trinta e cinco anos, pelo amor de Deus! O que sei sobre bebs? Estou velho demais, muito habituado ao estilo de vida que venho levando e tambm sou irresponsvel.  Fitou-a de soslaio.  Assim minhas ex-namoradas me disseram. 
 Mas no a me de Emily, certo?
Ele esfregou os olhos ardentes, desejando poder dormir durante doze horas ininterruptas. No tinha uma noite inteira de sono desde...
Desde a chegada de Emily.
Como que percebendo seu estado de esprito, a pequenina lanou os pulsos para o ar e comeou a chorar. Seu rosto transformou-se, os olhinhos fechados.
Era uma linda criana... quando no estava chorando, vomitando ou aprontando qualquer outra coisa no muito agradvel que os bebs faziam. O que, Luke descobrira, era mais do que havia imaginado ou gostaria de saber.
A dor de cabea pareceu intensificar-se, roubando-lhe a pacincia.
 Como devo lidar com isto? No sei o que ela quer... ou precisa. Se ao menos Emily pudesse conversar! O que ela quer agora?
Durante a maior parte do tempo, a menina chorava e balbuciava palavras que o faziam pensar que ele perdera o juzo. Talvez tivesse mesmo enlouquecido.
 Seu carneiro.
Sydney sorriu. Sorriu de verdade. No como at o momento, um sorriso contido.
Mas o que Sydney achara to engraado assim? Os gritos de Emily pareciam facadas em sua espinha dorsal. Mas, ao mesmo tempo, notou o trao sedutor da boca de sua visitante, o movimento dos lbios. A atrao poderosa que sentia por ela o dominava.
 Emily quer o carneiro. 
Havia um qu de riso em sua voz. O que era aquilo? Luke limitou-se a fit-la. Sydney se ajoelhou e pegou o carneiro de pelcia do lado de fora do cercado, colocando-o nos braos de Emily.
 V? Ela est feliz agora.
 Sabia que Roxie tinha razo. Voc conhece crianas! Ela estreitou o olhar.
 Isto no requer clculo.
 Mas voc criou seus irmos, certo?
 Ajudei a cri-los  corrigiu-o, olhando de soslaio para Emily.  Eu tinha nove anos quando mame morreu. Minha irm mais nova, Jennie, era mais nova do que sua filha. E meus dois irmos ainda usavam fraldas. Como pode perceber, comecei cedo no mundo das mamadeiras.
No precisava mais se preocupar com as qualificaes dela. Luke comeou andar de um lado para outro. Desejava ter irmos e irms. Nada sabia sobre bebs, exceto o que aprendera em um curso intensivo na semana anterior.
 H tanto que eu no sei. Por exemplo: ela dorme o suficiente? Est comendo o bastante?
Muitas perguntas se digladiavam em sua cabea como em uma partida de pingue-pongue.
 Eu devo ter cerveja na geladeira? E se ela pegar uma lata? Seria perigoso? Eu deveria jogar fora as matrias sobre trajes de banho da revista de esportes? Ser que daria a Emily idias distorcidas? E quanto a...
 Espere a!  exclamou Sydney, o sorriso amplo.  Levar um bom tempo at voc ter de se preocupar com namorados e com a conta da festa de casamento.
Ele sentiu que empalidecia.
Sydney riu, o som ecoando pela sala como um conjunto de sinos tocados ao mesmo tempo. A tenso no rosto delicado sumira como por encanto. O sorriso trazia covinhas perto da boca.
Luke sentiu-se desconfortvel com a sbita atrao.
 Estou me preocupando antecipadamente, no ? 
Sydney deu-lhe uma piscadela amigvel.
 Talvez um pouco. Ser pai no  como seguir uma lista do que fazer e no fazer.
 No h um livro de cabeceira que todos estejam escondendo de mim?
 No. E acho que no se conseguiria colocar tudo o que se precisa saber quanto  paternidade em uma enciclopdia.
Ele coou o queixo, sentindo a barba cutucar seu dedo. Olhou para Sydney e subitamente sentiu-se despenteado e desalinhado.
Quando fizera a barba pela ltima vez? Uma mulher como ela, to bem vestida para uma aula de culinria, provavelmente gostava de homens impecveis.
Ento mentalmente admoestou-se. Por que se importava com a opinio de Sydney? Precisava somente de alguns conselhos sobre bebs... No estava buscando sua aprovao, nem mesmo um encontro.
 Voc est dizendo que h mais do que eu conseguiria aprender.
Ela deu um passo adiante e pousou a mo com delicadeza no ombro de Luke.
 Absolutamente.
O toque aqueceu-lhe o sangue em vez de acalmar suas preocupaes. Sydney fazia-o pensar em passeios ao luar, em quentes noites de vero. Algo em que provavelmente no deveria estar pensando com a filha ali por perto.
Procurou conter seu interesse por aquela mulher, como se estivesse domando um cavalo selvagem. Pousou o olhar em Emily. A menina estava sentada, as pernas fofas formando dobras encantadoras. Mastigava a orelha do carneiro de pelcia. Ela era a mulher mais importante de sua vida atualmente.
 Voc est sentindo todos os temores e preocupaes naturais de um pai  disse Sydney, a voz suave como lenis de cetim.  No pode saber tudo. H muitos fatores desconhecidos. Encare a situao; voc cometer erros, seus pais cometeram e os meus tambm. E todos ns sobrevivemos.
Sobrevivemos? Sim. Ele sofrer as piores conseqncias da to citada unidade familiar desfeita. E prometera a si mesmo que Emily no conheceria aquele pesadelo.
 Voc no fala como uma contadora. 
Observou-a. Sydney sabia identificar to bem os pensamentos, temores e hesitaes dele!
 Conforme eu disse, as aparncias enganam.
Sydney olhou para o lugar onde o tocava, como se somente naquele instante houvesse percebido tal proximidade, e, em uma frao de segundo, afastou a mo.
Luke foi para o lado oposto do cercado para aumentar a distncia.
 Voc ter tempo de descobrir o que julga ser o melhor para sua filha. Converse com outros pais. Tenho certeza de que h muitos clubes aos quais se filiar. Grupos de apoio, at. Eu tambm no conheo todas as respostas.
 Mas disse que ajudou a criar seus irmos e irm. 
Colocou toda sua esperana na ltima frase. Observou as feies delicadas de Sydney parecerem congeladas. Ela escondia todas suas emoes atrs dos clios densos.
 Criei. E todos esto bem. Mas no se pode dar o crdito a mim. Papai era maravilhoso.
 Mas voc ajudou.
 Sim, ajudei.
 Ento pode me ajudar tambm. Temporariamente. At eu conseguir me habituar... e a transformar a paternidade em arte.
 Bem, no tenho tempo para isto.  Lanou-lhe um sorriso que rapidamente esmoreceu.
 No vai demorar muito. Talvez algumas noites somente... para quando eu tiver uma pergunta. Como se ela tossir. Ou ficar com febre. Ou comer sujeira.
Sydney falou com contida exasperao:
 Ligue para a emergncia. Faa um curso de primeiros socorros. Caso contrrio, telefone para um mdico. E lembre-se, sujeira no vai machuc-la.
Aps uma semana sentindo-se isolado e s, precisava de algum disposto a discutir a situao com ele. Necessitava de respostas s suas perguntas. E no estava disposto a desistir.
 Claro, teremos de passar algum tempo juntos para seu aprendizado em culinria  comentou Luke com fingida casualidade.
Deixou que a idia encontrasse eco. Vagarosamente percebeu que Sydney dava-se conta do que ele falara. Ela cruzou os braos.
 Roxie disse que voc  um excelente cozinheiro. 
Ento era essa a frase, mas Luke percebia dvidas no tom de voz rouco. Engoliu qualquer modstia que normalmente demonstrava. Precisava impressionar aquela mulher, fazer com que o julgasse o nico cozinheiro capaz de ajud-la.
 Ganhei diversos prmios. Que espcie de escola culinria voc est tentando seguir?
 Uma mistura de todas, mas principalmente francesa. Como pudim de chocolate e creme brul.
 Francesa?  Engoliu em seco, tentando esconder a preocupao. Coou o queixo.
Luke sabia fazer batata frita, sopa francesa de cebola, po francs e algumas bebidas, mas no podia considerar-se especialista no assunto. Talvez pudesse inventar uma nova variedade dentro da cozinha francesa... talvez chili vegetariano servido com croissant. Mas quem compraria?
 Voc est qualificado?
Luke alcanara sua reputao preparando chili bem apimentado e a melhor cerveja da cidade. Chamava seu estabelecimento de Cavalo de Ao porque os clientes precisavam ter um estmago revestido com ao para suportar o chili apimentado e a cerveja forte. Mas tambm criou um folhado de ma quente e uma sobremesa que batizou de Chocolate Derretido, ambas capazes de fazer a maior parte das mulheres salivarem.
Por que no cozinha francesa?
 Mas  claro!  falou animadamente, escondendo suas dvidas atrs de um sorriso encantador.  Oui, mademoiselleu!



CAPTULO II
Uma mulher de carreira como voc. A simples frase, que mais soara como uma acusao, ainda pairava na mente de Sydney dois dias depois, no trabalho. No negara a comparao entre ela e a ex-namorada de Luke... embora soubesse que no era verdadeira.
A me de Emily fora capaz de gerar um beb. Sydney no. A ferida se abriu dentro dela, causando indescritvel dor. Como aquela mulher pudera desistir da filha como se a pequenina fosse uma pea de roupa usada?
Empilhou os papis que estavam sobre a escrivaninha. Sabia no haver comparao verdadeira entre ela e a me de Emily. Mas a concluso de Luke era mais fcil de ser digerida do que a pergunta que Sydney mais odiava: Como uma moa bonita como voc no est casada e com filhos?
A indagao sempre era dita, supunha, em tom de elogio, mas parecia uma faca dilacerando sua esperana, destruindo seus sonhos.
Tivera a oportunidade de ser uma espcie de me para os irmos. Mesmo assim, fora-lhe negada a oportunidade de gerar filhos. A realidade cruel abalou seu esprito, sua vida. E a reconstruo estava sendo dolorosa.
Aps anos de tentativa finalmente conseguira encarar a verdade dolorosa, desistindo do sonho da maternidade e replanejando seus objetivos. Passara a centrar a vida na carreira.
Sentiu um aperto no peito. Sabia que a carreira jamais substituiria de verdade a sensao de ter um filho seu nos braos. Mas nada poderia fazer a respeito.
Ao menos a concentrao na carreira ajudava-a a suportar os dias longos, vazios... e solitrios.
 Bom dia!
Olhou para cima, procurando ocultar as emoes, escondendo-as no corao, e conseguiu sorrir para Roxie, que parar ao lado dela.
A futura mame endireitou as costas, fazendo a barriga proeminente destacar-se mais.
Sentindo-se desconfortvel em olhar para o ventre expandido, Sydney voltou-se para os papis, ajeitando a pilha como se aquela fosse uma misso muito importante.
Piscou para afugentar as lgrimas que, imaginara, haviam cessado meses atrs e conseguiu perguntar:
  mesmo?
 Qual o problema?  Roxie apoiou o quadril na beirada da escrivaninha,  O encontro com Luke no correu bem?
 Oh, isto. Sim, acho que sim.
 Ento o que foi?
Sydney passou a mo na testa.
 Estou apenas preocupada com minha irm. Como eu, uma contadora, pude criar algum to irresponsvel com dinheiro? Mais uma vez Jennie estourou o oramento e pediu ajuda. E o que eu farei?
 Vai negar-lhe, claro.
Sydney sorriu ironicamente. Era outro motivo pelo qual queria... precisava daquela promoo. Oferecera-se para pagar os estudos da irm. Mas as despesas continuavam aumentando, multiplicando-se.
 Voc me conhece bem demais. 
Roxie assentiu.
 Sim. E sei quanto voc ama Jennie. Mas ela  jovem. Est na universidade. Vai aprender.
 Se eu conseguir colocar isto na cabea daquela teimosa.
Roxie riu.
 J chega de problemas. Quero ouvir as boas notcias. O que voc achou?
 De que est falando?
 Luke. Luke Crandall, lembra-se? 
Sydney deu de ombros.
 Oh, ele  legal. Simptico. 
 Legal? Simptico? Voc no o achou maravilhoso?
Sydney olhou para o teto.
 Para quem gosta de homens altos, morenos e sensuais...
 No, eu prefiro os baixinhos, rechonchudos e sem charme  ironizou a futura mame.
Roxie abanou-se e se inclinou para a frente o mximo que a barriga permitiu. Seus olhos cintilavam.
 Voc o achou sensual?
 Eu no disse...
 Sim, voc disse  rebateu, sorrindo satisfeita.
 No estou interessada em homem algum.  Sydney j estava cansada daquela conversa.  Sou uma mulher de carreira.
Roxie franziu a testa.
 E voc s quer trabalhar?
Como se o beb da amiga tivesse um m capaz de atrair seu olhar, Sydney observou a mo de Roxie passando pela barriga. Pelo menos no teria de preocupar-se em entrar em forma aps ter engolido uma semente de melancia.
A lembrana de Luke sorrindo com a filha nos braos retornou. Vira-o to orgulhoso com a semelhana entre ele e a menina... Emily era seu pequeno pedao de imortalidade...
 Como est se sentindo?  perguntou a Roxie.
 Como se eu devesse ter dado a luz trs meses atrs. Mas no mude de assunto. Responda minha pergunta.
 Est bancando a chefe agora?
 Sou sua amiga, Sydney  argumentou, colocando uma mo em seu ombro.  Sei que eu a coloquei em maus lenis com esse ch de beb.
Sydney fez um sinal negativo com a cabea, escondendo a verdade.
 Eu sou a responsvel  Roxie afirmou.  Ento diga-me o que decidiram.
Sabendo que no poderia esquivar-se do assunto, Sydney suspirou.
 Faremos uma sobremesa hoje  noite.
 Nossa!
Roxie arregalou os olhos diante do prprio tom alto de voz e riu, jogando a cabea para trs. Sydney levou um dedo aos lbios.
 Fale baixo. Eu no disse que faremos amor louca e apaixonadamente.
 Bem, eu posso ter esperana, no  mesmo?
 Voc  incorrigvel. Eu desisti dos homens. No tenho tempo para eles.
Virou a cadeira para a tela do computador.
 A nica coisa entre mim e Luke ser a comida do fogo.
 Claro. Voc est casada com o trabalho.
 Exatamente.
Mas Sydney sabia, por instinto, que havia uma labareda entre ela e Luke. E a idia a apavorava.
Por que aceitar um novo relacionamento se um dia seria obrigada a admitir que no era frtil? No, no suportaria ver pena naqueles olhos escuros e ento sentir frieza e desdm dominando o espao entre os dois.
Por que criaria outra oportunidade de se sentir inadequada? No valia a pena correr o risco da rejeio. Preferia ficar sozinha.
Ali, onde trabalhava, sua inabilidade em gerar filhos no importava. Estava segura, tinha controle da situao.
Na casa de Luke, entretanto, o clima no seria to ameno. Duvidava que a ansiedade e nervosismo que a presena dele lhe causavam acalmariam em breve. Sydney teria de confiar no beb para apagar a chama da atrao com a fria realidade.
J havia criado trs irmos, crianas que no eram suas. No tinha exatamente certeza do que Luke esperava que fizesse, mas no poderia criar o filho de outra pessoa novamente... Mesmo que seu corao chorasse por Emily, uma garotinha abandonada pela me, e seus olhos permanecessem fixos no sensual, porm sobrecarregado papai...

Entre os perodos de alimentao, troca de fraldas e breves sonos de Emily, Luke analisava os livros de receitas deixados por Sydney.
Pudera a mulher no ser capaz de cozinhar... Estava tentando agir como se tudo fosse uma receita de bolo! Um cozinheiro de verdade acrescentava ao preparo sua alma e um toque de inspirao.
Tendo a idia bsica na cabea, decidiu que improvisaria.
Como sempre.
 O que achou de Sydney?  Roxie perguntou ao telefone horas depois, naquela tarde de segunda-feira.
 Tem certeza de que ela conhece crianas?  perguntou, ninando Emily e equilibrando o fone entre o ouvido e o ombro.
 Sim, por qu?
 Ela no pareceu muito afeioada a minha filha. 
Roxie riu.
 Talvez tenha ficado perturbada demais com voc.
Ele fez um malabarismo com o queixo e enxugou a boquinha da filha com uma toalha de papel.
 Como assim?
 Ser que ficou encantada por um certo solteiro atraente? Voc sabe como as mulheres acham irresistvel a combinao de homens com bebs.
 No, no sei. Acha que eu deveria ir com Emy a um bar de solteiros?
Roxie riu novamente.
 Duvido que ela estivesse interessada em mim ou em Emily.
Lembrando-se do sorriso cauteloso de Sydney e de como demorara em concordar com a troca de favores, soube que teria de ser bastante perspicaz naquela noite. Comearia com vinho para que ela relaxasse e deixasse de pensar em cozinhar. Sabia como distrair uma mulher!
Se conseguisse encant-la, ento talvez as falhas dele no preparo dos doces nem fossem notadas.
Sim, usaria seu velho mtodo acrescido de algumas tcnicas novas para lhe mostrar que sabia cozinhar muito bem. Sydney experimentaria uma sobremesa deliciosa.
Decidira fazer seu chocolate derretido especial, mas teria de dar um toque para que parecesse mais francs. Talvez chocolate clair? Fez uma careta diante do prprio sotaque.
Ento teria Sydney em suas mos, disposta a lhe ensinar a fina arte de ser pai.
Afinal, quanto tempo ele precisaria para descobrir como fazer algumas sobremesas deliciosas para um grupo de mulheres? Resolvida a questo culinria, poderiam se concentrar nos cuidados para com Emily.
 Voc conhece algo sobre cozinha francesa?
 No  Roxie respondeu.  Eu saboreei uma boa garrafa de vinho certa vez. Quando penso melhor, ora, foi assim que fiquei grvida! Deve ser mais eficaz do que eu pensava.
 Manterei isto em mente. No quero mais surpresas. 
Estendeu para Emily o carneiro de pelcia.
 Sydney no parece interessada em um pai solteiro  disse Luke. Olhou debaixo da mesa da cozinha e atrs de uma caixa de cereais.  E eu apenas estou buscando orientao para criar Emily da melhor maneira possvel.
 Hum-hum.
Roxie despediu-se e desligou, deixando Luke duvidando das prprias palavras. Poderia admitir a si mesmo que Sydney Reede captara sua ateno?
Emily comeou a ficar inquieta, e Luke ps-se a cantar a msica favorita da filha, a nica que parecia capaz de acalm-la.
Lembrou-se que no havia espao em sua vida para uma mulher como Sydney. Emily virar seu mundo de cabea para baixo. Apaixonar-se, naquele momento, poderia aumentar o caos que reinava em sua casa.

Sydney chegara precisamente no horrio... e Luke estava atrasado mais uma vez.
Passados trinta minutos, ela j estava cansada de esperar que seu anfitrio e professor colocasse a filha na cama.
Tirou da sacola os suprimentos para fazer o baklava. Despiu as luvas de trabalho e foi, p ante p, para o corredor. O que o estaria detendo?
Minutos antes, o beb chorara com aquela expresso de frustrao, o rosto vermelho na tentativa de combater o sono bandido.
Sydney resistira a ir ao socorro de Luke. Ele precisava aprender a lidar com a situao. No deixaria que dependesse dela de modo algum, porque no estaria por perto aps o ch de beb.
Concordaram em trabalhar juntos no decorrer daquele ms. Apenas isso.
A luz suave do corredor se refletia no carpete bege, e um som murmurado alcanou-a ao se aproximar do quarto de Emily. Espiou dentro do cmodo s escuras e viu Luke com a filha nos braos, movendo-se para a frente e para trs em uma cadeira de balano.
Em um canto mais escuro, uma pirmide de fraldas empilhadas sobre a caixa em que vieram acondicionadas ameaava tombar. Brinquedos estavam espalhados no cho em uma cena tpica da loja de papai Noel.
Sydney permaneceu nas sombras, observando Luke, com sua mo grande e morena, dar tapinhas nas costas da filha em movimentos lentos e tranqilizadores.
Cantava algo que parecia uma cano de ninar, mas a voz grave e rouca impedia que Sydney compreendesse as palavras.
A cena terna emocionou-a. Apoiou a cabea no batente e ficou imaginando como seria ter um marido devotado assim ao filho. Pendeu a cabea para trs na tentativa de conter as lgrimas.
O que havia naquela casa que a fazia ter vontade de chorar o tempo todo? Gostava de sua vida como era. No precisava de um marido ou de um beb para sentir-se completa.
Pedaos da cano que Luke entoava intrometeram-se em seus pensamentos. Definitivamente no era uma cano de ninar tradicional.
Curiosa, meteu a cabea mais uma vez dentro do quarto. O olhar de Luke encontrou o dela, e a cano morreu em seus lbios, j curvados em um sorriso. Sua expresso parecia dizer: Voc me apanhou em flagrante!
 O que est fazendo?  sussurrou Sydney.
 Cantando para fazer minha filha dormir.
Falou no mesmo ritmo da cano e continuou a balanar a cadeira.
Sydney entrou no quarto com cuidado, desviando de blocos plsticos e de um carneiro de pelcia com a orelha torta. Parou defronte  cadeira de balano.
Inclinou-se e analisou o doce rosto de Emily, os clios longos e sedosos fazendo sombra nas bochechas rosadas, os lbios midos entreabertos. Ergueu a mo do beb e apoiou-a no ombro de Luke.
 Ela dormiu. Provavelmente dormir por um bom tempo.
 A noite toda?  A esperana fazia os olhos dele cintilarem.
 Nada de promessas. Voc j deveria saber disto a esta altura.
 Eu sei.  Apoiou a cabea no encosto da cadeira.  Bebs nunca dormem a noite toda?
 Uns, sim. Outros, no.
 timo. E o que eu fao para no dormir?
 Que tal caf? 
Luke franziu a testa.
 Por quanto tempo?
  melhor se acostumar. Voc sobreviver  dose alta de cafena. Novamente precisar desse recurso quando Emily for adolescente e ficar fora de casa at tarde com algum amigo da escola ou namorado. Ele ter uma mo no volante e a outra sobre os ombros de sua filha.
Sydney sorria.
 Voc est se divertindo muito com a situao, no  mesmo?
Luke resmungou e ajeitou Emily melhor no ombro. A pequenina cabea se ergueu e ento desabou novamente, a respirao pesada no ar silencioso do quarto. Ele soltou a respirao e beijou com ternura a cabea da filha. O corao de Sydney enterneceu-se.
 Ela est acordada?
Incapaz de falar por causa do n na garganta, Sydney balanou a cabea em sinal negativo.
 E agora, o que fao?  indagou, temendo se mover. Sydney aprumou-se, consciente demais da masculinidade dele mesclada ao perfume suave de loo para beb e mamadeira. Recusava-se a ceder ao charme do papai e  doura da criana. Precisava manter distncia. Foi at o bero e falou:
 Coloque-a aqui.
 Estou colado na cadeira.
 Colado?
Sydney franziu a testa e olhou para os quadris estreitos acomodados na cadeira de balano.
 Ora, voc me parece muito bem.
O quarto ficou no mais intenso silncio. O calor que pairava entre os dois tingia de vermelho o rosto dela, mas a penumbra a protegia. Tentou no olhar para Luke, mas foi impossvel.
 Continuo to bonito quanto meu beb?  indagou. Sydney ignorou-o.
 Apenas levante-se e coloque a menina no bero.
 E se eu a acordar?
 No vai acord-la.
 J fiz isto antes.
Ela suspirou, exasperada. O tempo passava. E sua aula de culinria? Antes de pensar melhor, estendeu os braos para pegar a criana. E ento j era tarde demais.
Sua mo roou no ombro de Luke. Sentiu seu calor, fora, o modo como a musculatura se flexionava em resposta a seu toque. Seus olhares se encontraram e ficaram atados.
Sydney pensou em retroceder para encoraj-lo a estender Emily em sua direo, mas isso deixaria sua reao bvia demais.
No queria dar mostras da antecipao que a dominava e fazia seus joelhos fraquejarem. Lembrou-se das palavras de Roxie e decidiu provar que a amiga estava enganada.
Concentrou a ateno no beb e colocou a mo entre o peito de Luke e a barriga da menina, pegando Emily nos braos. Pousou o beb no bero e puxou o cobertor suave sobre o pequenino corpo.
Afastou-se, ainda sentindo a forma da criana contra seu corpo e encontrou o corpo de Luke. A amargura era to forte que o peito chegava a doer.
Nunca devia ter ido at ali. Desejava poder correr como uma covarde. Mas seu prprio desejo poderoso mantinha-a esttica.
 Estou impressionado.
A voz de Luke parecia um carinho suave contra seu ouvido e lanou um arrepio de prazer pelos braos e nuca de Sydney.
 Voc lidou com ela como uma profissional. J pensou em ter um filho?
O calor que Luke despertara desapareceu repentinamente, deixando um vazio frio em seu corao e um gosto amargo em sua boca. Obrigou-se a engolir o n na garganta.
 No. J criei trs. No basta para uma pessoa s? 
Fugiu do quarto como se uma fera a estivesse perseguindo.
Notou que Luke a seguia e quase entrou em pnico. Respirou fundo e, ansiosa por distrair os pensamentos e ganhar o controle da conversa, indagou:
 O que voc cantava quando eu entrei? 
Ele riu e coou o queixo.
 Margaritaville.
 O qu?
 Foi a nica cano que me ocorreu. Emy no entende as palavras.  Aproximou-se e colocou a mo no brao de Sydney.
Ela sentiu uma pontada no estmago.
 Emily consegue entender?
Sua incerteza tornava-o mais atraente. Sydney flagrou-se rindo. Aquele homem que mal conhecia fizera-a rir... algo que no ocorria havia muito tempo.
 No se preocupe. Tenho certeza de que ela no entende nada.
Os ombros de Luke penderam para a frente em evidente alvio.
 Acho que terei de aprender algumas canes de ninar. E logo.
Mais uma vez Sydney sorriu com certa amargura diante da ansiedade dele em aprender tudo o que precisava para ajudar a filha. A pequena Emily era um beb de sorte.
 Ela mesma provavelmente lhe ensinar quando for para uma escolinha ou ficar aos cuidados de uma bab para voc poder trabalhar. Tenho certeza de que o restaurante exige muito de seu tempo.
  verdade. E eu venho negligenciando meu restaurante. Sinto-me dividido quanto ao que fazer, a como lidar com tudo.
Ali estava, pensou Sydney, o pedido que ela tanto temera. Por acaso j no deixara tudo claro? No era bab. Nem mame.
 Levei Emy para o restaurante outra noite. Ela adorou. Mas no  o lugar adequado para uma criana to nova. E eu pouco consegui trabalhar. Talvez voc queira ir conosco um dia.
 Acho que no  esquivou-se.
Sob a resistncia, entretanto, havia o desejo avassalador de ver o restaurante de Luke e passar algum tempo a seu lado. Ento a realidade agitou seu corao. Ele no a levaria para um encontro, um passeio. Queria apenas uma bab!
 E quanto a seus pais? Avs so excelentes babs.
 No os meus. Alm do mais, esto sempre viajando. No tinham tempo para mim quando eu era criana. Acho que tambm no faro de Emily sua prioridade.
Sua voz continha tristeza e despertou a simpatia dela.
Sydney perdera a me em tenra idade, mas o pai sempre estivera a seu lado para ajud-la.
Abraara-a fortemente quando ela voltara para casa aps o divrcio. Apoiara sua deciso de mudar-se para Dallas. No conseguia imaginar seu crescimento sem tanto amor e apoio.
 J pesquisou bons berrios?
 Sim. Nenhum fica aberto nos horrios em que preciso trabalhar. O restaurante funciona em horas que no coincidem necessariamente com a criao de um filho.
 Voc poderia contratar uma bab.
 Pensei nisso. Mas...
 Mas o qu?
 Ento eu agiria como meus pais, deixando Emily para ser criada por outra pessoa. Sei que h gente boa e que faz um excelente trabalho, mas acho que a responsabilidade  dos pais. Boa qualidade  fundamental na educao, mas a quantidade fala muito para as crianas tambm. Pelo menos significou um bocado para mim.
Sydney sentiu uma certa decepo. Ento Luke no queria que ela fosse bab. Por que deveria estar magoada com isso?
No estava.
Ou estava?
Bem, admitiu, era verdade que a constatao a chateava. Mas admirava Luke por tentar fazer a coisa certa.
Percebeu ento que ele no gostaria de t-la por perto aps o trmino do acordo. O que era excelente para Sydney.
 Seu raciocnio  admirvel, mas nada realista.
 Talvez. Apenas o tempo dir.
Brindou-a com um sorriso que derreteu o gelo do distanciamento de Sydney.
 Ento, voc conhece alguma melodia para bebs? Ou conto?
 Conte a histria da aranha  sugeriu.  As crianas adoram aqueles gestos com a mo.
Como se fazendo anotaes mentais, Luke assentiu, as feies srias.
 O que acontecia depois que a chuva carregava a aranha? Esta era minha parte favorita... quando eu era criana.
 Claro.
Mais uma vez ela riu, Luke notou. Dessa vez foi um sorriso espontneo, lindo... at demais, mas logo esmoreceu.
 O sol aparecia.
 Um paralelo e tanto com a vida, no  mesmo?
 Algumas vezes sim, outras no. Sentindo os olhos arder, Sydney deu as costas para Luke e caminhou para a cozinha.
Ele a seguiu e, roando uma palma da mo contra a outra, sorriu.
 Estou com fome. Voc j comeu? 
Atnita com a pergunta, respondeu:
 Bem... na verdade, no.
 timo. Eu pensei em fazer aquele chocolate...  como um clair... mas eu o chamo simplesmente de derretido...   uma nova receita na qual estou trabalhando para o restaurante.
Franziu a testa diante do olhar perscrutador de Sydney.
 Pensei que fosse minha aula de culinria!
 E .
Ela se virou na direo das duas sacolas com mantimentos sobre o balco.
 Eu trouxe todos estes ingredientes.
 Est bem. E o que faremos? Um pudim, creme bro... Ia... Ia?
 Voc quer dizer, creme brul?
 Exatamente.  Ele estalou os dedos.  Excelente. Era um teste.
Tossindo, Luke virou-se e pegou uma garrafa de vinho tinto de uma prateleira sobre a geladeira. Usando um saca-rolhas, abriu-a. Sydney ficou hipnotizada pelo movimento dos msculos sob a camiseta, como uma tola adolescente apaixonada.
 Um bom vinho preparar nossos paladares. Ou prefere cerveja?
 No tem margarita?
  uma boa sugesto, mas estou sem tequila. Fica para a prxima vez.
Prxima vez? Quantas vezes mais haveria? Apenas um ms inteiro, lembrou-se Sydney.
 No deveramos comear?
 Certo. Est bem, creme...
 No. Baklava.
Ele franziu a testa.
 Isso  grego, certo?
 Acho que .
 Hmm  murmurou, coando o queixo.
 Voc no domina a culinria grega?
 Sem problemas. 
Indicou a garrafa de vinho.
 Vamos tomar uma taa antes, enquanto penso a respeito. 
Serviu o vinho com um floreio e estendeu uma taa para ela.
 Lembre-se, nunca se apresse quando estiver cozinhando. E quando se cometem erros. Relaxe. Divirta-se.
Diante do encorajamento, Sydney levou a taa aos lbios, mas ele impediu-a de tomar, segurando-lhe a mo.
A mo de Luke era quente, rude contra sua pele delicada.
 Espere  falou em um sussurro que a arrepiou. O olhar sensual pousou na boca dela. Sydney admoestou-se, dizendo a si mesma que talvez estivesse olhando para o vinho, observando se havia algum pedao de rolha flutuando na taa.
 O qu?  indagou impaciente e nervosa com o toque. Ele a encarava intensa e intimamente.
 Primeiro faa com que o lquido circule. 
Luke moveu em crculos a mo a segurar a taa.
 Agora aspire.
Sydney no podia. No com ele to prximo. Se erguesse o rosto, ela o beijaria. Nem sequer ousava respirar.
No que fosse capaz de levar ar aos pulmes aflitos. Seu peito ardia, mas no era de qualquer dor conhecida. A presso era avassaladora... como uma antecipao... e percebeu, horrorizada, que gostaria de beij-lo.
 Como ?  ele indagou.
 O qu?
 O buqu. Que cheiro voc sente?
O seu! Um aroma almiscarado, msculo... Um qu intrigante assaltava seus sentidos. Cheirou a taa e falou:
 Vinho.
Com a pacincia de um professor, ele girou o contedo da taa uma vez mais.
 Tente novamente.
 No  vinho?
 Diga-me mais. 
Dessa vez, ela aspirou profundamente. Ah, talco de beb.
Detectou outro perfume no calor daquela pele. Era uma combinao esquisita que a deixava nervosa.
  doce?
Luke inclinou-se para mais perto e aspirou profundamente.
O peito amplo expandiu, capturando o olhar de Sydney. Debaixo da camiseta branca, viu a sombra dos plos escuros. Seguiu a curva da musculatura que cobria a barriga reta. Engoliu um gemido.
 Luke...
 No h resposta certa ou errada. Todos detectam algo diferente. Quero que voc tenha conscincia do que seus sentidos esto lhe dizendo.
Acredite em mim, eu estou consciente. E muito!
 Sinto cheiro de uvas fermentadas  tentou, esperando pr fim quela tortura.
Luke franziu a testa. Ento, existia uma resposta errada. Mas no pressionou Sydney. Apenas colocou a taa contra os lbios dela.
 Saboreie.
Fechando os olhos, Sydney tomou um gole. O sabor intenso passou por sua lngua e garganta. Sentiu um calor descer pelo corpo. No sabia se era o vinho ou a presena de Luke.
 Escute, Luke  comeou a falar, colocando uma distncia segura entre os dois.  Vamos nos ocupar... cozinhando. Eu... eu tenho uma reunio pela manh. E gostaria de ir para a cama... mais cedo.  Teria dito algo errado?, pensou aflita. Fez uma pausa, confusa, a mente nebulosa.  Estou aqui apenas para cozinhar.
 Sei que sim  rebateu Luke em tom sensual,  Na verdade esta foi a lio nmero um.
 E o que eu devia ter aprendido com o exerccio?  indagou, desconfortvel com a tcnica de ensino e mais irritada com a prpria reao do que com Luke.
 Comida e bebida, seja gua, vinho ou ch gelado, devem ser apreciados, saboreados e no simplesmente engolidos. O mesmo se aplica a cozinhar.  uma experincia. No um exerccio.
Ele se serviu uma dose de vinho, mas no se importou em virar a taa ou sentir o perfume antes de engolir.
Colocou a taa no balco. O calor sumiu de seu olhar, tornando-o frio como uma noite escura de inverno.
 Voc acha que cozinhar  apenas seguir alguns passos. Ento pronto. Um pudim. Mas no funciona assim, senhorita. E por este motivo h poucos chefs realmente bons. Se voc quiser impressionar seus convidados, precisar de tempo e pacincia. Caso contrrio, compre um bolo de caixinha e siga as instrues da embalagem.
Ela o observou por alguns segundos antes de ele prosseguir.
 E por isto que os franceses sabem como cozinhar to bem.  uma arte. Assim como pintura, escultura... fazer amor. Os franceses no so especialistas em amor e romance? 
Sydney arregalou os olhos, o corao aos saltos.
 Estive em Paris. H diversos museus mas nenhum referente a... bem, a arte de fazer amor.
Ele fez uma careta.
 Mas o assunto permeia tudo o que os franceses fazem. 
Deu um passo adiante, e Sydney cruzou os braos em defensiva.
 Algumas vezes voc quer a praticidade da comida de um self-service. Rpida e quente.
Ela retrocedeu e teve as costas pressionadas contra o balco central da cozinha, ficando incapaz de afastar-se.
 Mas limita-se a isto. No satisfaz o corpo nem a alma. Concorda?
Luke pegou a taa dela, os dedos roando nos de Sydney.
 Mas se preferir saborear uma iguaria preparada com esmero...  Fez a taa fria passar pelo antebrao delicado dela, deixando-a arrepiada.  ...Se gostar de sentir cada nuana bem vagarosamente at seus sentidos explodirem de prazer  prosseguiu, a voz rouca , ento, ao final, voc saber como...  encarou-a com firmeza  ...cozinhar.
Sydney no conseguia nem sequer respirar. Colocou a mo no pescoo e sentiu a pulsao acelerada sob seus dedos.
 Luke...
Ele se distanciou e passou a abrir as portas do gabinete da cozinha. Tirava tigelas e colheres de medida. Metal tilintava contra metal, o som escandaloso como as batidas do corao de Sydney. O que estava acontecendo com ela?
Que havia naquele vinho?, Luke perguntou-se e lembrou-se das palavras de Roxie.
Procurou ocultar o nervosismo fazendo mais barulho do que o necessrio. Naquele momento, no se importava se Emily acordasse e chorasse durante o restante da noite. Pelo menos seria resgatado da atrao que sentia por Sydney.
Quisera flertar, provocar, mant-la atrapalhada especialmente porque ela insistira em fazer baklava naquela noite.
Mas seu plano de distra-la voltara-se contra o feiticeiro. Sentira-se levado por uma onda de desejo, ao mergulhar naquele olhar e aspirar o perfume delicado.
 Talvez eu devesse ter ficado na cozinha durante meu casamento  disse ela, interrompendo seus devaneios.
Luke virou-se e observou os olhos grandes e expressivos, bem como o rubor de embarao nas faces.
 Eu... no posso acreditar que eu tenha dito isto.  Deu-lhe as costas.
Ficaram em silncio.
 Provavelmente  o vinho  ofertou Luke.
A culpa era dele, isso sim!, Sydney pensou irada. Continuou a separar tigelas como em busca da perfeita.
 Ento voc foi casada. Roxie no me contou.
 No havia motivo para contar.
 No parece que voc seja defensora da instituio do casamento.
Sydney deu de ombros como se isso no importasse. Mas seu olhar dizia algo diferente. Traduzia uma histria de dor, intenso pesar.
 Acho que pode funcionar para algumas pessoas. Apenas no deu certo para mim e meu ex-marido.
No daria com ele tambm, pensou Luke. Sofrer demais com os problemas do casamento dos pais.
 Como assim?  Sabia que transpusera o limite habitual reinante entre dois estranhos, mas esperava distrair a atrao de ambos, falando sobre conseqncias da vida real. Mas, diante de total silncio, acrescentou:  Diga-me se no for da minha conta.
Ela aspirou profundamente e balanou a cabea.
 Voc foi franco comigo quando falou da me de Emily. 
Tomou mais um gole de vinho, e Luke teve seu olhar atrado pela boca delicada. Droga, abriu uma gaveta e tirou uma esptula da qual no precisaria.
 Acho que tudo se relacionou  falta de comprometimento  disse ela.  E no se pode ter um casamento bem-sucedido sem isto.
O pai de Luke no fora capaz de se comprometer tambm. Ficou imaginando se a carreira de Sydney ficara entre ela e o ex-marido.
Por um longo momento Luke ficou calado. Depois encheu novamente a taa de vinho e tomou um longo gole na tentativa de esquecer as perguntas e a tenso.
 E ento esta foi a lio nmero um?  indagou Sydney.
 Muita coisa para uma noite s? Est pronta para a nmero dois?
Mais uma vez no pde conter o tom sugestivo.
 Estou no jogo se voc estiver.
Luke foi tomado pela sensao de surpresa. Novamente uma corrente de atrao pulsava entre os dois. Havia aprendido a no brincar com fogo. Mas dessa vez, no parecia capaz de se conter.



CAPTULO III
 Quanto tempo vai demorar at ela ficar mais... independente? 
Sydney gargalhou.
 Voc quer dizer, treinada para pedir para ir ao banheiro?
Luke torceu o nariz e jogou a fralda suja no que ele chamava de recipiente de lixo nuclear. A tampa plstica fechou-se automaticamente.
 O que seja.
Emily acordara chorando, muito agitada, logo depois de terem colocado o baklava no fogo. Luke pensou que a menina estivesse com fome, mas Sydney deixou-se levar pelo instinto ou simplesmente bom senso. Afinal, o beb tomara uma mamadeira cheia um pouco antes de adormecer nos braos do pai.
 Ento quanto tempo at...?
 Ser quando voc conseguir trein-la.
 Posso comear amanh?
Apoiou Emily no ombro, as mos enormes amparando o corpo pequenino.
 Talvez no to rapidamente assim. Os bebs se habituam a ir ao banheiro em algum momento entre um ano e meio e quatro anos de vida.
 Quatro!
Emily ressentiu-se do tom alto de voz, e Luke passou a murmurar.
 Voc quer dizer que eu poderei ter de trocar as fraldas de Emily at seu quarto aniversrio?
 Bem, Emily ainda no estar na idade escolar... 
Sydney no conseguiu conter o riso. Curiosa, Emily pousou os olhos castanhos em seu rosto. Luke segurou a filha contra o ombro enquanto o beb mexia os bracinhos como se quisesse apertar a mo dela.
Sydney tomou o minsculo pulso na mo. A pele macia trouxe-lhe uma onda de recordaes e emoes. Lembrou-se de quando brincava de casinha com a irm mais nova. Isso ajudou-a a lidar com a morte da me. Trouxe momentos de paz e serenidade a seu mundo catico.
Soltou a mo pequenina e deu um passo para trs.
 Quatro pode ser exagero, Luke. Provavelmente uma aposta correta est entre seu segundo e terceiro aniversrios. Voc no deve querer antecipar a data porque a presso poder prejudic-la. H muitos livros sobre o assunto.
Ele suspirou.
 Jamais conseguirei.
Sydney aproximou-se para lhe dar um tapinha encorajador no ombro, mas mudou de idia.
 Claro que conseguir.
 Por que nunca quis pegar Emily no colo?  Luke perguntou.
 O qu?  balbuciou.  Eu no sei o que quer dizer...
 Voc nunca pediu para segur-la. - O olhar de Luke era de curiosidade e no guardava qualquer condenao.  Toda mulher que tenho visto desde que Emily entrou em minha vida quer segur-la.  praticamente arrancada de meus braos na quitanda. Por que voc no?
 Eu... eu quis. Eu a coloquei no bero esta noite.
 Mas no a abraou. H uma diferena. Quase agiu como se ela pudesse ser contagiosa. Confie em mim, no ficar grvida apenas segurando um beb.
Ela aprumou-se e tentou manter a voz controlada.
 Luke, estou aqui para ajud-lo, no para fazer o trabalho em seu lugar. Alm do mais,  importante este lao afetivo de Emily com o pai.
Virou-se para sair do quarto, os joelhos trmulos, o corao incapaz de bater em um compasso confortvel.
 Bem, voc se importaria?
A pergunta f-la parar ao batente da porta. Temendo o que ouviria em seguida, mesmo assim indagou:
 Eu me importaria com o qu?
Sydney percebeu ento que estivera evitando o beb para se preservar.
 Segure-a por um minuto. Eu preciso... eu preciso cuidar de um certo assunto. Voltarei rapidamente.
 Oh!  foi tudo o que Sydney conseguiu dizer. Ajeitou os ombros como para acalmar os nervos e se aproximou, as pernas parecendo no obedecer a seu comando.
 Venha aqui, Emily. Vamos deixar seu pai ter um minuto de sossego, est bem?
Luke mal tocou nela ao pousar a garotinha em seus braos. O exagero em evitar o contato deixou-a intrigada. O gesto teria provocado um sorriso, se a decepo no fosse to intensa.
Era ridculo, pensou. Por que desejaria que Luke a tocasse? A tenso sexual existente j no bastava?
A perturbao que Luke lhe causava a irritava, mas tambm fazia com que se sentisse viva. No era ele em si, mas o modo como um simples toque tinha o poder de incendiar todo o corpo de Sydney em segundos.
 Obrigado.
Prendeu a respirao enquanto seus olhares se conectavam. Bastava um olhar de Luke para seu corao disparar. Com os nervos em frangalhos, ajeitou o beb contra o ombro e desviou os olhos para o cho.
Os braos gordinhos e macios de Emily enlaavam seu pescoo. Sydney aspirou o cheiro de talco para beb, e sua apreenso se dissipou diante do sorriso confiante da criana.
Um calor especial encheu o espao vazio em seu corao. Apreciou a suavidade da pele de Emily, ouviu o som familiar do plstico da fralda, sentiu o calor do corpo de um beb to perto do seu.
Rapidamente, embora no breve o bastante, Luke retornou. 
 Apreciei sua ajuda  murmurou, pegando Emily.
Os braos de Sydney subitamente pareceram vazios. A dor da esperana perdida e de sonhos dilacerados destrua-lhe as defesas.
Procurou se controlar. No ficaria presa no passado. Nem teria pena de si mesma. Em vez disso, olharia para o futuro.
Tinha uma carreira promissora. Sim, seu projeto de vida avanava rumo ao sucesso.
 Por que no tenta nin-la?  conseguiu falar.  Ainda est um pouco sonolenta. Vou dar uma olhada no baklava.
Precisava de um momento para si, para afugentar as recordaes. Luke assentiu.
 No vou demorar muito. Espero.
Sydney ofertou-lhe um sorriso e deixou o quarto. Parou ao batente para um ltimo olhar. Observou-o acomodando-se na cadeira de balano. Parte dela gostaria de oferecer-se para a tarefa. Queria... precisava abraar Emily.
Mas seria um erro. Era melhor permanecer como observadora distante.
 Ei, Emy, vamos dizer ol para o sono agora. Est to cansada quanto seu papai?
Luke comeou a balanar na cadeira para a frente e para trs, a voz em tom de cano de ninar, bem tranqila.
 Talvez eu no a tenha feito brincar o bastante durante o dia, pequenina.  este o problema?  por isto que gosta de manter seu velho papai aqui acordado durante metade da noite? Talvez precise de um companheiro para brincar. Um irmozinho ou irm...
Sydney virou-se abruptamente, no querendo ouvir mais. Tinha de ficar distante daqueles doces planos de aumentar a famlia. Uma famlia, lembrou-se, que no a inclua.
No importava quo maravilhoso Luke fosse, era um homem. Algum que queria mais filhos... do prprio sangue.
O fato era que ela tambm quisera seus filhos. Desejara sentir um beb crescendo na barriga, chutando e contorcendo-se.
Quisera segurar o prprio beb, comparar traos de famlia nas pequeninas mos, ps, nariz e olhos. Seu pequeno pedao de imortalidade.
Quando olhava no espelho, via a prpria me encarando-a. Sua me podia ter morrido muito jovem mas deixara pedaos de si em cada um dos filhos.
Quando Sydney partisse, que pedao dela deixaria para trs? Livros contbeis muito bem ordenados?
Abraou o prprio corpo e entrou na cozinha. Lutava para controlar as emoes. De nada adiantava chorar sobre o leite derramado. No podia ter um beb. Ponto final.
Ainda tinha a prpria vida. Tornaria-a plena, de alguma maneira.
Sydney fechou os olhos e aspirou profundamente.
 Humm.
Luke flagrou-se contemplando o rosto virado para cima e os lbios entreabertos. Seguira-a at a cozinha minutos depois de Emily ter adormecido.
Notou os cabelos avermelhados enrolados perto das orelhas, o cintilar dos olhos azuis e a graciosidade dos movimentos.
Quando Sydney aspirou o aroma amanteigado e doce do baklava, sua expresso tornou-se quase etrea.
Droga! L estava ele novamente, reagindo como um adolescente.
Irritado com a prpria fraqueza, Luke concentrou-se na tarefa a ser concluda, aproximou-se e abriu a porta do forno. Agarrou a frma. Deu um grito e se afastou.
 Droga!
 Qual o problema?  Sydney indagou, inclinando-se e ficando to perto que sentiu o cheiro do vinho e de seu perfume.
 Nada.
Cerrou os dentes, j se esquecendo da queimadura na mo. Agarrou um pano de prato e ento com segurana tirou a frma do forno e colocou-a sobre o fogo.
Sydney aproximou-se para ver a mo dele. Parecia preocupada.
 Voc est bem?
Luke afastou a mo daquele toque de seda.
 Estou.
Dessa vez ela segurou o pulso com firmeza e olhou a marca avermelhada na palma, quando ele entreabriu os dedos.
 Acabou de assar sua mo.
Ele franziu a testa mas desistiu como uma criana apanhada em flagrante. Observou o dedo delicado passar pelos limites da queimadura.
 No formar bolha  disse Sydney, analisando o machucado. Luke ficou imaginando quanto tempo fazia que ningum se preocupava com seu bem-estar. Tanto tempo...
At mesmo sua me ficara absorvida demais na prpria dor para se preocupar com o filho nico. Emocionava-o notar o quanto Sydney estava preocupada. Era reconfortante o toque terno de sua mo e a delicada insistncia em ajud-lo. 
 Voc tem ervilhas?
Ele arregalou os olhos.
 Ervilhas?
 Congeladas  explicou.
Puxou-o consigo para junto da porta do congelador.
 O que est fazendo?  Parecia mal-humorado como um urso velho, condenou-se. No queria que cuidassem dele. Sentia-se esquisito, como se ainda fosse criana. Subitamente o intenso interesse de Sydney passava a ofend-lo.  Ficou com vontade de comer vegetais verdes?
 Oh, milho, cenoura... ou at mesmo feijes verdes serviro. 
Sydney brindou-o com um misterioso sorriso ao colocar um saco com ervilhas congeladas contra a palma machucada e obrig-lo a fechar os dedos ao redor do saco plstico.
 Minha me costumava fazer isto quando eu me queimava. E a me dela tambm. Por isto, na poca em que eu ajudava a cuidar de minha irm e irmos, usava este segredo da tcnica da ervilha quando se queimavam. Voc poder us-lo com Emily. Porque todas as crianas se queimam de vez em quando.
 Parece esquisito.
Assim como a ateno de Sydney, sua preocupao e cuidado.
 Espere at que descongelem. Destru muitas ervilhas na minha poca. Emily vai adorar.
 No deixarei Emy ficar na cozinha  proferiu, tentando ignorar a dormncia gelada na palma.
 Ento ela ter sorte.
O sorriso amplo de Sydney era contagiante. Luke sorriu tambm e pareceu que o fardo da nova responsabilidade de alguma maneira ficava mais leve. Mas o sorriso dela desapareceu com a rapidez com que surgiu, deixando-o confuso.
 Ora, mas Emily j  sortuda. Tem voc como pai. 
Luke franziu a testa. Seria realmente um bom pai? Aps uma semana somente? Tinha tanto a aprender. E se cometesse um erro? E se deixasse Emily se machucar? E se acabasse ficando igual a seu prprio pai?
Sydney virou-se e observou o baklava esfriando sobre o fogo. Seu terninho azul modelava-lhe o corpo, destacando a cintura estreita. Havia descartado os sapatos anteriormente e estava apenas com meia de seda. As pernas longas, cobertas pelo nilon cor de creme, eram to bem-feitas quanto o restante do corpo.
 Parece uma delcia!  exclamou ela.
Luke sentiu um n na garganta. Passou a lngua nos lbios secos.
 Voc tinha dvidas?
 Se tivesse visto a sobremesa que eu preparei, teria dvidas com toda certeza.
Ele riu e coou o queixo.
 Parece saudvel, voc no acha?
 S pode estar brincando. Por acaso no viu toda a manteiga e acar que colocamos? E agora teremos de colocar um xarope de acar por cima.
 Ora, uma combinao destas faz as pessoas se sentirem bem. Ento, segundo meu ponto de vista,  saudvel. Alimento para a alma.
Riu diante do olhar de espanto dela e das faces rosadas.
 Era assim que mame costumava se referir a sorvete de chocolate e pizza de pepperoni. Costumava dizer que quanto mais gordura saturada, mais confortava uma alma magoada.
 Sua me ensinou-lhe a cozinhar?
 No. Mas aprendi por uma questo de sobrevivncia. Se eu quisesse algo alm de macarro com queijo ou hambrguer, tinha de providenciar sozinha.
Luke pegou o pano de prato, aparentemente ansioso por mudar de assunto.
 Nada mau  disse, analisando o baklava.  Para uma primeira tentativa.
 Primeira tentativa?  repetiu atnita.  Como assim?
 Teremos de aperfeioar nossa receita. Brincar com os Ingredientes.
Ele analisou melhor a sobremesa, evitando observar os lbios de Sydney que o faziam pensar em outros jogos.
Abriu a mo e inclinou a cabea para examinar a vermelhido na palma. Outro movimento tolo. Caso dissesse a Sydney que sabia apenas fazer chili, cerveja, pudim de chocolate derretido e atualmente ma com canela graas  filha, ela iria embora rapidamente.
Ele no gostaria que Sydney partisse. Ainda no.
Precisava de mais conselhos, mais ajuda sobre como criar a filha. Mas sabia ser mais do que isso, embora no gostaria que fosse.
Algo em Sydney o intrigava. Uma mulher que ajudara a criar os irmos, mas no sabia cozinhar direito e raramente olhava para um beb em nada se assemelhava com aquelas que se debruavam sobre Emily na quitanda.
Algo esquisito acontecera.
No fazia sentido. E o pior era sua reao mpar a ela, como se fosse um homem faminto por sexo. At a chegada de Emily, tivera namoros constantes. Ento com apenas uma semana de abstinncia, morria de desejo por uma mulher como se fosse um adolescente?
 O que eu quis dizer  finalmente Luke respondeu  foi que nunca cozinhamos juntos antes. No  uma tarefa fcil, sabia?
 Gosta de trabalhar sozinho, ento? 
Ele deu de ombros.
Sydney lanou-lhe um sorriso. Ambos haviam tomado vinho demais, pensou preocupada. Talvez isso explicasse o sbito interesse dela. Mas Luke sabia que estava interessado desde o instante em que a vira.
 At o momento  disse faceira , acho que estamos formando um time muito bom.
O crebro de Luke, entretanto, pisou no freio. Seu interesse precisava ser contido. Por acaso algumas das mulheres com quem sara no haviam feito comentrios parecidos?
Sempre faziam a discusso centrar-se no futuro, ento ficavam irritadas quando ele retrocedia. Desejavam mais do que Luke podia lhes dar. E nunca prometera nada.
De fato, sempre deixara claro que no queria se casar. Mais de uma vez, alguma namorada assentira em concordncia, mas o cintilar em seus olhos dizia que aceitava aquele desafio.
Mas ele decidira tempos atrs, quando ainda era um garoto de dez anos de idade, e ouvira a me soluando por causa da ltima infidelidade do pai, que no seria como seu progenitor.
De certa maneira, entretanto, preocupava-o constatar que talvez fosse. Com quantas mulheres j havia sado? Demais para serem contadas. Com quantas se comprometera?
A idia de um compromisso slido sempre o assustara. Suspirou. Atualmente queria comprometer-se apenas com seu beb. No retrocederia ou decepcionaria sua filha.
Pensar em Emily afagava-lhe o corao. Estava apaixonado atualmente. Parte dele sentia-se presa em uma armadilha. Outra, imensamente afortunada. Se a me de Emily no tivesse desistido da filha, talvez Luke nunca viesse a saber que tinha uma garotinha.
Poderia ter perdido seu doce sorriso, abraos suaves, beijos molhados que o faziam derreter de amor. Mas qual parte dele venceria a batalha?
No sabia. Mas certamente nada tinha a oferecer s mulheres... ou a Sydney em particular. No atualmente. Talvez jamais.
Mas o que era aquilo? Por que estava preocupado?
O que o fazia retroceder ao mero pensamento de trabalhar em conjunto com aquela mulher? Estaria lutando contra os prprios desejos?
Mais uma vez, Sydney aspirou o aroma do doce, arqueando as costas e assim enfatizando os seios fartos, de tamanho perfeito para as mos de um homem. Luke soube ento que devia preocupar-se consigo mesmo.
 O cheiro  divino!  exclamou Sydney.  Como se fosse um pedao do paraso. Qual foi a ltima especiaria que voc acrescentou?
 Cravo  respondeu automaticamente, incapaz de pensar em qualquer coisa a no ser em beij-la.
 Hmm. Talvez seja este o item do qual minha chefe no conseguia se lembrar.
Passou a lngua pelo lbio inferior, e o olhar de Luke captou aquele movimento sensual.
 Intensificou o aroma. O doce que eu fiz... bem, no parecia to... to delicioso. E aquele que comprei...
Ergueu o rosto, como Emily quando experimentava um dos biscoitos que o pai fazia em casa, pouco antes de cuspi-lo.
 Parecia cereal amanhecido.
 Voc quer dizer que no estava crocante e saboroso? 
Ela o encarou. Ento riu. No era um som controlado e sim uma gargalhada que lhe sacudiu os ombros, encheu seus olhos de lgrimas e o cativou completamente.
Ele apreciava uma mulher que sabia rir, verdadeiramente. De si mesma, da vida.
Sua me no fora capaz de fazer isso, pensou Luke. Fora engolida pela autocomiserao. E Sheila no rira da vida tambm, fosse de si ou dos outros. Mas devia estar rindo atualmente por ter recuperado o direito de dormir a noite toda, no se preocupando mais com trocas de fraldas ou mamadeiras ao alvorecer.
Sydney era diferente? De acordo com seus ternos de linho, prolas e aparncia impecvel, no. Havia dito que j criara trs pessoas que no eram suas. No gostaria de criar Emily tambm. Mas algo naquele comportamento dela precisava ser melhor analisado.
E o suspense o enervava.
Escapou para o outro lado da cozinha, abrindo a geladeira e deixando o ar frio envolv-lo. Precisava de uma cerveja. No, no precisava, talvez caf fosse uma escolha melhor.
  melhor fazermos aquele xarope.
Ela assentiu e comeou a organizar o material que trouxera. Luke comeou a preparar o caf, e ela ps-se a misturar acar e gua para o xarope em uma panela; em seguida, acrescentou o mel.
Quando a mistura ganhou uma fina espuma dourada, Luke colocou-a sobre o doce, ento girou a esptula como se fosse uma arma e declarou:
 Vamos experimentar.
 Mas eu achei que esta sobremesa precisasse descansar por vinte e quatro horas.
  mesmo?
  preciso absorver o xarope e... eu no sei o que mais. Foi o que li.
Ele franziu a testa enquanto olhava para o doce.
 Pois j parece timo. Acho, entretanto, que poderemos esperar at amanh. Ou simplesmente experimentar agora e novamente amanh.
Sydney riu ao observar-lhe a expresso de ansiedade.
 Est bem. Voc me convenceu.
Luke serviu-lhe um pedao avantajado do doce. Ela se inclinou com delicadeza, entreabriu os lbios e deu uma mordida na sobremesa.
Um minsculo pingo aucarado ficou em seu lbio. Luke resistiu a captur-lo. Ignorou-o. Ou tentou. Migrou o olhar para algum ponto distante daquela boca. Mas o pingo aucarado hipnotizava-o.
Confuso, incerto quanto ao que fazer e sentindo-se culpado por no dizer nada a Sydney a respeito, coou o queixo e olhou para o piso, esperando que ela naturalmente se limpasse. Mas quando novamente a fitou, o sinal ainda estava l...
 Bem...
Felizmente, ela aproximou os lbios naquele instante e capturou a gota com a lngua. Luke aspirou profundamente e esperou impaciente para observar-lhe a reao.
 Est bom.
Decepcionou-se. Simplesmente bom? Nem mesmo Humm... bom! Por que no maravilhoso?
Luke colocou uma poro na boca, mastigou e avaliou a textura.
 Nada mal  concluiu, mais consciente de Sydney do que do doce na boca.  No  conforme previ, mas poderemos trabalhar a partir daqui. Talvez amanh o sabor esteja mais intenso.
 No era o que esperava?
 No.
 Qual deveria ser o sabor?  indagou ela, experimentando mais uma poro.
 Quer dizer que voc no sabe?
Sydney balanou a cabea em sinal negativo.
Luke teve uma idia. A quem poderia magoar? Afinal, estava metido em casa com um beb e sem ningum para uma boa conversa. Nada de conversas adultas ou comida de verdade alm de suas tentativas de preparar refeies para Emily.
 Ento temos de fazer uma pesquisa de campo.
 Como?
Sydney arregalou os olhos azuis, lembrando-o da vivida cor do mar do Caribe.
 Como assim? Um encontro?
 No.
A negativa veio abruptamente demais.
Sydney pareceu aliviada. Ela j havia deixado claro que tratava-se estritamente de negcios. Mas outras idias o provocavam... e eram perigosas!
Sydney no parecia interessada em um pai solteiro com uma criana. Ela tinha seus prprios planos. E Luke, os dele.
Quase riu de si mesmo por ter pensado em Sydney como uma opo segura. Ela, com seu corpo bem torneado e lbios expressivos, uma opo segura? Duvidava.
 Uma pesquisa de campo  repetiu.
Subitamente ela lhe deu um sorriso tmido. Luke perguntou-se se se arrependeria da deciso pela manh.
 Est bem. Uma pesquisa de campo. Para o baklava.
 E pudins  acrescentou.
Poderiam ser necessrias diversas viagens para experimentar diferentes tipos de sobremesa que ela planejava para o ch de beb.
 No se esquea do creme brul.
Ele assentiu. Mas e quanto a Emily? No poderia deix-la em casa. Sozinha. Ficou decepcionado e invadido por uma forte sensao de culpa. Era exatamente como o pai: pronto para fugir. Seus olhos sempre estavam treinados para se fixarem em uma linda mulher.
Bem, pois no seria assim. No com Emily.
Uma mulher como Sydney atraa-o, definitivamente o distraa.
 No vai funcionar. No poderei ir  disse com frrea determinao.  Quem tomaria conta de Emily?
Sydney ficou atnita com a sbita mudana no comportamento de Luke. No o deixaria safar-se com tamanha facilidade. Talvez tivesse se arrependido instantaneamente de convid-la para sair. Mas ela precisava daquele passeio...
Nervosa com a perspectiva, corrigiu o pensamento, preferindo a idia de uma sada com propsitos de pesquisa. Ele tinha razo. Sydney precisava saber qual o sabor das sobremesas.
 Contrate uma bab  respondeu ela.
 No deixarei minha filha com uma estranha.
 No precisa ser uma estranha  alegou.
Era claro, pensou Sydney, poderia tambm ir sozinha. Mas Luke compreendia a arte culinria muito melhor do que ela. Saberia quais os melhores lugares aonde ir. Por alguma razo insana, confiava em sua opinio. E no queria ir sozinha.
Aps um ano solitria, aprendera a fazer quase tudo tendo somente a si como companhia. Fazia compras, comia, estudava, dormia sozinha. Completamente s.
A noite, quando se aconchegava debaixo das cobertas, a solido era sua companheira.
No gostaria de sair para experimentar iguarias sozinha tambm. Apreciava a companhia de Luke. Aquele homem, com seus cabelos escuros e ondulados, olhos expressivos e sorriso encantador, abalava seu mundo.
O charme, entretanto, no a distraa do objetivo mais importante.
 Poderia ser uma vizinha. Uma amiga. Uma parente  enumerou as possibilidades.  Minha irm mais nova poderia fazer isto.
Diante do olhar de dvida, Sydney acrescentou:
 Tem vinte anos e freqenta a universidade aqui em Dallas.  muito boa com crianas. Ser professora.
 Mas e se acontecer alguma coisa? Eu jamais me perdoarei. No,  melhor eu ficar aqui com Emily.
 Ento, porque tem um beb agora, vai desistir de toda a sua vida? Sua carreira? Seu convvio social?
 Eu j disse que no deixarei minha filha em um berrio, aos cuidados de uma bab ou qualquer outra pessoa. Emily  responsabilidade minha. Minha. E de ningum mais. 
Passou a mo no rosto e suspirou.
 A prpria me no a quis. E se eu a abandonar tambm? Como isto a afetar? Acha que devo mostrar a minha filha que ningum se importa o bastante com ela a ponto de fazer algum sacrifcio para garantir seu bem-estar? At Emily ser mais velha e poder compreender o que est acontecendo, eu ficarei sempre a seu lado.
O discurso veemente deixou Sydney atnita. Ficou a encar-lo por vrios segundos. Tal grau de comprometimento fazia-a pensar em como Luke diferia de Stan.
Com que facilidade seu ex-marido rompera os votos do casamento e as promessas de ficarem lado a lado nos momentos bons e ruins! Houve a primeira grande pedra na estrada, e ele se jogara nos braos de outra mulher. Uma mulher que era frtil. Uma mulher de verdade.
Lembrou-se das palavras de Stan ao lhe contar que ficaria com a namorada: Lucy est grvida de um filho meu! No posso dar as costas a ela. Lucy precisa de mim. E acrescentara: Lucy  uma mulher de verdade.
Ento dera as costas a Sydney quando ela mais precisava de sua compreenso e amor. De fato, jamais a amara.
Novamente seus olhos ficaram marejados. Tantas vezes Stan lhe dissera que ela era intil, que no valia nada. E Sydney acreditara nisso. Atualmente no mais, entretanto, pois fazia algo da vida.
Atnita, observava o homem a sua frente. Luke respondera  chegada inesperada da filha com honradez. Aquele homem, um pai carinhoso, amava a filha mais do que a qualquer outra pessoa. E, naquele momento, transformava-se no homem mais atraente que Sydney j conhecera.
 J que  um trabalho de campo, de pesquisa  disse ela, o corao parecendo bater na garganta , ento poderemos levar Emily conosco.
A menina acalmaria a atrao entre eles. Lembraria a Sydney de que no poderia envolver-se com Luke.
 Uma criana de dez meses em um restaurante sofisticado?  indagou ele.  Seria interessante!



CAPTULO IV
O ambiente na casa de caf estava alegre e acolhedor, apesar de ruidoso.
Sydney sentia um som reverberando em seu peito. No sabia se vinha da msica de violo, do riso exuberante dos clientes sentados s mesas prximas ou da voz doce de Luke.
Os olhos escuros irradiavam uma luz suave quando migravam de Emily para Sydney. A sensao era maravilhosa, como se aquele olhar a estivesse nutrindo com emoes boas.
Ela no poderia permitir que a afetasse tanto assim, entretanto.
Aquele no era um encontro, nem mesmo um evento especial. Tratava-se de uma simples e tediosa tera-feira.
Os outros clientes ainda usavam as roupas de trabalho: uniformes, gravatas afrouxadas em conflito com ternos formais e amassados vestidos de linho, conforme o que ela usava.
Dentro de sua mente confusa, descobriu que o motivo por trs da sensao especial que sentia por Luke era o muito tempo em que no saa de casa. O alvio amansou a rigidez de seus ombros.
 Gostaramos de baklava e pudim mocha  Luke falou e acrescentou:  Traga-nos tambm duas xcaras de caf.
Seu olhar vagou da garonete para a filha acomodada na cadeira alta a seu lado.
 Para a menina  melhor...  Ficou confuso e olhou para Sydney.  O que ela pode comer?
A pergunta resgatou-a dos pensamentos e lhe deu algo concreto a ser considerado. Fechou o cardpio e estendeu-o  garonete.
 Voc tem sorvete de baunilha?
 Creio que sim.
A jovem sorriu e colocou o talo de pedidos no bolso da cala jeans e afastou-se. No devia ser mais velha do que Jennie, a irm de Sydney.
A semelhana a fez lembrar-se da discusso que tivera com Jennie no dia anterior. Conforme os papis que sempre mantiveram comeavam a ser alterados, o relacionamento ficava cada vez mais doloroso.
Um silncio esquisito instalou-se em seguida. Luke, aparentemente inquieto, resolveu cruzar as pernas e, no processo, seu p roou na saia de Sydney. Ela deu um pulo, todos os sentidos alertas. Afastou um pouco a cadeira e passou a mo pela saia.
A distncia entre os dois era insuficiente para acalmar a agitao que a tomava. O riso e falatrio nas mesas vizinhas apenas ressaltavam a falta de assunto na deles.
Ergueu o olhar e flagrou Luke a contempl-la com uma expresso sensual no belo rosto. Algo nele, talvez sua vulnerabilidade para com Emily, a necessidade desesperada de ajuda e confiana em lidar na cozinha tornassem-no diferente dos outros homens. Seria bom saber mais a seu respeito.
Mas para qu?
Nervosa, olhou para o lado enquanto liberava os talheres do guardanapo de linho e o ajeitava no colo.
Felizmente Emily escolheu aquele momento para se manifestar. Parecendo frustrada, a menina batia as mos contra a bandeja de metal da cadeira alta. Meteu uma mo na boca, quase engolindo o pulso. Uma minscula ruga formou-se em sua testa, e Sydney percebeu que estava prestes a chorar.
 Voc trouxe o carneiro dela?  perguntou, esperando entreter a criana com o brinquedo familiar.
 Trouxemos tudo, inclusive a pia da cozinha  Luke respondeu, rindo.
O som caloroso e rouco acolheu-a como uma brisa de vero. Com confiana, ele pegou a sacola que a me de Emily lhe dera juntamente com o beb havia quase duas semanas.
Sydney observou-lhe as mos enormes buscando o brinquedo dentro da sacola cor-de-rosa e branca. A cena provocou-lhe um sorriso.
 Fraldas. Mamadeira. Mais fraldas.
Colocou os itens na mesa e continuou procurando.
Emily ficava mais agitada a cada segundo. Lutava contra o cinto de segurana ao redor da cintura nos intervalos do batuque em sua bandeja.
Sydney no duvidava de que quando o beb decidisse expressar sua frustrao em voz alta, faria mais barulho do que todo aquele riso, msica de violo e talheres tilintando contra pratos. Um casal da mesa ao lado fez uma pausa na conversa para olhar para Emily.
 Cobertor. Leno umedecido  Luke continuava, enumerando todos os itens que Sydney recomendara que trouxesse.  Uma muda de roupas, remdio...
Fitou-a com expresso de pnico, a mo dentro da sacola vazia e a mesa cheia de parafernlia de beb.
 O carneiro no est aqui  disse assustado.  O que vamos fazer?
Sydney afastou o frasco de remdio do alcance de Emily.
 Poderemos...
 Aqui! Isto vai funcionar.
Luke colocou uma colher na mo da filha.
 Emily, brinque com isto.
Imediatamente a menina arregalou os olhos, surpresa. Sua boca se abriu em um sbito sorriso de alegria. Agarrou a colher e, emitindo um som de felicidade, estendeu o objeto para o ar como se fosse um trofu.
 Nada como improvisar.
Luke acomodou-se, relaxado, sorrindo como se houvesse acabado de ganhar o prmio de papai do ano.
 Certo  Sydney falou, detestando a perspectiva de apagar aquele sorriso orgulhoso  mas provavelmente esta no  uma...
Emily bateu a colher contra a bandeja de metal e o rudo atraiu vrios olhares. Rindo com o som que produzia, Emily batia a colher repetidamente contra a bandeja. O barulho enviava uma onda de eletricidade pelo corpo de Sydney. Seus tmpanos vibravam.
Balanou a cabea e completou o que ia dizer:
 No  uma boa idia. 
Luke franziu a testa.
 E agora?  gritou atravs da mesa para fazer-se ouvir. As conversas cessaram. A msica de violo comeou a ser tocada em volume mais alto, fazendo as cordas se queixarem do esforo. Alguns ao redor comeavam a encar-los, irritados.
 Eu tiro a colher dela?  Luke perguntou.  Isto a deixar brava? E ento?
Tentando cobrir os ouvidos, Sydney conseguiu dizer:
 No se voc substituir por outra coisa. Simplesmente tire a colher de seu campo de viso.
Diante do encorajamento, Luke tirou o objeto dos dedos da filha e estendeu a mo para pegar a chupeta. Sydney j estava a meio caminho de fazer o mesmo, e suas mos se encontraram. Os olhares imediatamente ficaram atados no que j parecia estar se tornando rotineiro.
Vagarosamente Luke afastou a mo. Mas seu olhar intenso permaneceu, enervando-a como livros contbeis de um cliente desorganizado.
Trmula, Sydney segurou a chupeta com fora e colocou-a rapidamente na boca de Emily, pondo em seguida a mo no colo para evitar mais encontros desastrosos.
Um silncio envolveu o restaurante antes de os outros clientes voltarem a ateno novamente a suas mesas. As conversas recomearam. O msico passou a tocar e cantar no volume usual. E Sydney procurou ignorar a prpria descompostura.
 Voc  boa  disse Luke em tom baixo, recomeando a sesso de tortura.
Havia admirao nos olhos escuros. Sydney flagrou-o a observ-la, a expresso misteriosa.
 Tenho experincia. S isto.
Sorriu com timidez e recomendou-se sair para passear com mais freqncia. Talvez ento conseguisse agir com mais naturalidade diante de Luke e se aborrecesse menos.
Luke comeou a reunir os pertences do beb e a coloc-los de volta na sacola. Desajeitados como estavam, os itens se recusaram a caber no espao onde antes to bem se acomodaram. Mas ele no se fez de rogado: com o punho cerrado, tratou algumas fraldas como se fossem massa de po e socou-as para dentro.
 No sei se me lembrarei de tudo, Sydney.
 Ora, como no? Use a tcnica da tentativa e erro.  assim que se aprende a ser pai.
Diversas recordaes lhe vieram  mente, como fotografias antigas, longas discusses, conversas. Sydney aprendera com cada evento. Esperava que os irmos no tivessem sofrido muito com sua inexperincia.
Estendeu a Luke o babador, segurando-o entre dois dedos. Ele pegou a pea com cuidado, evitando que se tocassem.
 Eu poderia lhe dizer para nunca perguntar a Emily, quando ela tiver dois anos de idade, se quer ou no tomar banho. Nunca d opo de escolha a uma criana desta idade, a menos que deseje aceitar um no como resposta. Em vez disto, ceda em coisas menores, como qual toalha gostaria de usar. Ou qual sabonete.
Esperava estar sendo prtica e didtica.
 Mas at voc cometer este erro fatal, at seu filho dizer no de modo desafiador, at voc tentar colocar na banheira uma criana esperneando, no aprender de verdade esta lio valiosa.
Luke coou o queixo, pensativo.
 Parece uma experincia que voc jamais esquecera. 
Sydney sorriu. Sim, cometera erros, mas aprendera com todos.
E no se importava em dividir o conhecimento com aquele pai ansioso. Na verdade, percebeu espantada, at apreciava faz-lo.
 No cometi este erro duas vezes. Minha irm podia resmungar e chorar melhor do que ningum. Por isto, aprendi rapidamente.
 Voc devia ter filhos seus.
Ele fechou a sacola puxando o zper de uma s vez.
Voc devia ter filhos seus.
Quantas vezes desejara essa bno? Agradeceu aos cus por estar sentada porque seus joelhos bambos certamente no conseguiriam sustent-la. A dor forte no estmago decorria do esforo de manter as emoes contidas. E como se no houvesse mais nada a seu redor, ouviu o som de Emily sugando, feliz, a chupeta.
Desejava sentir paz semelhante. Era provvel que jamais a encontrasse. Em vez disso, centrara sua energia em uma carreira em perodo integral.
Era o motivo de estar ali. A propsito, por que o baklava no chegava?
Do outro lado da mesa, sentiu o olhar de Luke perscrutando atravs das paredes que ela construra ao redor do corao. Faria isso at descobrir seu lado mais vulnervel? Poderia ver sua dor? Ficou imaginando como seria observar o prprio filho, um beb que crescera dentro de seu corpo, rindo e brincando. Como seria abraar, ninar o beb at que dormisse, dizer  criana que a amava mais do que a qualquer outra pessoa?
 Mas eu acho  prosseguiu Luke , conforme voc disse, que j deu uma boa contribuio ao mundo ao criar seus irmos e irm.  Com o olhar demonstrando muito interesse, continuava a encar-la.  Sempre quis ser contadora?
 No.
Mal conseguiu pronunciar a palavra. A garganta parecia bloqueada. O corao ansiava pelo filho que ela jamais conceberia. Como gostaria de experimentar a alegria que Luke sentia!
Procurara dar uma boa dose de realidade aos pensamentos. Reconciliara-se com os fatos. Como contadora, confiava em nmeros e porcentagens. Jamais mentiam ou decepcionavam. Nunca a magoavam. No eram como a vida.
Sim. Encarara os fatos e prosseguira. Como, ento, aquele homem e seu beb haviam descoberto seus segredos?
A chupeta de Emily caiu na bandeja de metal. Luke levou-a de volta aos pequeninos lbios. Sydney observou a mo enorme segurando o pequeno objeto de plstico rosa.
 Acho que algumas mulheres  disse ele, o tom de voz implicando que Sydney fazia parte do grupo  querem sucesso na carreira mais do que um lar e famlia.
No detectou uma atitude machista, apenas a mera exposio de um fato.
Gostaria de lhe contar que no tivera escolha. Tinha vontade de jogar alguma coisa na mesa conforme Emily fizera. Em vez disso, deu um sorriso automtico para a garonete que colocava duas xcaras de caf na mesa. O beb esticou-se para as xcaras fumegantes, e Sydney rapidamente afastou-as de seu alcance.
Tremia ao adicionar uma dose de creme  bebida. Adicionou uma generosa poro de acar. O creme e o acar tornaram mais clara a bebida, conforme seus sonhos e desejos haviam sido forados a mudar ao longo dos anos.
 Algumas mulheres conseguem ter ambas as coisas  disse ela.  Famlia e carreira. Mas algumas no.
Luke olhou para o prprio caf preto e fez uma careta. Sydney tinha razo.
 Minha me no conseguiu  disse ele.
 Como assim?
Luke brincava com o babador de Emily. Sentia a fora das lembranas antigas. Nunca julgara a me. Amara-a como qualquer outro filho amaria. Quisera proteg-la com a ferocidade de um leo. No sentia culpa nem remorso no corao por tudo o que fizera para ajud-la.
Mas as palavras de Sydney, bem como os cuidados para com Emily, faziam-no perceber o que perdera quando criana.
 Ela nunca quis nada alm de ficar em casa para criar os filhos. Quando meu pai partiu, mame ficou arrasada.
Lembrou-se das lgrimas inconsolveis da me e de como se sentira indefeso.
Sua me ficara com o corao partido ao ver o marido deix-la por outra mulher. Ficara apavorada com a perspectiva de um emprego, convencida de que nada conseguiria fazer alm de cozinhar e limpar.
Luke, ainda um garotinho, chorou com a me e abrigou temores no corao. Teve de ser forte e crescer rapidamente.
 Voc era criana na ocasio?  Sydney indagou, a voz suave e confortadora.
 Tinha sete anos quando se divorciaram.
Em seu corao, Luke ainda podia ouvir o choro da me, seus soluos abafados por um travesseiro. A porta fechada separava-os, mas no anulava o som totalmente.
Havia dias em que ela nem sequer trocava de roupa. Ficava com o robe de banho, perambulando pela casa, comendo qualquer coisa, assistindo a reprises na televiso.
 Deve ter sido muito difcil para ela.
A voz de Sydney tornou-se rouca de emoo. No havia pena mas compreenso, Luke notou.
 E para voc tambm  acrescentou Sydney.
Ele deu de ombros, sentindo-se desconfortvel com a simpatia. J havia superado tudo havia muito tempo. Deixara a mgoa no passado e tinha um relacionamento satisfatrio com o pai.
Ficava imaginando se Sydney superara o prprio divrcio. Teria reagido conforme a me dele? Sofrido o mesmo desespero? Ficado paralisada de pesar e medo?
 Como sua me cuidou de voc?  indagou Sydney, levando a xcara aos lbios.
 Eu cuidei dela.
Como se estivesse sendo jogado de volta no tempo, pde sentir o cheiro doce do sanduche de manteiga de amendoim com gelia, especialidade sua preparada no retorno da escola.
Luke levava um sanduche e um grande copo com leite para a me e deitava na cama a seu lado. Ela desligava o som de alguma novela, mastigava educadamente o sanduche e lhe fazia perguntas sobre seu dia. Mas no escutava de verdade, no do jeito como Sydney prestava ateno naquele instante.
 Parece que voc ajudou a criar sua me, assim como eu ajudei a criar meus irmos e irm.
O comentrio no continha crticas, apenas compreenso profunda de uma situao difcil. Foi acompanhado pelo pousar delicado da mo dela em seu brao, surpreendendo-o com o calor, compaixo e sua prpria resposta.
O calor de Sydney lhe era transmitido atravs do tecido da camisa. A concha glida que Luke colocara ao redor do corao, tanto tempo atrs, comeava a derreter. Ficou tenso e desconfortvel com a sensao cada vez mais forte entre os dois.
 Sua me ficou assim por muito tempo?  perguntou ela, buscando honestidade quando outras mulheres quiseram evitar o tpico doloroso.
Luke sentia um princpio de verdadeira amizade. Algo que no havia antecipado nem sequer desejado. Mas estava ali. Como se a infncia dos dois, as necessidades, mgoas e desejos to diferentes de alguma maneira os houvesse unido no presente.
 Por uns tempos  respondeu, no querendo revelar muito mais de sua dor.
O abandono do marido havia abalado a confiana da me de Luke, sua sensao de segurana, os sonhos para o futuro. Ele se lembrava de t-la ajudado a preencher a primeira ficha para emprego em um restaurante perto de onde moravam.
Quando conseguiu o emprego de garonete, celebraram com copos de leite e biscoitos de chocolate. Foi a primeira vez que vira a me sorrir em meses.
E depois da conquista monumental, Luke passara a visit-la no restaurante todas as tardes, depois da escola. Ia direto para a cozinha e aguardava que ela terminasse o servio.
Foi sua primeira experincia no ramo de restaurantes. As recordaes ainda lhe traziam sorrisos.
Tentava fazer uma conexo entre seu receio de comprometer-se e sua experincia de vida. Talvez o perodo de turbulncia sofrido com a me, o fato de ter sido a pessoa forte em casa aos sete anos de idade tivesse gerado revolta e o desejo de agir com despreocupao conforme o pai.
Sentiu o olhar de Sydney pousado em seu rosto, caloroso e tranqilo. Os dedos delicados acariciavam sua mo. Ela era suave e lhe despertava algo que nunca sentira antes. De alguma maneira, fazia-o desejar abrir o corao. Mas Luke resistia.
 Meu pai ficou devastado com a morte de mame  disse ela.  O lar o fazia lembrar-se da perda. Ento, enfurnou-se no trabalho e confiou em mim para cuidar dos outros filhos. Sua me e meu pai sofreram de modo diferente, mas o resultado foi o mesmo.
Luke contemplou os olhos azuis cheios de compaixo e fora e soube que estava sendo verdadeiramente compreendido.
 Responsabilidade demais.
Ficou imaginando se fora demais para os ombros frgeis de Sydney. Ser que fraquejara como acontecera com a me dele? Duvidava.
A garonete se aproximou, e a conversa foi encerrada. Sydney ajeitou-se melhor na cadeira e largou a mo de Luke.
Ele instantaneamente sentiu falta do contato. Irritado com o prprio comportamento, afastou a xcara de caf e permitiu que a garonete colocasse o prato com baklava a sua frente.
 Parece bom  murmurou, um sorriso vacilante substituindo a seriedade do momento anterior.
 No parece nada com a sopa que eu fiz em casa  Sydney comentou, o riso dando um tom especial  voz.
Emily estendeu ambas as mos para o doce, lanando-se sobre a bandeja de metal que a separava da pequena mesa redonda. Com reflexo rpido, Luke afastou a tigela de seu alcance. Colocou o dedo no nariz da filha e sorriu.
 Ainda no, querida. Vamos colocar seu babador primeiro. No quero sorvete espalhado em seu lindo vestido cor-de-rosa.
Emily estudou-o com seus olhos escuros e solenes. A mo gordinha fazia gestos enquanto a menina murmurava algo, exasperada.
Sydney riu.
 Ela provavelmente no se importa. Em poucos minutos, todos ns estaremos com sorvete na roupa, de qualquer maneira.
 No se eu puder evitar.
Amarrou o babador ao redor do pescoo da filha. Seus dedos lutaram com os cordes plsticos. Praguejou baixinho at conseguir.
Acomodou-se novamente na cadeira e mergulhou uma colher na tigela com sorvete que a garonete colocara ao lado de seu prato.
Emily inclinou-se adiante, a boca aberta, ansiosa por comer. O frio f-la arregalar os olhos. Colocou a lngua para fora, e a mistura alaranjada foi rolando at cair no colo da menina. Ela passou a balanar a cabea para frente e para trs com fora. 
Luke franziu a testa.
 Emily detestou.
 Ora, d-lhe uma segunda chance. Talvez nunca tenha experimentado sorvete antes.
Luke tentou outra colherada, dessa vez colocando uma pequena quantidade. O sorvete derreteu na lngua de Emily, e ela sorriu.
Rindo, o embevecido papai falou:
 Voc gostou! Aqui h um pouco mais, Emy.
Quando empurrou outra colherada na direo da filha, Emily agarrou a colher e uma poro de sorvete alaranjado escorregou pelo brao erguido da criana e caiu em seu cabelo.
 Emily!
Luke agarrou um guardanapo. Em pouco tempo havia manchas alaranjadas na camisa dele e a bandeja de metal estava imunda.
 Ela est bem  disse Sydney.  Deixe que brinque. Limparemos a sujeira antes de sairmos.
Luke franziu a testa mais intensamente ao observar a filha pintando de alaranjado a bandeja. Os dedinhos estavam melados de sorvete.
Vagarosamente relaxou. Chegou a sorrir, E ento passou a rir.
 Sabe  disse Luke , nunca pensei que eu apreciaria ter um filho. Mas agora, no posso imaginar minha vida sem Emily. Brincar com ela faz-me pensar se meus pais realmente me valorizaram. Ou se eu era apenas a lembrana de um casamento infeliz
 Oh, Luke. Tenho certeza de que o amavam do modo como voc ama Emily.
Ele permaneceu em silncio um momento, duvidando do comentrio. Ento finalmente disse:
  uma vergonha que todas as crianas no possam se recordar de ocasies assim com seus pais.
 Talvez nos recordemos. E possvel que esteja no subconsciente.
Ele sentiu um n na garganta. Eram emoes que nunca experimentara antes
 Eu espero nunca perder os bons momentos de minha filha.
 Aprecie cada momento. Eles crescem to depressa.
 Voc teve tempo de fazer isto?
Ficou imaginando como teria sido a vida de Sydney quando criana, tentando crescer enquanto ajudava na criao dos irmos e irm. Como conseguira? Como lidara com tudo?
Ela olhou para a prpria mo em silncio contemplativo. Luke percebeu que de alguma maneira havia transposto um limite invisvel.
 No quis ser intrometido. No  da minha conta. Ela balanou a cabea.
 Est tudo bem. Estou bem. Apenas um tanto sentimental. s vezes sinto falta daqueles dias tumultuados quando eu precisava estudar para uma prova, arrumar as camas, preparar almoo para todos ns, certificar-me de que Jennie, Paul e Scott haviam feito a lio de casa e de alguma maneira conseguir fazer a minha.
O esboo de um sorriso insinuou-se em seus lbios e atingiu o corao de Luke.
 Tantos afazeres deixavam-me sem tempo para mim... e para passeios. No foi importante at eu ir para a universidade.
 Ento finalmente voc fez algo para si?
 Papai insistiu. Mas eu no deixaria nossa casa, por isto escolhi uma escola local em Tulsa. Foi quando conheci Stan. E comearam todos meus problemas.
O tom de riso tentou suavizar as palavras, mas o sorriso no alcanou seu olhar.
Subitamente Luke quis saber mais sobre aquele casamento frustrado. Ela havia amado um homem e, por alguma razo insana, Luke sentiu um aperto na regio do abdmen.
Tentou concentrar-se no fato de que nunca havia se apaixonado. Talvez fosse simples curiosidade, mas queria um lembrete do que poderia acontecer caso abrisse seu corao. Talvez precisasse desse aviso no exato momento em que estavam, porque seu interesse por Sydney aumentava a cada minuto.
 Seu marido?
 Meu ex.
 H quanto tempo esto divorciados?
 Um ano.
Ela ficou mexendo no garfo de modo ausente.
 E por quanto tempo ficaram casados?  prosseguiu, incapaz de se conter.
 Cerca de cinco anos.
Sydney tomou um gole de caf, e ele notou como sua mo estava trmula.
Luke tratou de servir mais uma colherada para Emily. A maior parte do contedo caiu sobre a bandeja de metal ou escorreu da boca do beb. Ela engoliu e riu satisfeita. Com entusiasmo bateu as mos, pedindo mais. O olhar de Luke vagarosamente voltou para Sydney.
 Como ele era?  indagou, mais curioso do que deveria a respeito dos motivos de Sydney ter se casado.
 Stan?  Fez uma pausa, como se reunindo pensamentos. Passou os dedos pelos cabelos curtos e ajeitou-se melhor na cadeira.
Luke imaginou se sua pergunta a deixara nervosa ou brava.
 Stanley Elliott Wagner  disse, suspirando como se a mera meno ao nome do ex-marido j fosse um fardo.  Ns nos conhecemos na universidade. Ele era alguns anos mais velho do que eu. Eu, uma universitria recm-chegada, com apenas dezessete anos e muito ingnua. Mas sob diversos aspectos eu me sentia mais velha do que a maior parte de meus amigos.
Ele assentiu, impressionado com sua devoo  famlia. Compreendia porque sentira o mesmo pela me.
Sydney analisou o contedo da xcara, passando o dedo pela superfcie polida da porcelana, ento olhou para Emily. Mas evitou fitar Luke.
 Quando ele estava no ltimo ano, fiquei com medo de que fosse embora e se esquecesse de mim. Por isto concordei em nos casarmos.  Parecia desconsolada.  Hoje sei que foi um grande erro. Mas eu era jovem, inocente e tola.
Luke observou-a com mais ateno. Percebeu que a expresso do rosto mostrava confiana e determinao. Os ombros estavam levemente pendidos para a frente. O queixo baixo. Sydney olhava para a mesa, tentando esconder as emoes.
Luke notou que ela no havia alegado uma forte paixo pelo marido a ponto de ter desistido de sua oportunidade de estudar mais. Ser que nunca amara Stan? Ou o divrcio destrura at mesmo a recordao dos momentos ternos?
 De qualquer maneira, ns nos casamos. Precisei deixar a escola por uns tempos. Trabalhei e ajudei a pagar os estudos dele. Mais adiante, depois que Stan se formou eu passei a ir  escola  noite depois de trabalhar durante o dia todo. Demorou ainda mais, mas finalmente eu consegui me formar.
Luke arqueou as sobrancelhas, perguntas silenciosas formando-se em sua mente.
 Acho que meus hbitos de estudo at tarde da noite prejudicaram o casamento. Ou talvez eu no estivesse por perto o bastante.
 No venha me dizer que voc no cozinhava ou limpava bem o suficiente para Stan.
Ela riu.
 Eu provavelmente no fazia isto de maneira adequada tambm. Acho que estava cansada de cozinhar e limpar aps tantos anos, cuidando de meus irmos. Talvez tenha descoberto que ele era velho o bastante para alimentar-se. De qualquer maneira, na poca em que conseguiu o diploma, Stan j estava envolvido com outra mulher.
Luke arregalou os olhos enquanto tentava compreender todo o drama. Seu olhar imediatamente migrou para Emily. Suspirou aliviado ao perceber que a filha no prestava ateno a nada alm dos prprios dedos sujos de sorvete.
 Claro, eu no havia percebido. Meu salrio ajudava a mobiliar um lar simptico para os dois. Ento notei que ele comprava coisas demais no carto de crdito. Finalmente Stan confessou. Fiz minhas malas e me mudei para Dallas.
 E onde passou a morar?
 Kansas City.
 Por que Dallas?
Sua curiosidade a respeito de Sydney se multiplicava a cada minuto e a admirao por sua fora de esprito tambm.
 Minha irm ia estudar ali. E meus irmos moravam por perto. Ento, de certa maneira, era como ir para casa.
Algo cintilava nos belos olhos azuis. Dor. Luke era capaz de reconhecer a dor. Aguardou que ela prosseguisse e lhe contasse mais, mas Sydney caiu em silncio.
Ento Luke observou uma nica lgrima caindo pelo rosto plido e delicado. Sentiu um aperto no peito. Inclinou-se adiante e afastou a gota cintilante, o lquido parecendo queimar seu dedo.
 Sydney... desculpe. Eu no deveria...
 No  culpa sua.  Tentou sorrir.
Ele puxou a cadeira para mais perto da mesa e sentiu o tecido macio da roupa de Sydney contra a perna. Sua boca ficou seca.
Com determinao, obrigou-se a ficar concentrado na dor dela. E imediatamente os belos olhos azuis absorveram toda a sua ateno.
 Ainda est apaixonada por Stan?  indagou delicadamente, surpreso com o nervosismo que o tomava enquanto esperava a resposta, consciente de como ficaria decepcionado se ela ainda o amasse.
 No. Definitivamente no.
Havia honestidade em sua voz. Luke ficou aliviado.
 Sua infidelidade curou-me dos sentimentos que eu tinha. Agora no sinto nada.
Parecia plida, e Luke culpou-se. Queria tanto lhe afugentar a dor. Ela o encarava com seus olhos to parecidos com a cor do mar. Como apreciaria mergulhar naquela imensido azul.
 O que magoa mais...
Ela fez uma pausa e entrelaou os dedos. Seu lbio inferior tremia. Mordeu-o, tornando a pele rosada branca.
 Stan engravidou aquela mulher. 
Ele sentiu uma raiva indizvel tom-lo.
Sydney estava com os punhos cerrados. Ento Luke percebeu que no era raiva o que a dominava. Lutava para controlar as prprias emoes. Emoes que poderiam ser descritas como uma profunda tristeza e autocomiserao.
Ficou ainda mais bravo. Era a mesma sensao que vira quando criana pela me, quando o pai fora embora de suas vidas por causa de uma mulher mais jovem.
 Senti pena de mim durante uns tempos.
Como ele a admirava! Estava diante de uma sobrevivente.
 Estou bem agora.
Estaria mesmo? No parecia to confiante quanto suas palavras soavam. Aparentava sim estar um tanto perdida e sentindo-se rejeitada.
Subitamente Sydney afastou a cadeira e foi para a porta. Luke arregalou os olhos, atnito com sua partida.
Estava se sentindo culpado. Fizera tantas perguntas. Provocara o renascimento daquela dor. Correu atrs dela.
Quando capturou-a com uma mo em seu cotovelo, fez com que se virasse para encar-lo. As lgrimas que viu entristeceram seu corao. Pressionou a mo contra o rosto delicado. Sentia que Sydney precisava dele. Gostaria tanto de devolver-lhe o sorriso de momentos atrs.
Ela tinha uma fora imensa. Sua coragem o atraa como um m poderoso. No fora capaz de ajudar a me. Mas podia ajudar Sydney. Podia lhe mostrar, provar que ela era uma mulher sensual e que merecia ser amada.
Fitava-o com olhos deslumbrantes, e Luke no pde resistir mais. Baixou a cabea lentamente. Ela entreabriu os lbios em sinal de convite ou surpresa, Luke no tinha certeza. Mas beijou-a mesmo assim.
Sua boca era macia e doce. O sabor de creme com acar tentava-o a experimentar mais. Era um desafio a seu corao endurecido.
Ento o som de algo quebrando rompeu a magia do momento e encerrou o beijo abruptamente.
Luke no podia acreditar. Cometera a mais atroz das loucuras.
Esquecera-se completamente de Emily!

CAPTULO V
Luke soube que tinha acontecido um desastre. Era tudo culpa dele. Disparou para a mesa. Seria capaz de explodir de raiva, no de Sydney, muito menos de Emily, mas de si mesmo.
De onde vieram tantas pessoas em p e mesas? Alm disso, seus ps pareciam colar-se ao cho. Olhou para baixo. Eram pores de sorvete alaranjado fazendo seus sapatos aderirem ao piso de madeira.
Passou a andar com mais cuidado para desviar de cacos de porcelana, mas segundos depois o escorrego foi inevitvel. A centmetros do piso lambuzado uma bem-vinda cadeira salvou-o de ganhar uma marca deselegante na retaguarda. Tratou de aprumar-se rapidamente.
Estava em pnico. Somente se acalmaria quando pusesse os olhos na filha.
O silncio era pesado a seu redor, pontuado pelos gritos de deleite de Emily. Ningum dava passagem a Luke, entretanto. Parecia que todos os clientes do restaurante juntamente com os funcionrios o encaravam, irritados com sua inabilidade em controlar um beb de dez meses de idade.
A nica a sorrir era Emily, em p na cadeira alta, orgulhosa como uma rainha, fazendo um pronunciamento. Ergueu as mos sobre a cabea e sujou mais o cabelo com a poro de sorvete que conseguira tirar da tigela antes de o objeto espatifar-se no cho.
O sorvete escorria por entre seus dedos gordinhos e cabelos. Uma gota pingou no nariz e queixo.
A viso da filha em p na cadeira alta, correndo o risco de se machucar, deixou Luke apavorado. De alguma maneira a menina conseguira soltar o cinto de segurana e levantar-se nas pernas ainda bambas. Seu corao quase parou.
Emily gesticulava de olhos arregalados. Luke voou para junto dela. No se importando com a sujeira nos cabelos, mos, braos e rosto da filha, apertou-a de encontro ao peito e manteve os braos ao redor do corpo pequenino e quente.
Uma mo protetora amparou-lhe as costas, a outra apoiando-a no bumbum. Sentia os dedinhos arteiros mergulhando em seus cabelos, a respirao quente em suas faces, a forma slida contra seu corpo.
Aspirou profundamente, sentindo-se aliviado. Uma avassaladora sensao de amor o tomava.
Ela estava segura, procurou garantir-se. Segura.
Sua atitude fora lamentvel. Vira-se distrado por lindos olhos azuis e longas pernas cobertas por meias de seda. Maldito fosse! Ele era exatamente como seu pai!
Passou a apoiar o peso de um p para outro, procurando acalmar Emily e seus prprios nervos. Quando finalmente se convenceu de que nada mais grave ocorrera, pegou guardanapos do recipiente metlico com mais fora do que o necessrio e comeou a limpar a sujeira.
Tirou uma poro de sorvete de debaixo do queixo de Emily, limpou o excesso de sujeira dos cabelos e passou papel absorvente entre cada dedo. Mexendo a cabea e fechando as mos, a menina protestava. Fitava-o, parecendo desafi-lo, e Luke passou a agir com mais suavidade.
 Estou agindo assim para seu prprio bem, senhorita  murmurou.  Ter de tomar um banho caprichado assim que chegarmos  casa.
 Eu sabia que terminaramos todos melados  disse Sydney, rindo.
 Parece que esta... experincia de campo ter de terminar mais cedo.  Ele fez uma careta em resposta.
A garonete aproximou-se com uma vassoura e um esfrego para varrer os pedaos de vidro e tirar o sorvete do piso. Luke agradeceu e falou:
 Levaremos os doces para casa.
 Claro! Embalarei tudo.
A garonete ficaria aliviada quando fossem embora, pensou Luke com vontade de rir. Certamente julgava-os capazes de melar todo o restaurante.
Seu corpo ainda vibrava por causa do beijo. Evitava olhar para Sydney, mas percebeu quando ela tirou a cadeira do caminho da vassoura da garonete. Condenou-se mais uma vez pela prpria estupidez e irresponsabilidade.
Analisou o doce rosto da filha, procurando mais algum trao de sorvete. Emily podia ter se machucado! Cortado-se com vidro. Cado da cadeira alta. Qualquer coisa podia ter acontecido. E teria sido culpa dele.
Precisava manter a cabea longe de Sydney, caso contrrio, nem queria pensar na confuso em que acabaria se metendo.
Bem, mas o evento lamentvel no se repetiria. Jamais!
Colocou os guardanapos e o babador sujos no canto da mesa e abraou Emily novamente. No deixaria que nada lhe acontecesse. No se deixaria distrair. Por nenhuma mulher. Especialmente no por Sydney.
Mas seria uma batalha difcil, porque, de alguma maneira, Sydney impregnara-se nele. No poderia permitir que o afetasse com aqueles olhos to bonitos. Precisava manter distncia.
Alm do mais, lembrou-se, Sydney no era como sua me, que precisava de proteo. Era capaz de tomar conta de si mesma. Ele no tinha responsabilidade alguma quanto a isso.
Bem, devia-lhe ajuda no preparo da sobremesa para a festa, j que vinha recebendo auxlio para cuidar de Emily. Mas somente isso. Era onde terminava sua ligao com aquela linda mulher.
 Vamos  murmurou aborrecido.
Sydney ajeitou a saia justa, e Luke flagrou-se observando suas formas. Quando ela estendeu a mo para pegar a sacola com os pertences do beb, Luke novamente se amaldioou pela prpria tolice. Irritado com sua obsesso, foi mais gil em pegar a sacola. Sua mo roou na dela. O arrepio de antecipao perturbou-o ainda mais.
Admoestou-se por sua reao e, resoluto, virou-se para a sada.
Sydney estava to chocada que parecia ter tomado um banho com gua exageradamente fria. Anestesiada, seguiu Luke at o carro dele.
A viso da minscula mo de Emily no ombro do pai deixava seu corao apertado, e o calor da noite de vero a sufocava.
Ainda podia sentir a boca de Luke movendo-se sobre a sua, a respirao quente e urgente. O beijo fora breve, mas lhe dera oportunidade de experimentar o gosto daquele homem e de conhecer a dimenso do desejo que ele lhe despertava.
Um desejo insacivel. Insano. Enlouquecedor.
Naquele piscar de olhos, tempo que durou o carinho, tentou convencer-se de que fazia muito tempo que no era beijada com tamanha paixo e ternura. Concluiu que sua excitao era natural. E banal.
Fora dominada por aquele calor, feliz como a terra ao receber os raios de sol no primeiro dia de primavera.
O beijo despertara sua alma para a vida. Por isso no seria facilmente esquecido.
Era loucura tentar catalogar todas as sensaes que a haviam assaltado. O toque delicado a excitara, o delicioso perfume masculino invadira suas narinas.
O sabor de Luke mesclara-se ao seu em uma combinao perfeita, fazendo-a pensar em corpos entrelaados e lenis amassados.
Sydney correspondera de todo o corao, expressando o desejo que sentia, querendo...
Ento percebera que nunca fora beijada daquela maneira antes, por ningum. A realidade surpreendente mostrava que no fora carncia afetiva a responsvel pela reao ardente de Sydney ao beijo. Luke a enfeitiava.
Teria notado seu desejo? Assustara-se com sua resposta? Ou ouvira Emily quebrando a tigela?
Como seria doravante? Como voltariam a ter um relacionamento platnico?
Precisavam resgatar o clima anterior. Tinha de ajud-lo com Emily e em troca receberia auxlio para o ch de beb. Era o nico motivo de Sydney no pegar um txi para casa... sozinha.
Desejava que Luke lhe desse algum sinal do que se passava em sua mente. Em vez disso, limitava-se a franzir a testa.
Por acaso percebia que o beijo fora um engano? Arrependia-se tanto quanto ela? Caso contrrio, como ento Sydney lhe diria isso?
Pior, ser que realmente esquecera o beijo em sua preocupao com a filha? O pensamento deixava-a ressentida. No poderia... ela no se esqueceria daquele beijo. Jamais.
Seria melhor, entretanto, que Luke houvesse esquecido. Talvez ento no tivessem de discutir o assunto. Simplesmente retornariam ao que partilhavam antes.
Mas o que haviam partilhado? Ficou pensativa.
Partilharam muito. Ela expusera a dor da separao. Tambm fizera muitas perguntas sobre a infncia de Luke. Sentiu-se enrubescer.
Andavam pela atribulada avenida Greenville. Sydney recusava-se a olhar para seu acompanhante. Grata pelo lusco-fusco, esperava que as sombras da noite escondessem o embarao estampado em seu rosto.
No o beijaria novamente. Nem contaria mais sobre seu passado doloroso ou o motivo real de o casamento ter fracassado.
Oh, Deus! E se houvesse contado tudo a Luke? Felizmente no se sentira capaz. E precisava evitar que o assunto retornasse. Mas como?
Fora to fcil conversar com ele, abrir seu corao. Mas por que Luke? Por que no outra pessoa... qualquer pessoa? Nunca dividira seus problemas e dores. E por que fizera isso naquela noite?
Com Luke, entretanto, fora uma partilha, como se compreendessem um ao outro porque ambos tiveram uma infncia infeliz.
Mas havia outras coisas que aquele homem especial jamais compreenderia. Bastava olhar para ele caminhando a seu lado com a filha nos braos para sentir um vazio no peito.
Cerrou os pulsos. No era justo. Simplesmente no era justo! A me de Emily tivera tudo o que Sydney sempre quisera ter: um homem carinhoso e belo e uma linda criana. E deixara tudo para trs.
Luke abriu a porta do carro para ela, em seguida acomodou Emily na cadeira apropriada afixada ao banco traseiro. Sydney colocou o cinto de segurana.
Tentava ignorar a proximidade ao senti-lo acomodando-se atrs do volante. Poderia estender a mo e tocar-lhe o brao, perna, mo. Mas no faria isso.
Luke saiu do estacionamento e adentrou a pista principal. Fitou Sydney de soslaio. Agarrou o volante com mais fora.
 No devia ter acontecido  disse ele.
O comentrio surpreendeu-a. Ficou imaginando se estava se referindo a Emily ter espatifado a tigela no cho ou ao beijo.
No conseguia parar de pensar no modo como seu corpo respondera a Luke e a seu beijo. O desejo parecera insacivel. Como poderia neg-lo ento? Ela queria negar?
Sim. No poderia envolver-se com Luke. Simplesmente no o deixaria chegar perto o bastante para abalar seu bom senso, nico recurso capaz de proteg-la do sorriso sensual, da voz calorosa ou at mesmo de seu beijo poderoso.
Por algum motivo, ele fazia com que sonhos irrealizveis parecessem a seu alcance.
Entrelaou os dedos no colo, preferindo pensar que ele se referira  filha. Afinal, no falava o tempo todo sobre Emily? No lhe fazia perguntas a respeito de como cri-la? Sim, Emily era sua primeira e nica preocupao.
Lembrou-se da expresso atormentada nos olhos de Luke ao erguer a menina da cadeira alta e abra-la. Sydney sentira um impacto no peito e um n na garganta.
 Acidentes acontecem  respondeu com convico.
Porque embora soubesse que jamais deveria beij-lo novamente, sabia quanto gostaria. Desesperadamente. Seu corpo tremia de desejo.
 Comigo no  argumentou Luke.
Sydney deixou-se ser conduzida para a realidade e esperou as palavras serem absorvidas por sua mente. Se Luke no podia ser culpado, ento quem poderia? Emily? Quem culparia uma criana de dez meses de vida por alguma coisa? Isso deixava Sydney com uma bomba nas mos.
Ficou irritada com Luke. Quem era ele para dizer que acidentes no aconteciam?
 Eu vi o que aconteceu  rebateu Sydney.
Deu uma olhada para a menina no banco traseiro, a filha que ele no havia planejado ter, aquela de cuja existncia nem sabia at dias atrs.
 Eu me recuso a pensar em minha filha como... ela no  um acidente.
Sabia que se referia ao beijo. Sydney no poderia mais postergar o assunto.
Ajeitou a saia e desejou poder esconder-se debaixo do banco.
 Luke, aconteceu. No vamos aumentar os fatos.  Tentou rir com descontrao.  Acredite em mim, no farei com que se case comigo apenas porque me beijou.
Ele se virou e encarou-a com rispidez.
 Mas eu no estava falando do beijo.  O tom de voz frio a magoou.  Eu posso lidar com o beijo.
 Oh! 
Sydney permaneceu imvel, ouvindo as batidas caticas do prprio corao e tentando coordenar os pensamentos difusos.
Enrolou a ala da bolsa no dedo indicador, apertando com fora.
Liberou a tenso com um suspiro.
 Luke, por mais que todos os pais tentem evitar que seus filhos se acidentem,  praticamente impossvel. No se pode prever cada problema em potencial, nem ficar observando as crianas todos os segundos do dia.
Falava to rapidamente quanto seu corao palpitava, tentando lembrar-se de aprender com os prprios erros. O que significava no beijar Luke novamente.
 Acidentes acontecero. Emily arranhar o joelho. Voc a consolar, beijar e far um curativo. E a vida vai prosseguir.
Sydney contemplou os outros carros adiante e desejou chegar logo a sua casa.
Luke fitou-a rapidamente e voltou a se concentrar no trfego.
 Voc aprender com cada incidente. Assim como ela. No pode proteg-la da vida. Cometer erros tambm faz parte do processo de aprendizado do ser humano.
Sydney sentiu o rosto queimando. Talvez se prosseguisse com a conversa, Luke nem percebesse. Ento simplesmente classificaria o beijo como algo inconseqente.
 Precisa se lembrar  conseguiu falar , que a maior parte dos pais comea a adaptao ao filho com mais serenidade do que voc, porque recm-nascidos dormem durante a maior parte do tempo. Ento o potencial para acidentes  menor.
Olhou na direo dele. Luke parecia estar ouvindo. Pelo menos nada falava. A tenso at ento evidente em seu rosto comeava a desaparecer.
Sydney olhou novamente para a pista, rezando para que chegassem logo, antes que esgotasse os assuntos e no soubesse mais o que dizer.
 Mas seu beb j chegou agarrando as coisas e engatinhando. Vai demorar um pouco at voc se habituar  nova situao. Em breve a ida a um restaurante ser to simples quanto vestir uma camisa. Nem mesmo ter de pensar a respeito.
Ele a fitou com intensidade durante um breve momento e voltou a olhar para a pista.
 Talvez.  possvel que tenha razo. O problema mesmo foi aquele beijo.
Sydney sentiu um frio na regio do estmago.
 Se no houvesse acontecido  prosseguiu Luke , ento Emily no teria sido exposta ao perigo de machucar-se. Foi desleixo. Uma estupidez.
Ela sentia as palavras como alfinetadas em seu corao. Luke agia como se fosse culpa dela! Como se houvesse tomado a iniciativa de beij-lo!
Queria deixar de lado o assunto do beijo e pensar apenas em Luke e Emily, mas sabia que precisava encarar a discusso como se fosse um problema profissional.
 Oua bem, Luke, admito que no foi em uma boa hora. Mas no vamos superdimensionar o caso. O que voc disse est certo. Emily poderia ter se machucado. Mas no se machucou. Isto  o que importa.
 Preciso avaliar tudo para garantir que no venha a se repetir. 
Na defensiva, ela cruzou os braos.
 No vai se repetir.
 Voc no pode garantir isto. Afinal, estamos desenvolvendo algumas tarefas juntos.
 Ento h apenas uma sada.
Talvez fosse melhor assim. Mas ento, por que a magoava tanto? Por que subitamente sentia-se perdida sem Luke?
 Talvez devamos cancelar nosso acordo.
 No sei... J no sei de mais nada. Especialmente do que preciso saber para tornar-me um bom pai.
Sydney resistiu  vontade de pousar a mo no brao dele. Lutou contra a simpatia que parecia automaticamente responder ao comando daquela voz. Em vez disso, procurou falar, expressando o que havia em seu corao.
 Ora, voc troca fraldas. Sabe limpar Emily. E est aprendendo como evitar certas situaes propensas a desastres.  Percebeu que era necessrio explicar melhor.  No  tanto o que voc faz. O que conta  que se importa com Emily e ama sua filha. Isto torna-o um bom pai. Confie em mim, posso ver quanto voc ama Emily.
Quando ele olhou em sua direo, Sydney sentiu-se vulnervel, como se houvesse falado demais. Olhou para a luz vermelha da qual se aproximavam e apertou o p contra o piso do carro no instante em que Luke freava.
Procurou conter a melancolia. Luke estava certo. Deviam mesmo pisar no freio. Imediatamente. Antes que fosse tarde demais.
 Preciso de sua ajuda  murmurou categrico, olhando para o carro da frente.
 Voc poderia encontrar outra pessoa.
Luke apertou com mais fora o volante. Ento olhou para o espelho retrovisor e sorriu.
 Emily dormiu!  exclamou com orgulho paternal.
 Excitao demais para uma noite.
Sydney tambm sentia cada gota de energia sendo drenada de seu corpo conforme os minutos passavam. Desejou mais do que nunca estar em sua casa, aconchegada na cama com um livro tedioso que a faria adormecer rapidamente. Ento no teria mais de pensar em nada, apenas sonharia com aquele beijo de Luke.
Ficou imaginando por que simplesmente ele no dizia que no voltaria a beij-la e encerrava o assunto. Por acaso achava que ela o queria tanto a ponto de lanar-se a seus ps? Irritou-se.
 Luke, se est preocupado com a hiptese de eu atac-lo para outro beijo ou de fazer com que negligencie suas tarefas de pai, fique sossegado. Tambm no quero que se repita. No desejo ter um relacionamento srio. Meu trabalho  importante demais.
Era melhor faz-lo crer que era parecida com a me de Emily.
 Ora, mas que bobagem est dizendo! 
Assustada com a ferocidade do comentrio, Sydney indagou:
 Como assim?
 Bobagem dizer que sua vida gira em torno da carreira.
 Bem, mas  verdade. No estou apenas dizendo. So os fatos.
 Eu sei. Mas... aprendi muito tempo atrs a ler nas entrelinhas. O problema  que...
Sydney aguardou que ele prosseguisse, consciente das batidas errticas do prprio corao. Mas, percebendo que ele se calara, finalmente perguntou:
 O qu?
Ele suspirou.
 Sempre senti atrao por mulheres que alegavam no desejar um relacionamento. No sei o motivo.
Fez uma pausa e acelerou mais o automvel.
Sydney desconfiava de que Luke quisesse ter a seu lado uma pessoa forte, confiante, determinada, algum diferente da me. Quem melhor do que uma mulher com a vida totalmente voltada para a carreira?
 Talvez seja porque eu no tive coragem de encarar a verdade  ele finalmente disse.
 E qual  a verdade?
Luke ficou mais tenso e dirigiu vrios quilmetros antes de responder.
 Sou igual a meu pai.
Virou o volante, adentrando a rua onde Sydney morava. Seus movimentos eram precisos, mas a voz mostrava certa insegurana. Talvez at derrotismo.
Surpresa, ela se virou para contempl-lo melhor. Lembrou-se do abrao do prprio pai, to amoroso, de sua boa vontade em conversar at tarde quando ela tinha um problema.
Mais do que tudo, recordava-se das lgrimas paternas, de como soluara no funeral da esposa, abraando com fora os quatro filhos, precisando das crianas para confortar-se.
Lembrou-se do modo como contivera lgrimas de orgulho e alegria no casamento de Sydney. E depois, como chorara com ela quando soubera do motivo do divrcio.
Assustava-a imaginar algum que houvesse crescido sem o apoio de um pai assim. A sensao de perda devia ser irreparvel.
Solidarizando-se com a dor de Luke, dessa vez no pde resistir ao impulso de colocar a mo solidria em seu brao.
Sentiu a tenso da musculatura e percebeu o desconforto com que ele reagia a sua compaixo. Detectou tambm algo mais... algo que no gostaria de considerar... uma resposta nela mesma que no deveria existir.
 Sob que aspecto voc se julga igual a seu pai?  indagou.
 Meu pai no era um homem bom. Eu costumava mascarar isso quando falava dele. Mas  verdade. E sei desde a poca em que eu era criana. Na primeira vez em que machucou minha me.
 Ele bateu em sua me?
 No. Mas as cicatrizes no podiam ter sido mais reais, Meu pai teve um caso amoroso aps outro.
Sydney bem conhecia a dor, vergonha e desgosto da infidelidade de um marido.
 Foi por isso que ele partiu? 
Luke assentiu.
 Encontrou uma mulher mais jovem. Uma sem o fardo de um filho.
Estacionou defronte  residncia de Sydney e virou-se para encar-la. Seu olhar era triste.
 Sydney, eu me enganei. No devia t-la beijado. Eu... eu no sei o motivo...
 No  importante  interrompeu-o, no querendo ouvir seu pedido de desculpas.
Olhou para a mo ainda pousada no brao dele. Sentindo-se estranha, como se houvesse transposto uma barreira invisvel, puxou o brao.
 Talvez no. Mas no estou buscando um relacionamento. Nunca quis me casar. No aps ter observado minha me e meu pai...
Sydney percebia emoes poderosas castigando-o e ps a mo na porta do carro, pronta para escapar, necessitando ir embora antes de fazer algo tolo, como tentar novamente confort-lo.
 Sempre culpei meu pai pelo modo como tratava mame. Mas esta noite percebi que herdei os genes de meu pai.
 Como assim?
 Sydney, voc  muito atraente... uma mulher linda. Tem sido gentil em ajudar-me com Emily. Possui um bom corao. Mas me distraiu esta noite dos cuidados para com minha filha. No  voc. No a estou culpando de modo algum. Mas o incidente serviu para me mostrar que eu posso com facilidade me esquecer das responsabilidades que tenho. E no vou deixar que isto acontea novamente.  Fixou o olhar angustiado nela.  Esta noite, o beijo... O beijo no pode se repetir. Voc compreende?
Sydney ficou brava por um instante, mas, ao ver a tristeza e honestidade naquele olhar suave, algo tocou seu corao. Finalmente compreendeu. Ele no estava culpando-a, mas a si mesmo.
Sua irritao e raiva deram lugar ao respeito. Aquele homem, um novo pai, tinha honra, integridade e um nvel de devoo que parecia raro nos dias atuais  na idade que tinha.
Duvidava da professada inabilidade de Luke em comprometer-se. Testemunhara sua devoo para com a filha, o desejo de virar a vida de cabea para baixo para acomodar-se s necessidades da pequena.
Era um pai maravilhoso para Emily. Por que no admitia isso?
Um dia, ela sabia, seria um marido amoroso para alguma moa de sorte. O pensamento a fez estremecer.
No seria seu marido. Isso no era possvel!
Embora gostasse de Luke e o respeitasse, era simplesmente impossvel viverem juntos. Suas vidas iam para direes diferentes. Ela estava a caminho de dar-se bem na carreira e no deixaria que algum como Luke anulasse seus esforos.
Por mais que Sydney gostasse de Emily, j havia ajudado na criao de filhos de outras pessoas. Era sua vez de ser egosta e cuidar somente de si mesma. Homem algum cortaria sua liberdade novamente.
 Compreendo o que est dizendo, Luke. Est tudo bem. Tambm no estou interessada em um relacionamento. Vamos ser apenas amigos. E eu no me importo em lhe dar conselhos sobre como criar Emily, se voc continuar disposto a me ajudar a fazer algumas sobremesas.  Sydney sorriu timidamente.  Gostaria de subir para experimentar o baklava que no comemos esta noite?
  melhor eu levar Emily para casa, limp-la e coloc-la na cama. Experimentaremos outra receita amanh.
Ela assentiu. Era a resposta correta. A nica resposta.
Seu olhar pousou na boca de Luke. Sabia que no receberia um beijo de boa-noite. O nico beijo que Luke lhe dera permaneceria em sua mente por muito tempo.
Fez meno de abrir a porta, mas a mo dele pousou em seu brao. Uma corrente eltrica tomou-a por inteiro.
 Obrigado, Sydney, por me ouvir. Eu... eu normalmente no falo tanto.
 Nem eu  confessou.
Seria difcil resistir  combinao de sensibilidade, dor e sensualidade presente em Luke. Mas resistiria. Precisava resistir.



CAPTULO VI
Onde estava Sydney? Luke procurava combater a inquietao, perambulando pela cozinha. Sentia-se extremamente s, isolado na prpria casa.
Como explicar aquela preocupao extremada por uma mulher que conhecia havia poucos dias? A partir de quando comeara a ansiar por aqueles momentos noturnos e descontrados a seu lado?
Quase desde o princpio.
No comeo, fora a esperana de que pudesse ajud-lo com Emily. Mas passara a ser muito mais.
J fazia uma semana que ocorrera o desastre na casa de caf... uma semana que haviam se beijado. No haviam mencionado o ocorrido novamente. De incio, houve certa estranheza entre os dois: gestos endurecidos, olhares rpidos de soslaio, economia nos toques.
Concentraram-se em Emily, baklava e pudim de chocolate. Discutiram quais as melhores marcas de fralda, farinha e como separar ovos at aprender a antecipar as necessidades um do outro: uma chupeta, esptula ou uma pitada de sal. Haviam formado um time.
Mas em um recanto da mente de Luke, havia o pensamento sobre aquele beijo.
Girou nos calcanhares, continuando sua caminhada infindvel pela cozinha. Para onde Sydney fora?
Deixara-a ali, na cozinha, e fora fazer Emily dormir. Demorara apenas uns vinte minutos. Sydney dissera que comearia a preparar um mousse de chocolate, mas a tigela de alumnio estava vazia no balco; ao lado, os ovos ainda na embalagem, e o acar dentro do frasco.
Ser que ficara entediada? Irritada? Teria ido embora? Quando viu a bolsa no balco da cozinha, respirou aliviado.
Ento Luke avistou-a. E sentiu o corao ficar mais leve.
Atravs do vidro da janela, observou o quintal da casa. O sol poente fazia a gua da piscina cintilar. Sydney estava sentada na beirada, os ps nus brincando na gua.
O entardecer emprestava um tom dourado aos cabelos avermelhados. Uma brisa suave moldava a blusa aos seios rolios. Ela virou o rosto na direo do sol j a se esconder. Era o pr-do-sol mais lindo que Luke j vira.
E tudo por causa de Sydney.
Passou a mo nos olhos, tentando apagar a imagem da mente... e do corao. Mas sabia que o movimento era vo.
Sydney esculpira um lugar para si em sua lembrana. Luke no podia ignorar o efeito que ela lhe causava.
Ela passara a significar muito mais em sua vida no decorrer das ltimas poucas semanas do que deveria. Seria impossvel negar que apreciava as noites que passavam juntos. E contanto que isso no prejudicasse Emily, achava que estava tudo bem. Ou no?
Era perigoso, no ignorava o risco. Mas... Emily estava segura no bero. No deixara a filha indefesa, conforme quando se afastara dela, deixando-a em uma cadeira alta.
Abriu a porta do balco e juntou-se a Sydney na beira da piscina. Ela o fitou, dando-lhe um sorriso especial. O corao de Luke disparou. Sentia-se como um adolescente tmido ao sentar-se a seu lado no deque.
O perfume feminino e floral foi-lhe trazido pela brisa suave. Lutou contra o efeito que a proximidade lhe despertava. Chegou a imaginar que estragos ela poderia lhe trazer se realmente tentasse atra-lo.
Sentindo que devia ter ficado na cozinha e mantido alguma distncia entre os dois, limitou-se a dizer:
 A noite est bonita.
 Hmm  murmurou sonhadora, contemplando o horizonte distante.  Linda.
Luke concordava com aquele elogio embora no se referisse ao pr-do-sol. Notava as minsculas sardas no nariz delicado de Sydney, a forma bonita das mas do rosto.
Gostaria de ficar mais perto, analisando-a, decorando cada nuana que a tornava to nica.
 Emily dormiu com facilidade?  ela indagou, a voz to suave quanto a gua que banhava seus calcanhares.
 Est dormindo como um...
Sydney fitou-o e sorriu, fazendo surgir uma covinha em cada lado de sua boca.
 Como um beb? 
Luke riu.
 Faz sentido. Mas Emily demorar algum tempo at saber o que deve ou no fazer.
 Ficar cada vez mais fcil.
 Se ficar um pouco mais difcil  ele disse ainda rindo , ento v em frente e me enterre agora. Porque no sobreviverei.
 Certamente sobreviver. Este  o perodo torturante da paternidade.
 Pensei que tortura fosse ilegal.
 As crianas no pensam assim.
O sorriso de Sydney era suave, cheio de simpatia e com uma boa dose de humor.
 Se voc conseguir sobreviver a isto, ento haver uma boa chance de suportar a adolescncia dela tambm.
Luke fez uma careta. Uma longa estrada como pai solteiro espraiava-se diante de seus olhos. Cheia de promessas, mas seria tristemente solitria a viagem pelas florestas densas e escuras, cheias de obstculos desconhecidos. Poderia caminhar sozinho? Conseguiria? Sentiu um n na garganta.
 Voc devia ter visto Emy agora h pouco. Eu estava segurando a mamadeira, e ela pousou a mo na minha.
 Em breve conseguir segurar a mamadeira sozinha.
Luke experimentava emoes estranhas. No estava preparado para uma mudana de vida to abrupta. A cada noite sentia o lao com a filha fortalecer.
 Emy falou.
Sydney arqueou as sobrancelhas e sorriu.
  mesmo? E o que ela disse?
 Provavelmente nada  respondeu, duvidando subitamente de ter ouvido algo da boca da filha.  Durante a maior parte do tempo, fala em idioma estrangeiro.
 Conversa de beb.
 Mas esta noite... esta noite ela disse: pa-pa.
 Oh, Luke!  exclamou Sydney, pousando a mo em seu brao.  Que emocionante!
Os nervos de Luke estavam  flor da pele. Bem, pelo menos, Sydney no disse que ele estava imaginando coisas. Nem mesmo deu a desculpa de que bebs emitiam tais sons. E por isso, pela compreenso que demonstrava, sentia-se eternamente grato.
Quando contemplou os belos olhos azuis, soube que ela tinha captado a magnitude do momento partilhado com a filha. Luke sorriu, sentindo o corao pleno de alegria.
 Foi a sensao mais maravilhosa do mundo.
Sydney acarinhou-o levemente no brao, ento com vagar afastou a mo. E, naquele momento, naquele preciso instante, Luke soube que no gostaria de trilhar aquela longa estrada para o futuro sozinho.
Fora capaz de relatar quela mulher a troca maravilhosa experimentada com a filha. Da mesma maneira, gostaria de compartilhar os momentos doces quando Emily comeasse a caminhar sozinha, dissesse a primeira palavra coerente e fosse para o jardim da infncia.
Queria dividir as decepes que a vida porventura impusesse. E tambm as frustraes, perguntas e dvidas.
Pesaroso, lembrou-se que a me biolgica de Emily no estaria por perto para aconselh-la e confort-la nos momentos cruciais, nem para observ-la desabrochar para a idade adulta.
Cometera um erro envolvendo-se com Sheila. Mas no se arrependia totalmente, porque fora abenoado com uma linda garotinha.
Quem se importaria tanto quanto ele com Emily? Quem um dia compreenderia como aquela menina fazia seu corao transbordar de orgulho e alegria?
A seu lado, sentiu o apoio de Sydney. Um silncio confortvel pousara entre os dois conforme os ltimos raios de luz cediam espao  escurido.
Luke prendeu a respirao, desejando que aquele momento nunca terminasse. E ficou imaginando se aquela mulher importava-se o bastante com Emily e com ele para acompanh-los naquela aventura a trs.
Abandonou o pensamento. Estava sendo sentimental demais, muito frvolo. Queria realmente se casar? Gostaria de dividir Emily e distanciar-se da filha?
Ento com a mesma clareza da lua cheia que passava a banh-los, lembrou-se do comentrio de Sydney a respeito de relacionamentos e casamento. Ela no o queria, nem a Emily. No gostaria de dividir dores e triunfos.
Uma brisa fria fez o corao de Luke parecer mais entristecido e glido do que antes.
 Voc vem sempre para c?  ela indagou, a voz mansa interrompendo-lhe o pensamento.  E to tranqilo.
Confuso com as prprias perguntas e a profunda decepo que sentira ao se lembrar que Sydney no estaria interessada em ter um relacionamento com ele, deu de ombros levemente.
 Pouco. Antes da chegada de Emily, eu estava ocupado demais com o restaurante, e agora que ela est aqui no h tempo.
Sydney inclinou-se e passou a ponta dos dedos na gua.
 O que vai fazer?
Subitamente irritado com Sydney, com suas perguntas persistentes a respeito das sensaes esquisitas que lhe tomavam o corao, disse:
 Colocarei o restaurante  venda.
Ela estacou e fitou-o. Tirou os ps da gua.
 O qu?
Luke notou naquele instante, apesar da penumbra, que as unhas dos ps dela estavam pintadas de vermelho. Parte de sua conscincia gostaria de observar melhor aqueles dedos, mas o lado racional ordenava que se esquecesse dos ps bem como do sabor do beijo daquela mulher.
Aborrecido com ela, com a prpria reao e com o clima romntico produzido pela lua cheia e estrelas cintilantes, cruzou os braos.
 No  algo to espantoso assim.
Falava com sinceridade. Colocar o restaurante  venda no o magoava tanto quanto havia previsto. Na verdade, dava-lhe significativo alvio, desde que fosse vendido com rapidez.
 Mas o restaurante  sua vida.
 No, Emily   disse com honestidade.  Tudo muda. 
Luke sabia que havia mudado. Sua esperana, sonhos e desejos foram alterados.
 Algum dia, se eu quiser, poderei abrir outro restaurante. A venda nos dar o bastante para nos mantermos por uns tempos, at eu descobrir o que mais poderei fazer.
 Voc se refere a um entediante emprego das nove da manh s cinco da tarde? No posso imagin-lo usando terno e carregando uma pasta.
 Nem eu. E nem sequer penso em deixar Emily diariamente em um berrio. Gostaria de atuar em um ramo que me permitisse trabalhar em casa. Onde poderia cuidar de minha filha e tambm dos negcios. No quero desperdiar estes anos preciosos da vida de Emily.
Luke percebeu que ela o analisava. Inclinou-se e apoiou os cotovelos nos joelhos dobrados. Analisou os calos da prpria mo. Recusava-se a fitar Sydney e a ver compaixo em seu olhar. No queria ouvir argumentos contra o que havia decidido fazer. Precisava de seu apoio, de sua compreenso.
Sabia que tomava a deciso correta. Ningum o faria mudar de idia. Nenhuma mulher, nem mesmo Sydney. E para provar a confiana na prpria deciso, resolveu finalmente encarar os olhos azuis que o fitavam. E logo se arrependeu.
As luzes do interior da casa faziam as lgrimas cintilarem nos olhos dela, como se houvesse ondas nos dois oceanos azuis.
 Esta  a atitude mais corajosa que j presenciei. Emily  uma menina de sorte em t-lo como pai.
Luke sentiu um n na garganta.
 Foi minha nica opo.
 No. Havia milhes de coisas que voc poderia ter feito, mas tomou a deciso correta. E eu o admiro por isto. Nem todos so fortes assim.
Luke desejara apoio, mas a admirao de Sydney o inquietava e encabulava. Levantou-se e notou que no se sentia mais to solitrio, porque sabia que ela o aprovava. Vagarosamente, e no sabendo o que mais fazer, ofereceu-lhe a mo.
 Pronta para entrar?
Ela pousou os dedos frios contra sua palma spera. Seus olhares se encontraram.
 Quer tentar novamente?
A indagao sugestiva de Luke pairou no ar como um convite. Mas tinha se referido  receita, afirmou-se constrangido. Ou no?
Instintivamente lembrou-se do beijo.
No decorrer da semana, havia pensado muitas vezes naquele beijo.  noite, deitado sozinho em sua cama gigantesca, lembrava-se do gosto doce daquela boca, da incrvel suavidade dos lbios, como acar derretendo ao sabor da chuva.
Durante o dia, quando estava ocupado com Emily, reunindo seus brinquedos, abraava o adorado carneiro de pelcia da filha e se recordava da delicadeza de Sydney, de seu toque encorajador, do rubor em seu lindo rosto.
Cada divagao dessas o amedrontava, abalando sua paz de esprito. Mas quando ninava a filha para dormir, noite aps noite, percebia como a casa parecia silenciosa e quo solitrio se sentia depois que Emily adormecia. Uma parte dele j no queria mais isso.
Gostaria de sair do quarto da filha e encontrar Sydney a sua espera. Como naquela noite.
Queria t-la a seu lado para contemplar o pr-do-sol. Gostaria de segurar sua mo e de beij-la inmeras vezes. Mas por quanto tempo?
Sydney enrubesceu levemente ao luar, e seus olhos cintilavam com um brilho misterioso.
 Se voc acha que estamos prontos...
 Eu acho.
Mas Luke sabia que no estava preparado para o que seu corao desejava. No sabia se um dia estaria. Havia apenas uma certeza: seria incapaz de magoar Sydney ou a filha propositadamente, quer decidisse quer no pelo mergulho naquelas guas profundas e misteriosas da paixo.
Sabia que estavam prontos para preparar um pudim ou outro prato qualquer, mas no para um beijo. E certamente no para um relacionamento amoroso.

Sydney franziu a testa. Concentrou-se no sabor e na textura da poro que levara  boca. Com a ponta da lngua, lambeu a ltima colherada de mousse da colher.
O olhar fixo de Luke incendiava-lhe as faces. Ele olhava para sua boca. Por isso, Sydney fez com que os lbios se voltassem para dentro para evitar a tentao de limp-los sensualmente conforme fizera com a colher.
O silncio tornou-se pesado. Era evidente a apreenso de Luke quanto a seu veredicto.
A fim de amansar o clima tenso, ela disse:
 Nada mal.
 Nada mal? Esta  a terceira mousse em uma semana! No  possvel ficar melhor do que isto. Como  difcil satisfaz-la, senhorita!
 Sou perfeccionista, eu sei, mas no difcil de ser satisfeita. 
Sydney pensou em exatamente o que ele poderia fazer para satisfaz-la, e sua pele arrepiou-se toda.
 O que h de errado com a mousse desta vez?  indagou aborrecido.
 Nada  respondeu, sorrindo.  Eu s estava provocando voc.
 Ento esta receita est aprovada?
 Voc far todas as mulheres do ch de beb babarem.
 No estarei l.
 Claro. O que quis dizer  que, bem... esta mousse vai... encantar minhas convidadas.
A mo de Sydney tremia ao pegar outra colherada.
 Voc est certo, claro. No precisarei que esteja l. E por isto que est me dando lies de culinria.
Saboreou outra poro e dvidas a assaltaram. E se no conseguisse preparar sozinha os pratos? Tinha de admitir que Luke ajudava-a mais do que ela em relao a Emily.
 Na verdade vou precisar, sim. Porque no conseguirei...
 Claro que vai conseguir!
Deu-lhe um tapinha no ombro. Era uma tentativa desajeitada de aliviar-lhe a preocupao. E quando Sydney encontrou seu olhar, Luke virou a cabea para o lado.
 Voc estar preparada. Eu no ajudei muito desta vez.
 Ajudou, sim. Sempre ajuda. Eu sinto que sou a assistente do chef.
 Est bem, ento vamos tentar... outra receita. E voc  quem far. Sozinha. Poder fazer perguntas, mas eu no erguerei nem um dedo sequer.
Mas que excelente!, ela ironizou em pensamento. Luke ficaria observando cada movimento seu e esperava como resultado uma sobremesa magnfica? Impossvel!
Aquele olhar deixava-a com os nervos  flor da pele e distrada. Provavelmente usaria sal em vez de acar.
A dor de cabea castigava suas tmporas. Era tenso. O pescoo comeava a se retesar tambm.
Ento subitamente sentiu as mos de Luke em seus ombros. O calor intenso passou a ser distribudo para todo o seu corpo.
 Calma  disse ele, massageando a musculatura de seu pescoo com a confiana de um cozinheiro lidando com massa para po.  Relaxe.
Sydney havia resolvido no ceder  atrao que sentia. Mesmo assim, seu corpo tornava-se fraco, os joelhos bambos. Desejava que Luke continuasse com a massagem eternamente, naquela doce tortura, mas tambm gostaria que parasse antes que ela se virasse para abra-lo e beij-lo bem ali na cozinha!
 Est bem  disse ela.  O que devo fazer?
 Acha que est preparada para o qu? 
Voc.
Balanou a cabea e deu um passo para longe dele. Notou ento que a massagem realmente ajudara a diminuir a tenso em sua musculatura.
 Obrigada  sussurrou.
 Quando precisar.
Ela engoliu em seco e desejou que fosse verdade.
 Talvez algo no to complicado.
 Uma sobremesa simples? H algo assim?
 No sei.
Ento uma idia divertida ocorreu a Luke.
 Sabe que isto me soou bem? Biscoitos simples!  exclamou, sorrindo.  Voc conseguir.  fcil.
Sydney assentiu. Sem dvida alguma recobraria a confiana. Talvez tivesse comeado com expectativa alta demais. Devia ter principiado com algo mais simples.
 Voc tem uma receita?
 Tenho uma de mame... em algum lugar.
Abriu uma gaveta. Tirou um martelo, algumas receitas e peas de um jogo. No fundo, encontrou um carto amarelo.
 Aqui est. Voc mexer, e eu lhe darei os ingredientes.
 Eu no devia fazer sozinha?
 Colocar farinha de trigo no balco no lhe ensinar nada. Voc economizar tempo, pois no ter de buscar os ingredientes em meu armrio. E quanto antes terminarmos, mais cedo poderemos comer os biscoitos. Estou faminto.
Ela riu e pegou uma tigela. Enquanto Luke tirava os ingredientes do armrio bem como medidores, Sydney lia a receita. Todas as vezes em que o brao dele roava no seu, distraa-se. Por que aquela cozinha espaosa parecia do tamanho de uma caixa de fsforos? Tentou concentrar-se em medir a quantidade correta de acar e jogou-a na tigela, mas uma parte caiu no balco.
 Pare.
Luke estava em p no meio da cozinha com metade das portas do armrio abertas.
 No h chocolate.  impossvel fazer biscoitos sem chocolate. 
Ela sorriu.
 No se preocupe. Tenho um pouco em meu carro.
 Em seu carro? Por que carrega chocolate? Sempre est to preparada assim?
Ela riu.
 Comprei bastante chocolate para a mousse porque no sabia a quantidade a ser usada. E quando desempacotamos tudo aqui, percebi que uma sacola ficara no carro.
 Est bem ento, vou busc-la. 
Em minutos ele estava de volta.
A fim de distrair-se do charme de seu professor, ela indagou:
 J pensou no que far depois da venda do restaurante? Ser um consultor culinrio?
 Acho que sim. Mas isto vai requerer viagens.
Abriu a lata, e Sydney aspirou o cheiro agradvel de chocolate. Estendeu a mo para pegar o pote, e seus dedos encostaram nos de Luke. Uma corrente eltrica subiu por seu brao. Afastou a mo e recusou-se a encontrar o olhar dele. Em vez disso, pegou a colher plstica de medida.
Luke segurava a lata para que ela se servisse. Sydney colocou seis medidas na massa. Tremia tanto que derrubou um pouco no balco.
 Tenho pensado em um catlogo de pedidos por correspondncia  disse ele em tom contemplativo.
Sydney ficou imaginando se queria conselhos ou se estava apenas se questionando.
Intrigada com a idia, fitou-o e ento notou como estavam prximos. Sentiu a respirao presa na garganta, e seu olhar migrou para a boca de Luke.
Como seria fcil percorrer o breve espao e beij-lo. Mas resistiu. O bom senso ordenava. Olhou para o pomo-de-ado em vez de para aquela boca intrigante.
 Utenslios de cozinha?  conseguiu perguntar.
 Talvez alguns. Mas principalmente comida.
Sydney sentiu o calor daquele olhar tocando seu rosto e lbios. Procurou concentrar-se no que misturava na tigela. Ovos, leo e ingredientes secos.
 Tudo pronto.
 Hmm?
O olhar de Luke vagarosamente migrou da boca dela para a tigela.
 Oh, voc precisa de uma frma.
Juntos colocaram o contedo na frma, ligaram o forno e programaram o tempo necessrio para o preparo.
 Ento seu catlogo no seria necessariamente voltado a chefs?  indagou, retomando o tpico seguro.
 Seria destinado a pais solteiros.
Sua voz parecia cheia de vida, esperana e promessas.
  uma grande idia!  exclamou ela, contagiada por seu entusiasmo.  Certamente h muitos pais solteiros que precisam de ajuda.
 Acha que funcionar?
 Claro. E por que no? Pelo que sei, nada est servindo este mercado em particular.
  verdade. Eu imagino colocar algumas dicas para refeies. Claro, escreverei um livro com receitas simplificadas, assim os pais podero preparar as refeies que a maior parte das crianas gosta, com uma lista de coisas para se manter na despensa. Talvez o livro de receitas possa ser vendido em CD-Rom tambm...
 Seria maravilhoso! Um pai poderia pesquisar algo no escritrio antes de ir para casa  noite para ficar com as crianas.
 Exatamente!
 E que itens de alimentao voc incluiria?
 Os de caixinha, de preparo rpido. Um pai apressado apenas teria de acrescentar frango, bife e gua. Todos os ingredientes estariam na caixa.
Provocadora, Sydney colocou as mos nos quadris.
 Pensei que chefs no considerassem refeies desse gnero comida de verdade.
 Um pai solteiro no quer cozinhar.  uma necessidade. No est tentando obter elogios.
  verdade.
 A vida de um pai solteiro pode ser muito atribulada.
 Voc bem sabe...
 Mais tarde, poderamos expandir para itens perecveis. Talvez bolos de aniversrio. Biscoitos.
 Voc deve comear com algo que possa gerenciar de imediato, mas que lhe d espao para crescer.
 Tem razo.
O fogo apitou. Ele sorriu.
 Hora dos biscoitos!
Luke desligou o fogo antes de abrir a porta do forno e virou-se para Sydney. Ela retrocedeu abruptamente. Ficaram a se encarar durante alguns segundos.
 Obrigado  disse emocionado.
 Pelo qu?
 Por ter gostado de minha idia.
 Eu adorei, Luke.
Sydney sentia um n na garganta por causa das emoes reprimidas.
 Que bom. Outros no tm me dado este apoio.
 Quem? Por qu?
 No sei o motivo. E quem so realmente no importa. Mas... eu valorizo sua opinio e aprecio seu apoio.
 No tenho dvidas de que voc se dar muito bem.
 Isto eu no sei. H muitas coisas que preciso descobrir. Como o custo inicial.
 Eu poderia ajud-lo  ofereceu-se antes que pudesse pensar melhor no assunto.  Afinal, sou contadora.
Luke sorriu.
 timo. Voc ser muito til no projeto.
O sorriso de Luke era contagiante e aqueceu o corao de Sydney.
 E como voc chamar o catlogo?
 No ria, mas eu pensava em Pai Solteiro. O que acha? 
 Perfeito!
Luke abriu a porta do forno, e ela tirou a frma... Arregalou os olhos. Os biscoitos formavam ondas escuras a cada movimento seu.
 Por quanto tempo mais devemos cozinhar isso?  Luke quis saber.
Sydney deu uma olhada na receita.
 O tempo est correto.  Sua confiana esmoreceu.  No devia estar com esta aparncia, no  mesmo?  indagou desconsolada.
 No  comum.
Luke mergulhou uma colher na mistura.
 Por acaso esqueceu de acrescentar farinha?
O olhar de Sydney encontrou o dele, depois pousou na embalagem de farinha de trigo ainda fechada sobre o balco.
 Oh, no!
Sydney sabia por que se esquecera do ingrediente principal. Por causa de Luke. Ele a distrara novamente.

CAPTULO VII
Os dedos de Sydney moviam-se com graciosidade e segurana, capturando a ateno de Luke.
Por um segundo, ele desejava ser a tecla da calculadora, sentindo as mos delicadas movendo-se em carinhos leves e tentadores. Devia prestar ateno nos nmeros que apareciam, mas apenas observava Sydney.
Ela se oferecera para ajud-lo a lidar com os clculos do novo empreendimento. Luke fizera telefonemas durante toda a semana para aprender mais sobre como dar incio ao catlogo Pai Solteiro.
O montante de dinheiro necessrio assustou-o. Igualmente espantosa foi a primeira oferta que recebeu pelo restaurante Cavalo de Ao. Daria para guardar dinheiro suficiente para a educao e o casamento de Emily.
Mas no deveria pensar naquilo ainda. Primeiramente, economizaria para garantir segurana  filha. E ento, usaria o restante do dinheiro para comear seu novo negcio.
 Tanto assim?
Luke olhou por cima do ombro de Sydney. Inclinou-se ainda mais e olhou os nmeros. O perfume dela o enlouquecia. Engoliu em seco e tentou se concentrar no montante a que Sydney chegara.
 Eu nem imaginava... nossa! Como algum pode arcar com tanto?
Sydney tamborilou os dedos levemente na lateral da calculadora.
 O problema  o catlogo em si. O investimento  muito alto. H o custo de produo, fotografias necessrias, sem mencionar a diagramao, impresso e postagem. E tudo isto de imediato, sem qualquer garantia de venda.
 Todos os itens vendero muito bem  disse Luke, tentando demonstrar mais confiana do que sentia.
Estava nervoso. E se todas suas economias se transformassem em fumaa?
Dvidas o torturavam. Poderia arriscar o futuro de Emily?
Tivera dvidas antes, mas nunca foram capazes de paralis-lo. Chegou a duvidar do sucesso do restaurante Cavalo de Ao, ponderando se devia mesmo investir no projeto.
Muitos amigos advertiram-no dos riscos, obstculos e dores de cabea. Mas Luke acreditou na prpria habilidade, em seu sonho. E, de alguma maneira, miraculosamente funcionou.
Mas a situao atual era bem diferente. Havia Emily. No poderia dar um tropeo sem afet-la. E se o novo projeto desse errado? E se perdesse o montante investido? O peso da responsabilidade o sufocava.
Observou Emily brincando no cercado, agarrando os diferentes brinquedos colocados no piso almofadado.
Seu corao inundou-se de alegria. Amava a filha mais do que um dia julgara ser possvel amar algum. Cada vez mais seu amor por ela crescia e a capacidade de amar tambm. Subitamente o fardo pesado da responsabilidade pareceu mais leve.
Sorriu para a filha, que batia o carneiro de pelcia na perna. Percebeu que a busca dos prprios sonhos no era egosmo, como chegara a pensar. Contanto que no agisse com imaturidade nem se esquecesse de suas responsabilidades.
Observara a me superando os prprios temores e compreendia que a perseguio dos sonhos dele ensinaria Emily a fazer o mesmo um dia. Era o maior presente, alm do amor, que poderia dar  filha.
 Voc est bem?  Sydney perguntou. Luke assentiu.
 Sei que parece impossvel, mas tem de haver um jeito de dar certo. Fiz do restaurante um empreendimento de sucesso, contrariando todas as expectativas. Sonhos existem para serem concretizados.
O comentrio dele pareceu reduzir o espao entre os dois.
 Como assim?
Ao lado de Luke, Emily brincava no cercado, emitindo sons que expressavam sua alegria. Ele lutava por encontrar palavras capazes de explicar o que significava ser pai. Sentou-se na beirada do sof.
 Voc obteve seu diploma universitrio. Sobreviveu a um casamento fracassado. E perseguiu seus sonhos... sua carreira. Fazendo isto, mostrou a seus irmos e irm que nada  impossvel. Quero mostrar o mesmo a Emily. Provar-lhe isto. Com minha vida, minhas decises, meu trabalho.
O olhar de Sydney pousou sobre o beb. A intensidade nos olhos azuis esmoreceu, e sumiu o brilho que antes existira ali.
 As crianas no se importam muito com o sucesso dos pais ou guardies. Simplesmente querem saber o quo importantes so para eles. Querem ser amadas.
Atnito, Luke perguntou:
 Acha que no amo minha filha?
 No falei isto. Eu quis dizer que sonhos so apenas sonhos. Mas crianas so a realidade.
 Por que acha que estou fazendo tudo isto? Por causa de Emily. Por minha filha. Para poder passar mais tempo a seu lado. Quero...
 Luke  interrompeu-o, a voz mais calma do que a dele.  No est compreendendo o que eu digo.
 Ento explique.
Sydney virou a cadeira para encar-lo melhor, mas baixou a cabea. Havia uma sombra em seu rosto, escondendo a expresso. Aps uma breve pausa, olhou-o, e seus olhos estavam cheios de uma tristeza to profunda que Luke sentiu ricochetear no prprio corao.
 Voc no compreenderia.
 Tente...
Sydney permaneceu em silncio por muito tempo. Ento olhou para Emily, em seguida para Luke e falou:
 Eu no o estou acusando, nem criticando seus sonhos ou sua idia. Acho que pode funcionar. Mas talvez haja uma estratgia melhor do que aquela que desenvolvemos at o momento. Gostaria que voc compreendesse que na aparncia os fatos muitas vezes diferem da realidade.
Por que Luke achava que ela falava sobre algo completamente diferente?
 Est dizendo que voc no est perseguindo seus prprios sonhos? Mas falou que...
 Sei o que disse. E o que ainda digo. Sou exatamente o que voc descreveu: uma mulher orientada para a carreira.
Ele inclinou-se para a frente, querendo toc-la, confort-la, descobrir que dor era aquela, mas resistiu. Achava que seu gesto no seria bem acolhido.
 E  assim porque precisa ser?
Ela ergueu a cabea. Seu olhar se estreitou. Parecia estar batendo uma porta diante do rosto de Luke, fechando-a. E ele sentiu frio. Teria dito algo errado?
 O que foi? O que eu disse?
 Nada. Vamos voltar ao trabalho.
 Espere um minuto. Eu quero saber...
 Deixe para l. No  da sua conta.
Um tapa no rosto no teria machucado mais. Luke admoestou-se. Ela tinha razo. No era da sua conta. Mas importava-se com os sentimentos de Sydney. E sabia que a magoara, embora sem inteno alguma.
 Eu no quis insult-la. Eu... Eu apenas quis dizer que talvez voc fosse como minha me. Ela foi forada a trabalhar por causa do divrcio. Eu achei que voc tivesse se sentido assim. Talvez eu tenha me enganado.
Somente o barulho suave das unhas de Sydney contra as teclas numricas preenchia a sala. At mesmo Emily permanecia em silncio no cercado. Luke ficava cada vez mais nervoso. Como o clima pudera mudar to abruptamente? O que ele havia feito? Ou dito?
 Voc no se enganou  Sydney falou em um sussurro. O comentrio espantou-o. Virava a imagem que tinha de Sydney de cabea para baixo. Devia ficar apavorado. Normalmente, quando ouvia uma mulher negando a postura orientada para a carreira, saa correndo.
Quantas mulheres lhe disseram que tinham mudado de idia? Que simplesmente tinham passado a desejar um relacionamento em vez de dar prioridade  carreira? E um relacionamento com ele! Mas Sydney no estava dizendo isso. No falava por motivo algum, exceto talvez para obter um pouco de paz.
Ela estava de cabea baixa. Luke queria contemplar seus olhos, mesmo sabendo que no seria capaz de resistir  expresso atormentada.
Gostaria de abra-la, fazer com que descansasse a cabea em seu ombro, diminuir-lhe a dor. Mas como? Com um beijo? Um passeio? O que tinha para lhe oferecer?
Sydney no queria simpatia, apenas compreenso. Tudo o que Luke tinha a lhe oferecer era amizade.
Resolveu no fazer mais perguntas e resistiu  vontade de confort-la com uma mo no ombro delicado, um carinho no rosto claro, um beijo nos lbios. Em vez disso, voltou a conversa para o assunto anterior.
 Analisarei com cuidado meu pblico consumidor em potencial. Mas acredito nisto, Sydney. Acho que pode dar certo. E voc tem razo. Deve existir um modo melhor de eu alcanar o mesmo resultado sem gastar tanto.
Ela passou as mos na cala jeans. Era a primeira vez que a via vestida de modo casual, sem terninho, meia de seda e um belo e clssico par de sapatos.
Desejava que as roupas a tivessem tornado desengonada, mas continuava sensual. O jeans justo dava a impresso de as pernas serem ainda mais longas. A camiseta branca salientava a cor dos cabelos e acentuava a perfeio da pele clara.
Luke tentou concentrar-se nos nmeros. Mas sua mente vagava.
 Eu concordo  disse ela em tom rspido e profissional.  H definitivamente necessidades deste pblico composto por pais solteiros que ainda no foram atendidas. Acho que compraro seus produtos. Mas primeiro precisar colocar o catlogo nas mos certas. E isto aumentar seus custos.
Ele assentiu, imaginando o motivo de ela estar ali, ajudando-o mais do que j fazia em relao a Emily. No tinha uma vida para administrar? Ou constatava, como ele, a fora da amizade que se formara entre os dois? Se ao menos pudesse ler sua mente... Se...
Deteve-se. No. Ambos haviam decidido que no se envolveriam. Fisicamente. Sexualmente. Emocionalmente. Nada haveria entre eles.
Sabia, entretanto, que tanta racionalizao era bobagem. J haviam cruzado a linha divisria, mas ambos optavam por ignorar os sinais.
 H listas de endereos  disse categrico, obrigando-se a focar a ateno na futura carreira assim como Sydney concentrava-se na dela.  Posso comprar as mais condizentes com nosso pblico consumidor potencial. Mas isto no garantir nem uma venda sequer.
 Correto. Um pressuposto seguro  considerar que voc somente ter lucro aps, no mnimo, seis meses. Talvez at depois do primeiro ano. Vai demorar algum tempo para cobrir todas as despesas e custos.
Luke ficou imaginando quanto dinheiro teria de investir naquela empreitada maluca. Imaginou o monstro feito de biscoito que mostrara a Emily na televiso naquela manh devorando suas economias vorazmente.
Emily resmungou e ergueu os braos na direo do pai. Luke tomou-a nos braos.
 O que foi, Emy?
Ela balbuciou alguma coisa indecifrvel. O pai respondeu na mesma linguagem e recebeu um sorriso. E o sorriso, somente isso, aumentou-lhe a confiana e a resoluo. No podia esquecer-se da razo de estar fazendo tudo aquilo: Emily.
 Acho que posso suportar.
 Por uns tempos  complementou Sydney.
  verdade, mas eu me sentiria melhor se no cavasse um buraco to fundo.
Sydney passou os dedos pelos cabelos. Ele achou o gesto intrigante e muito sensual. Ficou com vontade de tocar nos fios avermelhados, mas resistiu. Optou por pentear com os dedos os cabelos finos de Emily.
Precisava distanciar-se de Sydney, deixar a atrao esfriar um pouco para poder contemplar as opes racionalmente. Passou a andar de um lado para outro. Emily se retorcia em seu colo e puxava os cabelos do pai.
O que faria?, pensou ele. E se mantivesse o dinheiro no banco e simplesmente fosse pai em perodo integral?
Isso o deixaria maluco. Precisava de algo que o desafiasse profissionalmente. Mesmo assim, queria ter tempo para ficar com a filha. Gostaria de ajud-la a caminhar, a montar um quebra-cabea, a ler um livro. Queria tudo isso. Era pedir demais?
Sydney girou a cadeira. Seu rosto estava enrubescido de excitao, e os olhos cintilavam cheios de esperana.
 E se voc colocasse um catlogo em um site na Internet? Com artigos, colunas com conselhos, receitas e, claro, associados.
Partilharam um sorriso. Um raio de esperana o abraou.
 Isto geraria retorno imediato  acrescentou Luke.
 Exatamente. Mesmo assim, voc teria alguns custos operacionais.
Em seu entusiasmo, Luke abraou Emily com tanta fora que a menina resmungou em protesto.
 O que acha, Emy?
O sorriso de Sydney se ampliou e surgiram covinhas em suas faces.
 Voc poderia fazer uma seo com os itens  venda. Como um pequeno catlogo.
Ele ergueu Emily acima da cabea e pousou-a nos ombros.
 Grande idia, Sydney! O que eu faria sem voc? 
A pergunta vibrou entre os dois.
O que ele dissera? O que havia insinuado? Que no poderia viver sem Sydney? Que precisava dela? Ora, era ridculo.
No era?
Sydney mostrara-lhe com clareza no decorrer das ltimas semanas que ele podia criar Emily sem a ajuda de uma mulher, que era capaz de ser o pai que gostaria que sua filha tivesse.
Se podia lidar com a paternidade, ento seria capaz de administrar aquele negcio tambm. Sozinho.
Mas a verdade f-lo estacar. Apreciava dividir as idias e planos com Sydney. Gostava da tentativa de solucionar problemas a seu lado.
Francamente, era bom passar o tempo ao lado dela, no importando se estavam trocando fraldas, fazendo biscoitos ou conversando sobre tempestades.
Sabia que isso era mais perigoso do que estar no meio de uma tempestade, segurando um cabo de ferro. Era chamar problemas. Irritado consigo mesmo, desprezou os pensamentos. Fora apenas uma expresso infeliz. Nada mais.
Era uma realidade perturbadora.
 Eu... bem... apreciei sua ajuda. Voc foi maravilhosa.
Luke sentia que mergulhava cada vez mais fundo. Ficou esttico, em p no meio da sala, segurando Emily nos ombros, incapaz de mover-se, respirar ou encontrar uma rota escapatria.
 Eu, bem...
 Luke, no precisa me agradecer. No foi nada demais. Gostei de fazer isso.
 Voc  muito boa. 
Ela enrubesceu.
 Quero dizer,  muito competente.
 Voc tambm me ajudou bastante.
 Ento estamos empatados.
A voz de Luke parecia rude por causa das emoes a confundi-lo.
 H mais coisas que devia considerar, Luke. Assim que se estabelecer, poder desenvolver um catlogo tradicional. 
 H muitas possibilidades. A deciso depender do custo inicial e dos prazos e expectativas de retorno, claro. Mas o primeiro negcio poder sustentar a etapa crtica do segundo e assim por diante. Sempre analisando a relao custo-benefcio.
 Precisamente. Voc poder tomar esta deciso mais tarde. Por ora, ter outra a tomar.
No tinha deciso alguma a tomar quanto a Sydney, percebeu com pesar. Ele j havia optado por Emily. A mulher a quem Luke viesse a se unir teria de desejar ser uma me para sua filha, colocando a famlia em primeiro lugar.
Sim, a deciso j fora tomada. Por Emily. E teria de conviver com isso, mesmo que dilacerasse seu corao.
 Isto  maravilhoso!
Mas no parecia to maravilhoso assim. Soava horrvel. Uma vida sem Sydney. Coou o queixo. No gostava da idia de deix-la sair de sua vida, embora soubesse que esse momento estava prximo.
Em breve aconteceria o ch de beb. E em uma semana Sydney iria embora.
 O site lhe dar alguma liberdade. Tempo livre para Emily.
 Terei tempo para desenvolver mais produtos. No precisarei de um catlogo extenso logo no incio.
Assim como no teria uma vida plena imediatamente. Sua vida social e amorosa ficaria em segundo plano, pelo menos at Emily ficar mais velha. Talvez at ela estar bem crescida.
Sim, teria de viver um dia aps o outro. Julgaria a situao de acordo com as necessidades da filha.
 Poderemos experimentar produtos diferentes e ver como vendem antes de serem lanados em um catlogo.
Era assim que vinha fazendo em seus relacionamentos? Experimentando a convivncia com mulheres diferentes? Testando para ver se se encaixavam em sua vida?
Quando verdadeiramente se comprometera em fazer um relacionamento dar certo? E mesmo que um dia decidisse se casar, sua inteno provavelmente envolveria mais compromissos. A moa definitivamente teria de desejar uma famlia e sua Emily.
Antigas dvidas ressurgiram, provocando-o. Era a mesma e velha histria. Seria como seu pai? Sempre se movendo na direo de pastos mais verdes? Sempre buscando algo mais?
No. Descobrira algo especial em Sydney. Mas suas responsabilidades como pai impediam-no de ir adiante.
Ou no?
No havia um livro com regras, nada que o proibisse de encontrar algum. Simplesmente decidira, no instante em que Emily pousou em seus braos, que seria assim. Mas no era justo em relao a ele, era? E para com Emily? Como estava confuso!
 Voc tambm poderia colocar seu livro com receitas no site e permitir que os associados o copiassem em troca de uma taxa  disse Sydney, prosseguindo com a conversa.
Ele ergueu a filha sobre a cabea e fitou a pequena.
 O que acha, Em?
Sorrindo de orelha a orelha, a menina exclamou:
 Pa-pa! Ehhh!
Luke aconchegou-a ao peito para um abrao. Rindo de pura alegria, olhou para Sydney.
Sabia que no estava cometendo um erro ao colocar a paternidade em primeiro lugar. Mas s vezes era to difcil!
 Voc ouviu?
Aqueles momentos preciosos compensavam todo o sacrifcio.
 Ela me chamou de pa-pa.
Sydney assentiu. Segurava o lpis contra os lbios com fora. Seus olhos se encheram de lgrimas.



CAPTULO VIII
 Seu pai teve namoradas aps a morte da esposa?  Luke perguntou. Sydney quase derrubou o champanhe. Celebravam um pudim bem-sucedido. No esperara ouvir uma pergunta como aquela. Ficou a encar-lo por um instante antes de encontrar a prpria voz.
 O qu? Quero dizer, por qu?
Luke apoiou-se no balco da cozinha. O lquido dourado em sua taa cintilava.
 No sei. Ora, sim, eu sei. Queria saber como o namoro teria afetado voc, seus irmos e irm.
Mas por que a pergunta a incomodava, ressoando em seu corao? Teria Luke decidido namorar? Estaria preocupado em como seu envolvimento com uma mulher afetaria Emily?
A pergunta no podia ser ignorada. Se Luke realmente queria namorar, quem era a mulher de sorte?
A sensao enervante que a tomava sempre que estava perto de Luke ganhou propores estratosfricas.
 Est preocupado com Emily?
 Exatamente.
 Voc est... bem... pensando em namorar?
Sydney sentiu o rosto ficar quente como se estivesse sob o sol do meio-dia em pleno vero. No devia ter feito a pergunta, mas precisava saber.
 Voc falou que no estava interessado em um relacionamento  complementou encabulada.  Isto mudou?
E ser que ela se importava? Sim, claro que sim, respondeu a si mesma.
 Estou pensando no futuro  disse Luke.
O futuro. Como assim? O prximo final de semana? Ou seria quando Emily fizesse dezesseis anos?
 Oh!
Havia um trao de decepo na voz de Sydney, o que era um absurdo. No deveria importar se ele estava interessado em namorar. No, no estava incomodada.
Ou estava?
Alm do mais, e se Luke quisesse namorar? Em que isso a afetaria? Provavelmente no desejaria namor-la. Devia ter uma agenda repleta de endereos em algum lugar com nomes demais para serem contados. Estaria recheada de telefones de acompanhantes divertidas.
O fato apavorante era que Sydney no queria que ele namorasse. Ningum! Na verdade, aprovaria uma nica escolha: ela mesma! Seu mundo ficou abalado com a sbita constatao.
Deu as costas a Luke e aos prprios desejos. O momento era totalmente errado. Por que no haviam se conhecido dez anos atrs? Antes de ela ter se casado com Stan. E antes de Luke descobrir como era ter uma filha. Antes tambm de Sydney saber que no poderia ter um beb.
Sim, era tarde demais para fantasias sobre a descoberta do amor, casamento e felicidade eterna. Havia se casado e estava divorciada. E o amor, aprendera, era doloroso e decepcionante.
A vida no oferecia garantias. Sabia que seu futuro seria passado na mais completa solido. No era uma vtima; a escolha era dela. E no se deixaria ser enganada por esperanas vazias.
Por mais que desejasse sentir a boca de Luke sobre a sua novamente, sabore-la e estar na segurana de seus braos, nunca mais se colocaria em uma situao onde teria de confessar suas inadequaes ao homem que amava. No queria nunca mais ver pesar, pena e decepo como presenciara nos olhos de Stan.
Irritada com a prpria fraqueza, segurou com mais fora a taa e aspirou profundamente para acalmar-se. Queria fazer mais perguntas a Luke, saber o que mais se escondia atrs da falsa curiosidade sobre o pai dela.
 Meu pai no namorou durante muito tempo  respondeu, obrigando seus pensamentos a migrarem para aquela poca.  Demorou um bom perodo para superar a morte de mame. E, claro, estava ocupado com seu trabalho e a criao de uma famlia sozinho. No sei se queria namorar na ocasio ou no se importava. Mas simplesmente no namorou.
Achava mais fcil pensar no passado do que contemplar um futuro sozinha... sem Luke.
Quando passara a se importar com ele? Provavelmente desde o instante em que o vira, despenteado e confuso,  porta, precisando de ajuda para lidar com seu beb encantador.
 Ocasionalmente  acrescentou ela , nos ltimos dez anos, meu pai vem saindo com algumas senhoras. Talvez para ir a um jantar da igreja ou funo religiosa. Algumas vezes a um cinema. Uma vez tomou aulas de dana com uma amiga. Mas, pelo que sei,  s amizade.
 Ento ele nunca se casou novamente?
Luke parecia meio frustrado, como se ela de alguma maneira tivesse lhe dito que no lhe seria permitido namorar ou casar-se.
 Nunca.
 E como voc teria lidado com a situao se ele tivesse namorado ou se viesse a namorar agora?
Sydney aguardou um momento antes de responder. Olhou para o teto e para Luke. Os olhos escuros pareciam capazes de ler sua alma. Com mos trmulas, colocou a taa no balco e cruzou os braos.
 No sei como eu teria lidado quando criana. Ficamos muito devastados com a morte de mame. Eu provavelmente teria detestado a mulher. Ou poderia ter gostado dela por tirar de meus ombros a responsabilidade pelo cuidado com meus irmos. No sei.
Luke a fitava interessado na reposta.
 E quanto ao presente, acho que todos ns gostaramos de ver papai com uma boa mulher, casado e bem estabelecido. Queremos que seja feliz. Mas no acho que ele j tenha conseguido superar a lembrana de mame. Ainda est viva demais em sua mente para que seja capaz de enxergar outra pessoa e abrir seu corao a um novo amor.
Luke assentiu solenemente. Admitira a Sydney que no amava a me de Emily, logo isso no o impediria de comprometer-se com outra pessoa. Mas o que o impedia ento?
Seu medo, percebeu Sydney. Ele temia tornar-se igual ao pai. Mas Sydney sabia, em seu corao, que eram totalmente diferentes.
 Eu posso lhe contar como foi minha prpria experincia com crianas e namorados  disse Sydney, querendo ajud-lo, embora no gostasse da possibilidade de v-lo saindo com outra pessoa enquanto ela ficava tomando conta de Emily.
Vagarosamente Luke a observou e instalou-se um clima de expectativa entre os dois.
 Como foi?
Sydney apoiou-se no balco da cozinha. Atrs dela, o pudim permanecia no prato.
 Eu morava com minha famlia quando conheci Stan, meu ex-marido. Meus irmos ainda estavam no ginsio, e minha irm, no primrio.
 E?
 Jennie, especialmente, via-me mais como me do que como uma irm mais velha. Quando levei Stan para conhecer papai, foi um inferno. Parecia que as crianas tinham planejado tudo. Mas no podiam ter pensado em algo to elaborado.
Luke serviu-se uma poro de pudim. Seu ombro roou no dela, fazendo-a perder a linha de pensamento.
 O que aconteceu?
 No sei se consigo me lembrar da ordem. Talvez tudo tenha ocorrido simultaneamente. Jennie comeou a chorar, a bater portas, a gritar. E gritava para fazer a vizinhana toda ouvir.
Luke riu.
 Acho que Emy tambm.
 Paul e Scott estavam supostamente regando as plantas no quintal. Fazia parte de suas tarefas regulares. Paul repentinamente entrou em casa, correndo. Deixou a porta aberta, e nossa cachorra imensa o seguiu, deixando pegadas enlameadas no carpete branco da escadaria, aproveitando tambm para arruinar o piso da cozinha.
Luke fez uma pausa, segurando a colher cheia de pudim a meio caminho da boca.
 E Scott, bem, ele subiu na velha casa sobre a rvore para que pudesse olhar Mandy Wells, a menina dolo da vizinhana. Ela estava tomando sol de biquni.
 Nossa! Acho que sei onde terminar esta histria.
 Em desastre.
O corao de Sydney disparou diante da piscadela sensual.
Desviou o olhar, tentando continuar com o relato. Onde mesmo havia parado?
Sentia que Luke a contemplava, esperando o desfecho, o olhar como um carinho em sua pele sensvel. Ergueu a taa para um gole e percebeu que sua mo tremia. Todo o corpo estava trmulo. Com mos inseguras, conseguiu colocar a taa novamente no balco. Ficou olhando para os ps at lembrar-se de onde havia parado.
 Scott estava com o binculo. Mas um galho de rvore atrapalhava sua viso. Por isto inclinou-se no peitoril da janela da casinha construda sobre a rvore para observar Mandy... e despencou de l de cima. Foi um tombo daqueles!
 No acho que tenham planejado isto  Luke falou, rindo.
 Provavelmente no. Na verdade, acho que os meninos nem se importavam se eu namorava ou no. Estavam muito ocupados com a prpria vida naquela poca. J haviam atingido a adolescncia. E eu era velha demais, muito conservadora.
 Voc era rabugenta?
 Ora, cozinhar, limpar e lavar roupa tornaram Sydney uma garota tediosa e mandona, com certeza.
Teve de rir diante da imagem de suas recordaes como se estivesse procurando uma fotografia em particular em um velho lbum.
Aos dezesseis anos suas mos eram speras. Passava a maior parte das tardes vendo televiso enquanto passava roupas.
Nos dias chuvosos, em vez de debruar-se sobre uma revista para adolescentes, entretinha os irmos e irm com jogos e histrias engraadas. Definitivamente no era a imagem de uma chefe de torcida.
Ficava imaginando como Luke a veria atualmente. Como uma contadora entediante? Ajeitou a saia, desejando ter trazido cala jeans para usar na aula de culinria aps o trabalho.
Talvez estivesse se escondendo atrs da fachada profissional, como se protegera dos traumas da vida atravs de muitas tarefas e responsabilidades.
 Foi uma noite e tanto. Passamos a maior parte na sala de espera do hospital, aguardando que Scott fosse atendido. Ento, o restante da noite, eu passei limpando a baguna gerada por Goldie.
 Goldie?
 A cachorra.
 Oh, a que deixou pegadas no carpete. Ento voc agarrou-se a Stan, achando que nunca mais encontraria algum to corajoso e compreensivo que pudesse namor-la.
O sorriso de Sydney esmoreceu ao pensar no ex-marido.
 Na verdade, no. Ele era uma pessoa muito doce. At mesmo ajudou-me a limpar o cho da cozinha.
  o homem dos sonhos de qualquer garota. 
Ela riu diante do sarcasmo.
 Para mim, era a realizao de uma fantasia. E um alvio muito bem-vindo. Acho que aquele episdio pressionou-me a querer sair de casa.
 Pressionou-a na direo de Stan?
 Talvez.
Ele colocou uma generosa poro de pudim na boca, concentrando-se no sabor e textura.
 Est uma delcia!
Sydney ficou extremamente satisfeita.
 Ser um sucesso no ch de beb.
Luke assentiu e lambeu a colher. O movimento sensual a fez lembrar-se da sensao daquela boca na sua, em como queria mais. Seria to bom se ele a apreciasse do jeito como saboreava o pudim.
 E quanto a Jennie? Como ela reagiu a seu casamento? 
Sydney suspirou ao lembrar-se da guerra que travara entre a sensao de pesar e perda e a necessidade de ir adiante com a prpria vida.
 No foi fcil. Ela ficou extremamente aborrecida. A princpio, Jennie ignorava Stan ou lhe dizia palavres. At mesmo rogou-lhe pragas.
 Saiba que eu j gosto dela. 
Sydney sorriu tristemente.
 Ela foi um terror durante aquele perodo. Certa vez, colocou uma armadilha na porta frontal. Encheu um balde com gua e equilibrou-o entre a porta e o batente. Viu algo semelhante em um filme. Era uma bela tarde de sbado. Stan entrou e tropeou na corda, fazendo o balde virar bem sobre sua cabea. O piso ficou incrivelmente escorregadio...
 E perigoso.
 Exatamente. Se as mos dele estivessem vazias poderia ter recobrado o equilbrio. Mas carregava um bolo e flores para mim. E caiu com o rosto no cho.
Um sorriso maroto formou-se no rosto de Sydney, e ela precisou lutar para apag-lo.
 Ento fizemos outro passeio at o hospital.
Para seu alvio, Luke gargalhou e ento suprimiu o riso.
 Desculpe. Acho que no  to engraado. Ele ficou bem?
 Assim que seu nariz quebrado voltou ao normal, sim. At isto acontecer, ficou com um mau humor insuportvel.
Ela mergulhou a colher no pudim e saboreou mais uma poro.
 Eu fiquei brava com Jennie tambm, embora soubesse que no tinha inteno de machuc-lo. Analisada atualmente, a situao torna-se hilariante.
 Hilariante?  repetiu, rindo.
Sydney sentia-se mais leve do que aquela sobremesa, livre da responsabilidade, dos laos do casamento que acabara.
 Preguei algumas peas tambm  disse Luke.
Se estivesse usando um bon de beisebol, faria com que Sydney se lembrasse de um dos irmos.
 Pregou peas em quem?
Sentia-se prxima a Luke, como se um lao de compreenso conectasse seus coraes.
 Nas namoradas de meu pai. E como havia namoradas! Eu gostava de pensar que iam embora porque eu as assustava. Mas hoje sei que meu pai gostava de casos breves.
Sydney detectou a mudana na expresso de seus olhos e soube, instantaneamente, que a despeito do tom de voz leve, havia mgoa.
 Foi difcil assim para voc?
Mais uma vez ele deu de ombros. Mergulhou a cabea nas mos.
 Eu via meu pai muito raramente. O que era bom para mim. Quando nos encontrvamos, sempre parecia haver uma nova mulher em sua vida. Eu detestava todas, porque queria que meu pai voltasse para mame e para mim. Mas ele nunca voltou. E hoje fico feliz por no ter voltado.
Sydney compreendeu ento o motivo de ele ter perguntado a respeito de sua famlia. Fez isso porque olhar para o prprio passado era doloroso demais. Percebeu que seria melhor mudar de assunto.
 E sua me, namorava bastante?
 De vez em quando. E quando namorava, era muito protetora em relao a si mesma. E eu, extremamente ciumento.
Tomou um gole de champanhe e apoiou-se com os cotovelos no balco.
 Como voc lidou com o ressentimento de Jennie em relao a Stan?
Sydney lembrou-se das lgrimas, brigas e sorriu tristemente.
 Foi difcil lidar com ela. Durante os meses seguintes, procurei encontrar tempo todos os dias para ficar com Jennie. Algumas vezes nos distraamos com jogos ou amos fazer compras. Em outras, fechvamos a porta de meu quarto, deitvamos na cama e ficvamos comendo pipocas e rindo. No precisava ser algo elaborado ou caro. Ela simplesmente queria que eu ficasse a seu lado e a lembrasse de que era importante para mim.
 Esta  a chave, ento.
 Exatamente. Se voc decidir namorar...  No conseguia fit-lo nos olhos.  ...ento, certifique-se de que Emily saiba de seu amor por ela e sinta-se segura. Mantenha abertas as linhas de comunicao.
 Claro que isto pode no ser um problema se eu comear a namorar imediatamente... enquanto ela ainda  um beb.
Sydney assentiu e engoliu em seco.
 Claro. Ento sua namorada far parte da vida dela. Ser algum que Emily sempre conheceu. Mas...
 O qu?
 Haver vezes, mesmo se Emily estiver habituada a sua namorada, em que ser egosta quanto ao tempo que quer passar com voc.
 No sacrificarei meu relacionamento com Emily. Nada tirarei dela. Eu... eu... eu simplesmente gostaria de acrescentar algum a seu mundo.
Distanciou-se de Sydney.
 Acrescentar uma me, voc quer dizer?
 Talvez. Eu sempre quis ter um irmo ou irm, seria maravilhoso ter algum com quem brincar e dividir as coisas. No me importava com o sexo. Eu queria uma famlia completa. Voc tem muita sorte em possuir irmos.
Algumas vezes Sydney no se sentia to sortuda. Mas sabia o que Luke queria dizer. Queria aquilo para Emily. Gostaria de ter uma esposa e filhos. Seu corao ardia com desejos impossveis de serem realizados e os quais tentava duramente reprimir.
 Voc os v com freqncia, agora que moram na mesma cidade?
Sydney sentiu dor, como se houvesse levado um soco no estmago.
 Jennie est na universidade. E os garotos, bem, esto ocupados com suas carreiras.
Ele pareceu confuso com a explicao e analisou-a mais apuradamente.
 Voc no se mudou para c para ficar perto deles?
 Estou aqui caso precisem de mim. Mas, conforme voc disse, j so adultos, e tm a prpria vida. De certa maneira, j no precisam de mim como antes.
 Deve ser difcil...
 Luke...  interrompeu-o.
Lgrimas quentes queimavam seus olhos. Sentindo-se perdida, abraou o prprio corpo. Engoliu em seco diversas vezes. A melhor defesa era um bom ataque. Precisava tirar o foco da conversa de sua pessoa. Ento, disse as palavras que havia escondido no corao.
 Sei que voc pensa que  como seu pai. Irresponsvel e caador de mulheres. Sei que ele causou a voc e sua me muita mgoa e angstia.  Procurou conter o tremor nas mos.  Mas no se preocupe com namoradas. Se voc gostar de algum, v em frente.
As palavras soavam amargas, mas era melhor assim, decidiu Sydney. Era melhor que Luke namorasse outras mulheres... qualquer pessoa que no fosse ela.
 Pare de achar que voc  como seu pai. Se fosse, no estaria to preocupado com Emily.  Fitou-o brevemente antes de prosseguir.  Nunca vi um pai mais carinhoso e doce do que voc.
Tinha de conter as lgrimas. Uma mescla de cenas girava em sua cabea. Cenas de Luke beijando Emily, trocando fraldas, fazendo papinha. Aquelas mos enormes contra os dedos gordinhos da criana.
Ele era um bom pai. J no precisava mais de sua ajuda.
E seria um marido adorvel. Para outra mulher. Porque Luke no precisava de uma esposa que no podia gerar filhos. Necessitava de algum que pudesse lhe dar mais crianas... irmos e irms para Emily.
Mais uma vez sentiu-se perdida, sem um propsito. Seus irmos j no precisavam mais dela. Nem Luke. Estava completamente s. Mais uma vez.
Precisando passar algum tempo sozinha para ordenar os pensamentos e controlar-se, Sydney deu um passo adiante e segurou no brao de Luke. Apoiou-se na ponta dos ps e beijou-o no rosto. Queria faz-lo compreender que suas palavras vinham do corao. Precisava se despedir antes que a angstia a dominasse por completo.
A pele rude do rosto msculo estava quente contra seus lbios, como o tronco de uma rvore aquecido pelo sol. Pensou em amantes entalhando as iniciais na madeira, declarando ao mundo o amor que sentiam.
Afastou-se abruptamente e pegou a bolsa para ir embora. J no podia mais ficar. Sentiu o corao disparando. Era preciso proteger-se da rejeio.
Luke agarrou-lhe o pulso e fez com que se virasse. Seios delicados encontraram o peito firme. Sydney sentiu o calor avassalador daqueles braos, braos que a mantinham quase imvel.
A tenso pulsando entre os dois era imensa quando se fitaram. O olhar de Luke escorregou para os lbios sensuais e entreabertos dela. Sydney queria-o. De corpo, corao e alma. E precisava daquele beijo como de ar para respirar. De um ltimo beijo.
Luke apreciava o doce momento. Acariciou-lhe o queixo macio e alvo. O toque era lento, ertico, dominador.
 Diga no se voc no deseja isto tanto quanto eu.
A voz era rouca, cheia de emoes que reverberaram no corao de Sydney.
Estava com medo. Como poderia lidar com aquelas necessidades e desejos novamente? Como encarcer-los mais uma vez dentro do corao depois que estivessem livres?
 No.
O medo era o responsvel pela resistncia. Sabia que o beijo libertaria seu desejo com um simples toque. Mas silenciou o prprio protesto.
Com um meneio quase imperceptvel, Luke pousou a boca sobre a dela. Naquele momento, roubou-lhe o flego e a habilidade de pensar.
Sydney sentia-se caindo em um abismo... diretamente para aqueles braos. E ento encontrou o abrigo pelo qual vinha buscando durante toda a sua vida.
Entreabriu um pouco mais os lbios, deixando que fossem explorados pela lngua de Luke. Mos enormes moviam-se por seu corpo em carinhos sensuais. Sydney sentia-se consumida pelo desejo.
Mas tais desejos poderiam ser saciados?
A pergunta dissonante fora trazida pela brisa fria e cruel da realidade.



CAPTULO IX
Luke estava na cozinha, totalmente s. Chocado, com o peito dolorido e os sentidos desorientados. Ainda sentia o perfume tentador de Sydney em suas mos, camisa, cabelos... No sabia como o clima de camaradagem convertera-se em algo to... diferente.
Beijara-a, embora Sydney houvesse dito em menos do que um sussurro que no queria. Mas Luke vira desejo em seu olhar, reconhecera-o com facilidade, porque era o reflexo de seus prprios anseios.
Queria-a no apenas como um homem ansiava por uma mulher, mas tambm como uma alma procurava o par.
Nunca pensara em casamento, nem sequer contemplara a hiptese. Nem mesmo quando Sheila aparecera a sua porta com Emily nos braos. Afinal, convencera-se de que no era capaz de ser bom marido e bom pai. Nunca quisera magoar algum, conforme seu pai fizera com sua me... e com ele.
Atualmente, entretanto, por algum motivo insano, queria ter a oportunidade de provar que sua prpria teoria estava errada. Queria ser um pai maravilhoso para Emily. E um marido amoroso para... para Sydney?
Era estranho, mas parecia a progresso natural. A questo era ignorar se Sydney sentia o mesmo. Ou se gostaria de ter outra famlia de segunda-mo.
Ele e Emily formavam um par, estavam juntos. Precisavam ser aceitos como um todo em qualquer relacionamento que Luke viesse a ter. Certamente sua filha no sofreria se ele namorasse ou at mesmo se casasse com Sydney. De fato, seria beneficiada.
Conviveria com um casal apaixonado, algo que o prprio Luke jamais experimentara. Aprenderia o sentido da honra, confiana e amor. Entenderia que compromisso significava segurana em vez de priso.
Sydney comeara a lhe ensinar tudo isso.
Mostrara-lhe o sentido da devoo, de dar-se queles que amava. Obrigao e responsabilidade no eram palavras feias e baratas. Tinham intenso significado. E honra.
Sydney ajudara-o a reconhecer a semente das melhores rvores. Tendo-a a seu lado, aprenderia a nutrir as plantas para que crescessem, florescessem e dessem bons frutos.
Um grito pungente ecoou pela casa. Seus sentidos ficaram alertas. Automaticamente e sem hesitar, foi para o quarto de Emily.
A luz do corredor lanava uma iluminao suave no quarto do beb. Emily estava em p, usando um pijama colorido. Levantou um p, ento o outro, como se tentando descobrir um jeito de sair do bero.
Sua fralda fazia barulho de plstico a cada movimento frustrado. O rostinho tornou-se vermelho. Lgrimas banhavam o rosto rechonchudo. Os gemidos atingiam o corao de Luke com uma agonia que apenas um pai podia conhecer.
Tomou-a nos braos. O corpo suave e quente aconchegou-se ao seu. Garantiu-se de que ela estava bem.
Seu corao resplandecia de amor. Mesmo tendo apenas algumas semanas de experincia na paternidade, era difcil se lembrar da vida sem Emily. Ou at mesmo sem Sydney.
Tentou enxugar as lgrimas da filha.
 Est tudo bem agora, Emy. Papai est aqui. No deixarei nada a machucar.
Ninou-a de encontro ao ombro, sentindo as lgrimas umedecerem sua camisa. A menina tinha um cheiro doce de mel.
 Voc est bem, querida. Est segura com o papai. 
Abraando a filha, tendo-a to perto, percebeu que sempre quisera ter uma famlia. No fora um desejo consciente. E a presena de Sydney fazia com que se sentisse completo.
Precisava dela. No para lavar, cozinhar ou limpar. Nem mesmo para criar sua filha. Essa era sua tarefa de pai. Simplesmente precisava do sorriso de Sydney, de sua compreenso e amor.
Mas ela no queria todo aquele pacote.
E Luke no poderia aceitar nada menos.

O que acabara de fazer?
Sydney estacionou diante de sua casa trinta minutos aps ter deixado a casa de Luke. Sabia que cometera um erro terrvel. Beijara-o. Ainda podia sentir a boca dele movendo-se sobre a sua do modo mais lento e sensual que j experimentara. E correspondera ao beijo com toda a paixo contida em seu corpo frustrado.
Beijara-o como se no houvesse amanh. Beijara-o de todo o seu corao. Apesar de no haver futuro para eles.
Por qu? Oh, por que fizera algo to tolo?
A resposta veio-lhe com facilidade. Queria Luke. Mais do que j quisera qualquer homem. Precisava dele, como nunca precisara de algum antes.
Aprendera a no depender dos outros. Aps a morte da me, no se apoiara no pai. Suportara tudo, carregando seu fardo sozinha.
Como mulher casada, perseguira o diploma universitrio, acreditando que Stan sempre estaria ali para proteg-la. Mas ele no estivera. Ao primeiro sinal de turbulncia, correra para os braos de outra mulher.
Ento Sydney fechara seu corao, trancafiando os sonhos e as fantasias. Mas Luke conseguira abri-lo novamente e lanar luz em sua alma.
Por isso precisava dele e sentia-se apavorada demais.
Segurou com fora o volante, como se o objeto pudesse ganhar vida, virar o carro e lev-la de volta  casa de Luke.
Sabia que era mais do que atrao fsica o que os impelia na direo um do outro. Apreciaram as noites que passaram juntos, os romnticos momentos ao pr-do-sol. Mas havia mais, muito mais. Haviam aberto o corao, a alma, revelado mgoas e dores.
Bem, pelo menos Luke fizera isso. Mas ela mantivera um segredo bem guardado. No poderia revel-lo.
Vira genuna alegria naquele rosto enquanto ele segurava a preciosa filha e ento o desejo indisfarvel, depois, quando a fitara antes do beijo.
O que magoava mais era a recordao do instante em que Luke professara o desejo de dar irmos a Emily. Jamais esqueceria aquele momento, pois sabia que no poderia ajud-lo a completar sua felicidade.
Tinha o corao e a alma divididos. Ento soube, com a sbita e intrigante clareza das revelaes mais importantes da vida, que estava perdidamente apaixonada por Luke Crandall.
Entrou em pnico.
Tentava colocar ordem nos pensamentos angustiados ao mesmo tempo que se perguntava como conseguira sair daquela casa e escapar do amor que a aguardava nos braos fortes. Apenas uma resposta lhe ocorreu. Medo.
Temeu o que Luke poderia dizer quando soubesse da verdade. Temeu o que faria. Ser que a rejeitaria como Stan fizera? Ou teria pena dela?
No conseguiria sobreviver a isso. O medo a trouxe para casa, para longe da segurana daqueles braos e dos beijos tentadores. Abraou o prprio corpo, sentindo um arrepio de frio. No, jamais correria tal risco. No diria a Luke que era estril.
O vazio doloroso encravou-se profundamente em sua alma.

Luke ninou Emily at achar que seus braos cairiam de cansao. Cantou a msica favorita da menina at ficar rouco. Andava de um lado para outro, segurando a filha chorosa contra o ombro.
Qual era o problema? Emily tivera dificuldade em adormecer antes, mas nunca nessa proporo. No decorrer das ltimas semanas, tendo Sydney a seu lado, Luke conseguira estabelecer um horrio para a filha dormir que abrangia quase toda a noite. Vez ou outra a menina acordava, e ele a ninava at que se acalmasse.
Mas no naquela noite.
Bem naquela noite, quando gostaria de pensar nos motivos que impeliram Sydney a partir to repentinamente e descobrir um jeito de abrig-la em sua vida e na de Emily permanentemente. Pois a menina no dava ao pai o luxo de cinco minutos de solido e silncio.
Toda vez em que tentava coloc-la no bero, ela comeava a chorar. E se a deixasse sozinha, esperando que se cansasse e dormisse, o choro transformava-se em gritos desesperados, dilacerando seu corao de pai.
O que havia com seu beb? Estaria sentindo a dor do pai, sua frustrao e desespero? Ou estava doente? Dor de barriga? Febre?
Pela centsima vez, sentiu a temperatura da testa da filha. Como saber se estava com febre? Sempre parecia um pequenino forno para ele. E com o rosto avermelhado de tanto chorar, estava ainda mais quente.
Ficou preocupado. Continuou a nin-la, murmurando uma cano. Seus nervos estavam em frangalhos. Emily esgotara sua pacincia.
Conforme os minutos passavam em lenta progresso at a meia-noite e ento marchavam para o amanhecer, a exausto ameaava domin-lo.
Desesperado por ajuda, pegou o telefone para ligar para a nica pessoa que poderia ajud-lo a superar aquela crise de propores picas.
 Al?
A voz parecia incerta e rouca por causa do sono, embora muito sensual.
 Sydney?
 Luke?
A voz dela ficou mais firme como se houvesse acordado de imediato e se sentado na cama.
Luke ouviu um som delicado e ficou imaginado se fora o roar de lenis contra uma sensual camisola de seda.
 Que horas so?
Ele imaginou os cabelos ruivos de Sydney em desalinho.
  bem tarde... ou cedo. Mais ou menos trs horas. 
Emily protestou contra seu ombro, e o pai confortou-a com um tapinha leve nas costas. Teria tomado a deciso correta? Ou deveria ter suportado sozinho a noite em claro?
Percebeu o silncio do outro lado da linha. Ser que ela adormecera? Estaria brava?
 H algo errado com Emily  disse Luke.
 Onde vocs esto?
 Em casa?
 Chegarei em breve.
Ela no disse chame um mdico ou qual o problema desta vez?. Grato por sua compreenso, colocou o fone no gancho e aguardou sua chegada.
Quando Sydney entrou na casa de Luke, as lgrimas de Emily cessaram de imediato, e a menina bateu as mos alegremente. Com um sorriso entristecido, Sydney falou:
 Sua pequena marota. No h nada de errado com voc, no  mesmo?
 Estava chorando sem parar desde as dez e meia.
A voz de Luke soava como se muito distante. Parecia em frangalhos, como um pssaro que enfrentara uma briga, as penas assanhadas em desarranjo. Os olhos estavam vermelhos, e as olheiras eram profundas.
Sydney teve vontade de abra-lo, mas usando toda a resistncia que ainda possua, conteve-se. Tirou os tnis para provar que no iria embora.
 Venha aqui.
Pegou Emily. A menina enrolou braos e pernas em seu corpo.
 Descanse um pouco, Luke. Deixe-me ver se consigo faz-la dormir.
 Obrigado, Sydney. Voc nem imagina como aprecio seu gesto.
 No se preocupe. Fico feliz por voc ter telefonado. 
Ela caminhou pelo corredor na penumbra rumo ao quarto de Emily, as meias no causando som algum contra o carpete.
Luke seguia-a passo a passo, com apenas alguns centmetros a separ-los, Sydney sentia a presena viril abraando-a como um cobertor cheiroso.
A respirao dele acariciava-lhe o rosto. Quando Luke estendeu a mo e tocou na da filha, seus dedos roaram nas costas de Sydney, deixando-a arrepiada. A cena era ntima demais para que ela se mantivesse impassvel.
 Quando foi a ltima vez que trocou a fralda dela?
 Trinta minutos atrs.
 Alimentou-a a que horas?
 Por volta das onze.
 Hmm. O que h de errado, pequenina? Por que no est to cansada quanto seu papai?
Emily mexeu as mozinhas no ar.
 Pa-pa-pa-pa-pa!
Sydney ajeitou a menina nos braos.
 Mas agora  hora de dormir. 
Sentou-se na cadeira de balano.
 Vamos ver se conseguimos faz-la adormecer.
 Eu tentei isto  disse Luke, observando-a intensamente.
 Sabe  Sydney enxugou um pouco de baba da boca de Emily , ela pode estar sofrendo com o nascimento dos dentes. Por que no pega aquele remdio que est na sacola?
Luke assentiu e encontrou o que foi pedido.
Minutos mais tarde, Sydney colocava o creme na gengiva de Emily. A menina comeou a se mexer e a chorar. Tentou livrar-se dos braos de Sydney.
 A gengiva deve estar dolorida. Acho que h um dente tentando nascer. Ela tem babado bastante ultimamente?
 O que  bastante?
 Mais do que o usual.
 No sei. No medi. Sempre me pareceu bastante.
 Bem, pode ser um sinal.
 Oh!
Sydney comeou a mexer a cadeira de balano.
 Vamos deixar que o remdio atue.
Luke contemplou as duas e prendeu a respirao, esperando que Emily subitamente adormecesse. As sombras no quarto tornavam seu perfil escurecido, rude e muito belo. Seu olhar continha um brilho suave como o do fogo.
 Luke  Sydney sussurrou  o que acha de descansar um pouco? Ficaremos bem.
 E se voc precisar de mim?
 Ento ouvir Emily chorando. Confie em mim  disse ela, esperando e querendo que Luke confiasse em sua capacidade de cuidar da menina.  Estamos bem.
Ele assentiu vagarosamente, mas parecia relutante em sair. Deu um passo inseguro para trs.
 Tem certeza?
 Sim. V.
Antes de sair, ele fez um carinho no rosto da filha e pousou a mo no ombro de Sydney. Apertou-o levemente.
 Obrigado.
Saiu do quarto e deixou-as a ss, tendo apenas o som do ventilador de teto como companhia.
Uma hora mais tarde, Sydney ninava uma Emily adormecida e sentia as plpebras pesadas tambm. A escurido dava-lhe a sensao de estar flutuando nas nuvens. O calor do beb era transmitido a seu corao.
Com o punho cerrado, a pequenina mo de Emily descansava no ombro de Sydney, oferecendo-lhe confiana e aceitao. Mesmo que fosse apenas por um momento, aquele beb precisava dela. Como era bom sentir aquilo. Trazia-lhe a mesma sensao maravilhosa de quando Luke telefonara, pedindo ajuda.
Ento uma mo firme em seu ombro fez seus olhos abrirem. O corao disparou. Lentamente a viso entrou em foco, e ela olhou para o rosto sorridente de Luke.
 Voc adormeceu  disse em um sussurro rouco. Sydney engoliu em seco, mas no conseguiu responder.
 Quer que eu a coloque no bero?  sugeriu ele, j pegando a filha nos braos.
No processo, tocou levemente em Sydney na lateral de um seio na tentativa de no acordar a menina.
Sydney achava que as batidas errticas de seu corao seriam capazes de acordar a cidade inteira. Surpreendentemente, ele foi se distanciando com Emily adormecida. O beb no acordou.
Sydney no encontrou foras para se levantar. Observou Luke colocando o beb no bero com a tpica delicadeza e preocupao paternas. Cobriu-a com um cobertor rosa. Ento virou-se em sua direo.
Ela sentia a adrenalina pulsando ferozmente nas veias. Nunca estivera to acordada antes, to viva.
 Venha  disse Luke, estendendo-lhe a mo.
Com cautela e vagar, deixou que suas mos se tocassem. O sorriso tranqilo de Luke permaneceu intacto e, paradoxalmente, Sydney achava que o corao explodiria em breve.
Estavam a centmetros de distncia. Ele tocou-lhe o rosto em um carinho suave.
 Est cansada. Por que no dorme em minha cama at amanh?
 Mas...
O sorriso dele ampliou-se.
 Eu ficarei no sof.
 No sei. Seria melhor eu ir para casa.
 Seria perigoso demais. No quero que dirija exausta como est.
Entrelaou seus dedos nos dela, segurando-lhe a mo com firmeza. Ento baixou a cabea e beijou-a nos lbios com ternura.
 Obrigado por sua ajuda.
 Quando precisar...  Falava com sinceridade. Aqueles lbios sedutores se curvaram em um sorriso provocador que a fez desejar outro beijo.
 Vamos. Vou coloc-la na cama.
Sydney aconchegou-se na cama gigantesca de Luke, consciente demais da presena mscula para prestar ateno a detalhes da decorao.
Estava cansada demais para pux-lo para o colcho consigo. E ele se manteve fiel  palavra. Ajeitou-a com segurana debaixo da coberta, depositou um beijo suave e cheio de promessas em sua testa e desejou-lhe uma boa noite de sono.
Sydney achou que no conseguiria pregar o olho depois daquilo. Mas dormiu profundamente. E seus sonhos giraram em torno de Luke.
Sonhou que ele a beijava e de sua boca saam palavras sussurradas de amor. As mos, gentis e habilidosas, moviam-se pelo corpo dela, explorando e descobrindo segredos.
Sydney sentou-se na cama e piscou duas vezes. Um feixe de luz entrava pela veneziana, indicando que a manh havia chegado. Afastou uma mecha de cabelo da testa. O que fazia na cama de Luke?
Com o corao disparado, saiu da cama, empurrando os lenis e cobertor. Passou uma mo trmula pelas roupas amassadas. Onde estavam seus sapatos? Oh, sim, na sala.
Penteou os cabelos com os dedos e tentou ajeitar as cobertas na cama, como se assim pudesse apagar qualquer trao de sua presena ali.
Notou ento que havia apenas o sinal de que uma pessoa dormira no leito. S um travesseiro estava afundado no meio. O outro permanecia fofo e intocado.
Ento dormira sozinha, tendo Luke abraando-a somente nos sonhos. Seria sempre assim?
Sim. Era como tinha de ser.
Com cautela, caminhou at a porta e procurou ouvir algum som. Silncio. Olhou para o relgio de pulso e percebeu que eram quase sete horas. Precisava ir para casa tomar um banho e depois seguir para o trabalho.
P ante p foi para o corredor, passando por algumas portas fechadas. Do lado de fora do quarto de Emily, ouviu uma vozinha familiar. Espiou dentro, e a menina sorriu ao v-la. Pendurava-se na lateral do bero e a fitava como que implorando para ser tomada nos braos.
 Est bem  murmurou, incapaz de resistir ao pedido silencioso da criana e s suas prprias necessidades irreprimveis.
Pegou Emily no colo e tambm sorriu. Adorava seu cheiro suave. Beijou-a na testa.
 Bom dia, Emily. Como est se sentindo hoje? 
A menina agitou braos e pernas.
 Aposto que est com fome. Vamos ver se eu consigo preparar uma mamadeira para voc.
Pegou um pulso agitado e beijou-o rapidamente.
Carregou o beb para fora do quarto. Ainda estava escuro. Quando viu Luke deitado no sof, estacou. At mesmo na semi-escurido conseguia decifrar todos seus traos. Parecia em paz, os cabelos em desalinho, os traos do rosto relaxados.
Dormia profundamente com um brao sobre a cabea. Seu p pendia ao final do sof. Ela sentiu o desejo acender-se.
Queria toc-lo, acord-lo com um beijo surpresa. Mas no ousava. No devia. Ele insistira em cuidar da filha e provavelmente precisava dormir.
Com cuidado caminhou para a cozinha. Emily riu. Sydney levou um dedo aos lbios da menina.
 Shh. Papai est dormindo.
Emily tentou morder-lhe um dedo e sorriu. Ao chegar  cozinha, Sydney estacou. A luz que entrava pela janela refletia em algumas placas penduradas na parede.
Curiosa, aproximou-se.
 Isto aqui  de seu pai?  sussurrou, lendo o nome de Luke em cada placa.
Apesar da parca iluminao, leu a primeira, ento outra e outra. Seus olhos se arregalaram a cada prmio. Prendeu a respirao quando finalmente compreendeu.
 Oh, meu Deus!

 O que  isto?
Sydney cutucou o p de Luke com a ponta de uma placa. Estava louca de raiva por ter confiado nas habilidades dele. Observou-o resmungar, virar no sof e ento esfregar os olhos.
 Oh, Sydney. J acordou?
Seu olhar pousou nela com uma preguia que a deixou ainda mais brava. Sorriu para a filha.
 Ol, queridinha! Eu no a ouvi chorar. 
Emily agitou os braos em resposta.
 Faz tempo que est com ela, Sydney?  perguntou, apoiando-se nos cotovelos.   hora do caf da manh?
  hora de voc me explicar algumas coisinhas  respondeu com frieza.
Luke estacou. Encarou-a, obviamente perplexo. Franziu a testa.
 Eu perdi algo?
 No, eu perdi. Eu aceitei sua palavra.  Ela riu, um som irnico bem de acordo com seu estado de humor.  At mesmo aceitei o que Roxie disse a seu respeito.
 E o que foi?
Sydney empurrou-lhe o precioso prmio, sentindo a confiana que ganhara na cozinha, nas ltimas semanas, sumir. Acreditara nas habilidades de Luke, mas era tudo uma farsa. Assim como seu casamento fora. Por algum motivo, isso magoava-a tanto quanto, se no mais.
 Voc mentiu.
Ele digeriu as palavras enquanto julgava a premiao que tinha nas mos. Vagarosamente colocou as pernas na lateral do sof e ficou em p. Um sorriso maroto brincava em sua boca, mas Sydney conseguiu resistir quele charme.
 Ora, este prmio na rea de cerveja  muito prestigiado. 
Sydney segurava Emily contra o corpo. Era a nica proteo que aquele homem tinha contra um belo soco no estmago.
 No me importo se isto equivale a um Oscar. Por que no me disse que no estava qualificado para preparar sobremesas sofisticadas?
 Quem disse que no estou?
 Isto!
Apontou para a placa na mo dele e ento citou as demais.
 Voc sabe tudo sobre chili e cerveja! Mas nada a respeito de sobremesas.
Ajeitou Emily nos braos. O peso da criana causava-lhe dor nas costas.
 O que os prmios dizem? Cerveja disto, cerveja daquilo! Chili de tal marca, com tal tempero. Acha que est qualificado para fazer creme brul? Bem, eu no acho!
Colocou Emily nos braos dele.
 Voc mentiu para que eu o ajudasse a cuidar de seu beb! Foi um golpe baixo!
Girou nos calcanhares e caminhou para a porta. Faltavam trs dias para o ch de beb. Tinha milhares de coisas a fazer. E no podia desperdiar tempo ali, com Luke. Aquele ch de beb estava apenas sob sua responsabilidade. Teria de fazer tudo sozinha.
 Sydney! Espere! Vamos conversar a respeito!
 No h nada para conversar. Tenho trs dias para me preparar para um ch de beb que ser um desastre. Acho que isto prova uma coisa para minha chefe, a chefe dela e a vice-presidente da empresa: eu no consigo lidar bem com responsabilidade. No consigo nem sequer organizar um simples ch de beb.
Sentia lgrimas queimando em seus olhos e um n na garganta. Todos seus sonhos e esperana de ser promovida comeavam a dissolver no ar.
 Isto ...
Luke impediu-se de dizer um improprio ao olhar para a filha. Colocou Emily no cercado, deu-lhe o carneiro de pelcia e virou-se para Sydney.
Ela esperava raiva ou fria. Afinal, havia atingido seu ego ao duvidar de seu talento culinrio. Em vez disso, parecia preocupado.
 Estes prmios, Sydney  disse em voz calma , so minha especialidade. No nego. Mas precisa admitir que estamos nos dando muito bem. Fizemos sobremesas suculentas e maravilhosas nas ltimas semanas.
 timo! Voc, um especialista em chili, cerveja, manteiga de amendoim e gelia! E eu, especialista em panquecas. Ns dois faremos baklava e creme brul para minha chefe... para a chefe da minha chefe... e para a vice-presidente da empresa!
Seus joelhos falharam. Desabou em uma cadeira e mergulhou o rosto nas mos. Que confuso!
 Formamos um time,  verdade  admitiu ela.
  mesmo.
Descrente, Sydney balanou a cabea.
 Como farei todas aquelas coisas? E se o pudim der errado? E se o baklava ficar como... oh, Deus!  gemeu.
 Sydney, dar tudo certo.
Ajoelhou-se a seu lado e pousou a mo no joelho dela. Imediatamente a pulsao de Sydney se acelerou. Culpou sua raiva, frustrao e humilhao pela reao. Queria afastar a mo de Luke, mas ao mesmo tempo, queria aconchegar-se quele peito forte.
 H tantas coisas que podem dar errado.
Sentia-se como se tendo um dos ataques histricos da irm. Mas o que resolveria praguejar? Ainda estaria em apuros.
 H muita coisa envolvida neste ch de beb.
 Eu sei. Uma promoo na empresa.
 Sim. No sei se uma poro generosa de creme brul na consistncia correta ajudar ou no. Mas certamente no prejudicar. Mas um desastre certamente vai impedir que eu suba pela escada da promoo.
 Sydney...
 Eu sei, eu sei. Meu trabalho tem de merecer a promoo. E merece. Mas isto pode arruinar tudo pelo que tenho trabalhado tanto.
Luke tocou-lhe o queixo e obrigou-a a fit-lo.
 Voc est certa, Sydney. Errei em no revelar a verdade. Aprecio tudo que fez por Emily e por mim. Mas no se preocupe. Tudo dar certo. Eu prometo. No deixarei que fracasse.
O corao de Sydney disparou. Aquela mo parecia forte e poderosa em seu queixo, como se Luke fosse capaz de fazer um milagre.
Oh, como queria acreditar nele! Contemplava os olhos escuros com o corao aos saltos e desejava muito acreditar, mas no conseguia. Ele havia mentido.
Como poderia dar-lhe crdito se um dia ouvira-o dizer, falsamente, que era capaz de fazer aquelas sobremesas todas e tornar o ch de beb um sucesso? E se fosse outra farsa para obter o que queria?
Mas o que Luke queria? Mais ajuda?
Felizmente, sabia que o ch de beb significava mais para ela do que deveria. Quisera provar a si mesma que no ficava muito magoada em oferecer um ch de beb a uma amiga.
Quisera mostrar-se uma mulher capaz de cozinhar e fazer todas as coisas deliciosas que as moas prendadas fazem, embora no tivesse capacidade de gerar filhos.
Quisera provar s suas superioras que estava disposta a se dedicar alm do habitual pelo bem da empresa. Mas o desastre iminente apenas provaria sua incompetncia.
Era difcil admitir a verdade por trs de sua aceitao em organizar o ch de beb para Roxie. Fazia com que se sentisse pequena, egosta. Imaginara que o ch de beb fosse um outro passo para prosseguir com a prpria vida, mas simplesmente fora um passo para trs.
Sua raiva levou-a ao desespero.
 Luke, por que no me contou a verdade? Agora arruinou tudo!
 Desculpe, Sydney. Sinto muito. Eu sabia que poderia lidar com o que voc precisava saber, e estava desesperado. Eu precisava de voc... de sua ajuda.  Suspirou, pesaroso.  Achei que se soubesse a verdade no acreditaria em mim, no confiaria em mim. Mas confie agora, no vou decepcion-la.
 E como pode me prometer isso?  Seus olhos estavam cheios de lgrimas.  No sei cozinhar nem servir a todos. E nem poderei...  No confessaria todas suas falhas.
 Sabia que todas as trinta pessoas convidadas confirmaram a presena no ch de beb? Trinta!
 Por que no chama sua irm para ajud-la a servir a comida e bebida?
A sugesto alfinetou o corao de Sydney com outra poro da realidade.
 Ela est ocupada demais.
 E seus irmos? Eles moram na cidade.
 Tm a prpria vida para tocar tambm.
 Ento est completamente s?
Abruptamente ela se levantou, mas os joelhos fraquejaram.
 Ficarei bem.
 Sydney.  Segurou-a pelo pulso.  Vamos fazer novamente aquelas sobremesas. Tudo dar certo. Confie em mim.
As palavras, semelhantes quelas que Sydney lhe dissera na noite anterior, eram decisivas. Luke havia confiado nela para cuidar de sua filha. A confiana ainda era recproca? Poderia ajud-la a alcanar seu sonho?
 Ns?
 Sim, ns!
Embora Sydney sentisse todo o corpo queimando por causa do toque no pulso e estivesse insegura, no tinha opo alm de encontrar o olhar confiante de Luke.
 Estamos juntos nisto  disse ele com convico.  Voc veio para c no meio da noite para me ajudar. No deixarei que organize a festa sozinha. Eu estarei l. E se precisarmos de mais ajuda, telefonarei para a Marinha.
Sydney precisava se afastar. Respirar melhor. Riu com nervosismo.
 A Marinha? Acha que podero ajudar?
 Provavelmente no. Mas eu tenho amigos. Pedirei favores. 
Ela no tinha escolha. Precisava confiar em Luke. Ou falhar sozinha.

Luke estava com Emily no colo, observando Sydney afastar-se de carro. Detestava deix-la partir. Gostaria de abra-la, confort-la, garantir-lhe que tudo daria certo. Mas percebia que suas palavras eram vazias. Sydney precisava de ao. Pois ele lhe mostraria.
Provaria, no importava quanto custasse. A festa seria um sucesso. E um presente seu quela mulher especial.
Sydney com hesitao colocara a frgil confiana em suas mos. Acuada, dependia dele.
E quem j dependera dele? Emily fora a primeira em tanto tempo, a primeira pessoa a depender dele desde a me.
Sydney lhe mostrou que ele podia ser confivel, um pai competente. Pois ento cabia-lhe provar a si mesmo e a Sydney que ela no havia se enganado.



CAPTULO X
Sydney acordara ao alvorecer, como se fosse o dia da prpria execuo. Talvez fosse, considerou suspirando. No vinha dormindo bem havia dois dias, quando descobrira que aprendera a fazer sobremesas refinadas com um especialista em chili e cerveja.
Agora, l estava ela com Luke a seu lado na minscula cozinha da residncia dela.
No queria depender de Luke, mas era o que acontecia. Nem gostava da inquietao que a tomava toda vez que seus olhares se encontravam.
Voltou para a sala de estar e alisou a linda toalha de linho branco da me. Sob seus dedos, sentia as rosas bordadas com a certeza com que notava a presena de Luke no mesmo ambiente. Parecia que o ar lhe era roubado dos pulmes.
 Est uma beleza!  elogiou admirado.  Estou impressionado por ter feito tudo sozinha.
 No fiz.
Deu de ombro casualmente. A festa estava prestes a acontecer, e seu desnimo era quase incontrolvel.
 Parece que toda esta decorao levou uma eternidade para ser feita.
 Uma eternidade, no. Apenas algumas noites. Noites de pouco sono.
Ela havia economizado bastante fazendo os enfeites para a mesa e arranjos com flores em vez de compr-los prontos. O perfume doce de rosas tornava o ambiente acolhedor.
O clima era de antecipao. A pilha com fraldas em tons de azul e rosa, chupetas, mamadeiras plsticas e chocalhos acrescentava um toque simptico  decorao.
Havia taas de cristal, pratos e xcaras de porcelana, a bandeja de prata cintilava de to polida. Tinha de admitir que estava satisfeita.
 Roxie  uma futura mame de muita sorte  disse Luke. Sydney sentiu um aperto no corao e distanciou o olhar da mesa e da decorao. Quantas vezes quisera um ch de beb, desejara sentir uma criana se mexendo dentro dela, ansiara por abraar o prprio filho?
 Voc est bem?
 Claro. Muito bem.
Evitou o olhar perscrutador. Procurou afastar as fantasias, mas permaneceriam para sempre em seu corao.
 Como est o baklava?
 Pronto. Onde quer que eu o coloque?
 H outra bandeja de prata na cozinha e uma pilha de travessas ao lado.
 Est bem.
Ela apontou para o relgio de pulso.
 Estou com tudo sob controle por aqui.
Sydney notou o pano de prato pendurado no ombro de Luke. As flores pintadas a mo contrastavam com sua fora e virilidade.
 Por que voc no vai se arrumar, Sydney?
 E quanto a Emily?
No confiando em uma bab para cuidar do beb, Luke trouxera Emily consigo. A garotinha instintivamente parecia saber que aquele no era um bom dia para fazer baguna.
Durante toda a manh brincara tranqilamente no cercado. Luke e Sydney deram-lhe colheres de madeira para morder e outros objetos, sempre atentos a seus movimentos. Mas durante a maior parte do tempo, ficaram concentrados um no outro.
 Eu lhe dei uma mamadeira e coloquei-a em seu quarto para dormir. Fecharemos a porta. Ningum saber que ela est aqui.
Sydney ficou em dvida.
 Tem certeza?
 Absoluta. Dar tudo certo. 
Luke olhou para o relgio de pulso.
 E agora v!
Sydney passou a mo nos cabelos e olhou para o jeans e camiseta sujos de farinha. Seu sorriso falhou quando contemplou Luke a observ-la com intensidade.
 Acho que preciso de um banho.
 Bem, parece tima para mim.  A voz era rouca e convidativa.  Mas suas convidadas podem esperar v-la melhor vestida.
Ela enrubesceu.
 Est certo. No vou demorar.
Especialmente sabendo que estaria nua no chuveiro e a poucos passos de Luke. O pensamento era tentador. Imaginava se ele pensava na mesma coisa e enrubesceu ainda mais.
 Voltarei em breve.
 Fique  vontade.
A campainha escolheu aquele momento para tocar. O som ecoou na cabea de Sydney. Entrou em pnico e parou, incapaz de mover-se adiante ou retroceder.
 Oh, no!
Luke sorriu tranqilamente e passou a seu lado. Fez uma pausa para pousar as mos nos ombros dela. O toque foi caloroso e encorajador.
 Relaxe. Eu atenderei  porta.
 Ser uma convidada?  indagou em pnico.
Por que estava to afetada? Confusa, buscou segurana em seu olhar.
Rindo para si mesmo, ele girou a maaneta.
 Ol.
Enquanto estendia a mo para um cumprimento, Sydney inclinou-se para a frente, temendo quem pudesse ser. Sua chefe? Roxie?
E se fosse a vice-presidente chegando mais cedo e encontrando Sydney vestida daquele jeito... e com um homem abrindo a porta de sua casa como se morasse ali?
 Sou Luke  disse ele, dando um passo para trs para deixar a pessoa entrar na casa.
 Sou Jennie.
A voz familiar e cheia de energia fez Sydney arregalar os olhos.
 Voc  to bonito quanto sua voz sensual ao telefone. 
Ele enrubesceu.
 Sydney no me falou que tinha uma irm mais nova to bonitinha.
 Bonitinha!  repetiu Jennie ultrajada.  Acho que isto significa que voc j se apaixonou por minha irm.
Ofereceu a ambos um sorriso amigvel. No olhar acusador havia uma pergunta: H algo acontecendo aqui que eu devia saber?
 Esta  a histria de minha vida  completou a moa.
 Sobre o que est falando?  Sydney conseguiu perguntar, sentindo o olhar de Luke pousado nela.  O que faz aqui, Jennie?
 Voc sabia que eu amava Stan  falou a moa ao colocar sua bolsa na cadeira mais prxima.
 Ento foi por isto que tentou sabotar meu casamento? 
Jennie deu de ombros.
 Se eu tivesse conseguido, teria lhe poupado muita dor. Precisa de ajuda?
 O qu?
Sydney sentia seu mundo girando e olhou para Luke em busca de respostas.
 Voc no falou a ela?  Jennie indagou. Luke deu de ombros.
 No tive tempo para muita coisa alm de cozinhar. Achei que seria uma boa surpresa.
 O que est acontecendo?  perguntou Sydney, pousando o brao amigavelmente no ombro da irm.
Jennie crescera e era mais alta do que ela. A moa colocou o brao na cintura de Sydney.
 Luke telefonou e recrutou as tropas. Disse que voc precisava de ajuda em um ch de beb ou coisa assim. Por isto eu entrei em contato com os meninos.
 Paul e Scott? Eles tambm viro?
 Sim, devem chegar a qualquer minuto. Estavam me seguindo, mas acho que se perderam.
 Voc estava dirigindo em alta velocidade?
 Eles tiveram de parar em um farol vermelho. No se preocupe tanto, mame.
Sydney franziu a testa, preocupada. No conseguia se conter. Bancara o papel de me durante tempo demais para abandon-lo.
 Jennie poder ajud-la a servir a comida, e os rapazes a estacionar carros ou lavar pratos. O que for necessrio.
Sydney cruzou os braos.
 Eles no tocaro nos cristais de nossa me! 
Jennie olhou para o teto.
 J no tm mais oito anos de idade, Syd. Sero cuidadosos. Relaxe, est bem?  props, afagando-a.
Por que Sydney sentia que um desastre estava prestes a acontecer? Amava seus irmos e irm. De verdade. E sentia-se comovida com o gesto doce de Luke em recrut-los, mas parecia que apenas mais atores participavam de seu pesadelo.
Imaginando como Luke conseguira falar com sua ocupada irm sendo que ela mesma nunca conseguia, indagou:
 Como entrou em contato com Jennie?
 Atravs de Roxie. Ela encontrou o nmero em sua agenda de mesa. E eu telefonei.
 Ele tem uma voz maravilhosa ao telefone... e em pessoa tambm  maravilhoso.
Jennie brindou-o com uma piscadela e um sorriso.
 Quando chegaro os convidados?
 Em breve  respondeu Luke.
 Ento no acha que deveria se aprontar, irmzinha? Quero dizer, no vai querer ser confundida com a gata borralheira, no  mesmo?
Sydney olhou uma ltima vez o pudim que aguardava para ir ao forno e as pores de creme brul no balco.
O que tinha a perder? Seu corao resplandecia de alegria em saber que seus irmos haviam se importado o bastante para ajud-la em uma situao difcil.
Precisava agradecer a Luke por isso.
 Como um dia poderei lhe agradecer?  Sydney perguntou ao entrar na cozinha, carregando uma bandeja de prata vazia.
 D-me.
Luke pegou a bandeja, e suas mos roaram. Ele sentiu um calor especial. Podia pensar em numerosas maneiras de Sydney lhe agradecer, comeando por um beijo de roubar o flego.
No sabia se ela ainda estava brava ou simplesmente nervosa por causa da festa. Mas no achava sensato mencionar seu pensamento ainda.
Desejava poder agarr-la, beij-la e expor seus sentimentos e desejos. Mas ousaria? No durante a festa. Mas depois, sim.
 Precisa de mais baklava? 
Ela assentiu.
 E de mousse de chocolate. Todos esto comendo como se estivessem em jejum h uma semana.
 Quantos pratos mais teremos de lavar?  Scott perguntou, as mos submersas em gua com sabo.
 Sim, no podemos manobrar carros ou algo assim?  Paul secava uma pea delicada de porcelana e colocava-a com cuidado no balco.
 Agora no  Sydney respondeu.
Luke notava a semelhana entre os quatro irmos, todos com olhos azuis e cabelos ruivos.
 Pronto. Quer levar a mousse para a sala de jantar?  Luke interveio.
 Obrigada.
Encontrou seu olhar. Os olhos azuis dela encheram-no de esperana.
 E o que ns ganhamos em agradecimento?  Scott perguntou, estendendo a mo para pegar outro prato.
 Mos speras de tanto lavar pratos  respondeu Paul.
 Exatamente.
Scott fez uma careta, o rosto sardento combinando com o do irmo.
Sydney balanou a cabea para os rapazes, mas sua ateno continuava centrada em Luke.
 Desculpe-me por eu ter ficado brava outro dia, quando descobri...
 Est tudo bem, Sydney. Eu compreendo. E eu devia ter lhe contado.
 No  esta a questo. Voc j fez demais por mim. Eu no devia ter duvidado de sua palavra, mas acreditado que no me decepcionaria. E no decepcionou mesmo.  Ela ergueu o queixo, como se buscando uma resposta.  No sei por que duvidei de voc... de suas habilidades em me ajudar a fazer esta festa dar certo.
 Pois eu sei.
Ela franziu a testa.
 Eu a conheo bem.
E Luke conhecia mesmo. Mas queria descobrir as diversas facetas de Sydney.
 Voc no  de depender de ningum. Lida com tudo sozinha. Ento, o fato de precisar de ajuda deixou-a nervosa.
Ela sorriu de um jeito especial que o excitou.
 Tem razo. Mas funcionou perfeitamente.  Pousou uma mo no brao dele, arrepiando-o.  E sabe de uma coisa? Todos parecem estar se divertindo muito! E no param de elogiar a comida.
 timo!
 Talvez devamos expandir nosso repertrio. Voc ter de acrescentar algumas dessas sobremesas no cardpio do restaurante.
 J foi vendido.
 Foi?
Ele assentiu sem qualquer pesar.
 Graas a voc, estou pronto para comear a trabalhar no site da Internet. Voc expandiu meus horizontes, Sydney.
Aquela mulher abrira seus olhos, mostrando-lhe o que no sabia, provando que ele era capaz de cuidar da filha, despertando-o para a possibilidade de se casar.
 Mas posso precisar de ajuda...
 Quando precisar...
A voz dela era um sussurro rouco e ntimo e tambm oferecia novas possibilidades.
Luke rezou para que aquela mo delicada ficasse em seu brao para sempre. Orgulhava-se muito de ser merecedor da confiana de Sydney. Felizmente, no a decepcionara. E o alvio era to grande que tinha vontade de abra-la com fora.
 Sydney...
A porta da cozinha foi aberta, e Jennie entrou.
 H mais ponche?
Paul colocou um pano de prato mido no balco.
 Jogue um pouco em Luke e Sydney.
 Sim  acrescentou Scott.  Estava ficando abafado aqui. 
Jennie arqueou as sobrancelhas. Olhou para Luke e a irm e sorriu.
 Puxa,  mesmo?
 O ponche est na geladeira  Luke respondeu, atnito por ter estado a centmetros de revelar quanto se importava com Sydney.
 Levarei a mousse  disse a dona da casa.
 Ficarei aqui na cozinha, o lugar ao qual perteno  Luke comunicou.
Sydney brindou-o com um sorriso e foi juntar-se s convidadas, deixando-o a imaginar se haveria mais ali alm de gratido. Jennie fez-lhe um sinal positivo com o polegar.
 Est se dando bem!
Assentiu, incapaz de falar. Havia um n em sua garganta, combinao de alvio com emoes contidas que ameaavam aflorar. Sabia que, no final do dia, Sydney estaria pronta para dizer adeus a ele e a Emily. Mas como Luke poderia se despedir? No, no conseguiria.
 Voc gostaria de mais alguma coisa, Roxie?  Sydney perguntou  futura mame.
 Uma cintura como a sua e aqueles presentes. 
Os olhos castanhos cintilavam de excitao.
O que Sydney no daria para estar na condio da amiga... Engoliu a amargura.
 Bastaro alguns poucos meses aps o nascimento do beb para seu corpo voltar ao normal. Mas no ter de esperar tanto para abrir aqueles presentes.
As mulheres se reuniram ao redor da futura mame em expectativa enquanto ela comeava a abrir os pacotes um a um. Passavam os ursinhos e roupas de mo em mo para que todas pudessem admirar.
 Uma festa maravilhosa, Sydney  Ellen Davenport falou, saboreando sua quarta poro de baklava.
A executiva rolou os olhos para o teto como se houvesse acabado de entrar no paraso.
 Acho que nem minha me fazia um baklava to bom.  do outro mundo.
 Fico feliz que tenha gostado.
 Onde encontrou a receita?
 Oh, fomos aprendendo com a prtica.
 Ns?
Ela enrubesceu.
 Um amigo me ajudou.  um chef premiado.
 Oh, como voc  bem relacionada!
Ellen assentiu em aprovao, como se tabulando pontos a favor de Sydney.
 Sydney  Ann Baxter interrompeu-as.
A vice-presidente fitava-a com olhar firme.
 Quero saber onde comprou este creme brul.
 H algo errado?
 Eu diria que sim. Nunca saboreei algo to maravilhoso. Gostaria de saber onde posso compr-lo.
Sydney sentiu uma onda de alvio. Desejou que Luke pudesse ouvir os elogios.
 Bem, mas voc no poder. Quero dizer, ns mesmos o preparamos.
 Voc no o comprou em uma doceria?
 No.  Ela riu.
 Pois eu teria encomendado tudo. 
Sydney arqueou as sobrancelhas.
 Mas eu pensei, conforme voc disse, que julgasse especial e necessrio que eu preparasse tudo em casa.
 Claro. E veja como este ch de beb est sendo especial. Mas eu no esperava tanto assim. Quem tem tempo para isto? No sei como preparou tudo, com tanto trabalho que temos no escritrio.
 Confesso que tive alguma ajuda.
 De um chef premiado  acrescentou Ellen.
  mesmo? E quem  ele? 
Sydney assentiu muito orgulhosa.
 Luke Crandall. 
Ann franziu a testa.
 Nunca ouvi falar nele.
  dono de um restaurante em Dallas, mas acabou de vend-lo. Agora est criando um site na Internet para pais solteiros.
 Pois voc ter de me dar o endereo do site  disse Ellen, os olhos cintilando.  Tenho diversos amigos que so pais solteiros. A tarefa  rdua.
 Uma pena no aceitarem encomendas  queixou-se Ann. Sydney anotou mentalmente a hiptese para discuti-la com Luke mais tarde. Mais tarde... esperava que ele ainda estivesse por ali. Porque no estava pronta para v-lo partir.
Seu corao estava amargurado, sabendo que no tinha nenhum motivo mais para ter Luke por perto.
 Foi timo ter contratado ajuda, Sydney. Estou surpresa com a maestria com que lidou com tudo  Ellen elogiou-a.
 Boas habilidades gerenciais  Ann observou.  Voc delega autoridade muito bem.
Sydney sorriu. Como esperara por aquilo! Mas ento, por que se sentia como um cavalo prestes a ser leiloado?
 Ns a temos observado com ateno no decorrer das ltimas semanas, Sydney  disse Ellen, colocando no rosto a expresso de chefe.
 Algum ter de ocupar o lugar de Roxie. Ela no ficar por l durante muito tempo. Voc estaria interessada?  Ann perguntou.
 Se eu estaria?
Certamente queria a promoo! O que mais queria?
Fora por isso que trabalhara durante tantas horas, submetera-se  angstia de organizar aquele ch de beb. E tudo por aquele momento! Mas em vez de sentir-se delirando de alegria, percebeu que seus olhos estavam rasos de gua. Estava zonza, a cabea parecendo girar.
 Aumentar sua responsabilidade  acrescentou Ann.
 E o salrio tambm  Ellen sorriu.
Sydney precisava do dinheiro para ajudar Jennie a terminar os estudos. Mas o orgulho que tanto sonhara experimentar no se materializava. Em vez disso, sentia-se angustiada.
 O que foi esse barulho?
Roxie fez uma pausa na abertura de outro presente. Um som de espanto foi emitido pelas convidadas, silenciando as conversas, sussurros e risos. O choro de Emily era o nico som audvel.
Sydney sentiu o corao disparar. Qual o problema com Emily? Algo acontecera? Colocou um dos presentes de Roxie nas mos de Ann.
 E o beb de Luke  disse a todos.  Tomarei conta dela. 
Com a breve explicao, correu para o corredor, aflita. Pobre Emily! Acordara em um lugar estranho. Provavelmente estava com medo.
 Quem  Luke?  algum perguntou atrs dela.
 Um chef  Roxie falou.
Ao mesmo tempo, Jennie respondeu em um tom alto e cristalino:
 O namorado de Sydney.
Sydney arregalou os olhos e, ao mesmo tempo, sentiu o corao apertado, sabendo que Luke jamais seria seu namorado. Nunca poderia ser.



CAPTULO XI
Sydney entrou no quarto, trmula. A cortina estava baixada e o ambiente escuro, por isso teve de esperar seus olhos se ajustarem. Emily estava sentada no meio do cercado, os cabelos escuros e finos em desarranjo e o rosto vermelho e umedecido pelas lgrimas.
 Oh, Emily! Estou aqui, querida  Sydney falou baixinho. Antes de conseguir peg-la, entretanto, Luke chegou.
 Ela est bem?
Tomou a filha nos braos, ninando-a e amansando seus temores. Os braos gordinhos circundaram seu pescoo.
Sydney fez meno de ajeitar os cabelos de Emily mas se conteve. Seu corao ardia com a constatao de que Luke no precisava dela, nem sequer olhara em sua direo pedindo ajuda dessa vez.
Tampouco Emily estendeu os bracinhos para seu colo. No, a menina precisava do pai.
 Acho que ela acordou e no sabia onde estava. Ficou assustada  conseguiu balbuciar.
Emily esfregou o rosto na camisa de Luke. Soluou pouco antes de ele, com infinito carinho e delicadeza, enxugar suas lgrimas.
O gesto doce fez Sydney desejar que ele pudesse afugentar tambm seus temores e dores no corao.
 Acho melhor eu voltar para a festa  disse baixinho.
 Espere  pediu Luke.  Voc poderia cuidar de Emily por alguns minutos? Preciso tirar do forno a ltima poro de creme brul.
 Posso cuidar disto. Fique com sua filha.
Luke falou a Emily:
 Quer conhecer pessoas simpticas, mocinha? 
A menina riu.
 V? Ela quer ir para o ch de beb.
Colocou a filha nos braos de Sydney e foi para a cozinha, usando o corredor dos fundos para evitar a sala de estar cheia de mulheres.
Sydney sentiu o corao prestes a explodir. Eram as emoes que no experimentava havia anos. Beijou a cabea de Emily.
 Voc tem um papai maravilhoso.  uma garotinha de sorte.
 Pa-pa-pa-pa.
Um momento mais tarde, com uma Emily alegre nos braos, ela emergia do quarto e cumprimentava as convidadas. Qual atrao melhor em um ch de beb, percebeu ento, do que um beb de verdade?
 Oh! Ela no  adorvel?
 Vejam s seus grandes olhos castanhos.
 Que linda!
AS mulheres rodearam Sydney, sorrindo para o beb, segurando suas mozinhas. Emily apreciou a ateno. Ria deliciada. Subitamente, Sydney ficou pensando se Roxie se importava com a intromisso em seu dia especial.
 Talvez eu deva coloc-la na cozinha  disse baixinho enquanto as mulheres se acomodavam novamente ao redor da futura mame e da mesa cheia de presentes.
 No, por favor  pediu Roxie com os olhos marejados.  Ela  to linda. E faz minha gravidez parecer ainda mais real  falou, pegando na mo de Emily.
Sydney sentiu um n na garganta.
 Em breve ter seu beb. Quer carreg-la? 
Roxie balanou a cabea.
 Acho que meu colo no  grande o bastante. De fato, acho que perdi meu colo trs meses atrs. Alm do mais, j basta um beb me chutando agora.
Algumas mulheres riram. Todos os olhos estavam pousados no beb acomodado nos braos de Sydney.
 Sente-se aqui a meu lado  Roxie pediu, indicando o assento vazio no sof.  Para que eu possa brincar com ela. Emily poder at me ajudar com o restante dos presentes.
Roxie terminou de abrir os pacotes, rindo quando o beb tentou agarrar as roupas e livros plsticos. Sydney ocupou-se em afastar papis, tigelas e comida do alcance das mos travessas, e, equilibrando Emily nos quadris, encheu  xcara de Roxie com ponche e serviu uma ltima poro de baklava a Ellen, alm de outra dose de creme brul a Ann.
 Voc realmente  bem coordenada  a vice-presidente comentou ao v-la com Emily apoiada em sua cintura enquanto serenamente segurava um prato com queijo e frutas na outra mo.
 Tudo requer prtica.
 E ela tem bastante  falou Jennie, recolhendo pratos e xcaras vazias para lev-los  cozinha.
  mesmo?  Ellen perguntou, arqueando as sobrancelhas finas.
Sydney lanou  irm um olhar de advertncia, mas Jennie pareceu nem notar.
 Sim, ela me criou e a meus irmos depois que nossa me morreu.
O pequeno grupo de mulheres emitiu murmrios de simpatia, compreenso e respeito.
 Pudera voc agir com tamanha naturalidade  uma mulher que Sydney no conhecia falou, sorrindo.
 E sua irm e irmos vieram ajud-la com a festa!  outra pessoa exclamou.  Voc os criou muito bem.
Roxie suspirou e acariciou a barriga proeminente.
 Devia ter filhos seus, Sydney. Seria uma me maravilhosa.
 Obrigada, mas eu j tive minha cota.
 No est pensando em se casar e nos abandonar conforme Roxie fez, no  mesmo?  Ann perguntou com um olhar de recriminao.
A imagem de Luke formou-se na mente de Sydney. Seu corao ficou apertado, mas a razo descartou a possibilidade.
Emily mexeu-se em seus braos, e ela percebeu que havia apertado muito o beb.
 Definitivamente no.
 Que bom!  exclamou Ann.  Algumas mulheres, como eu, foram talhadas para a carreira e no para a famlia. Voc parece-me ser assim, Sydney. No foi feita para cozinhar, limpar e trocar fraldas.
Suas palavras eram como punhaladas em Sydney. Havia percebido, no decorrer das ltimas semanas, que gostava de cozinhar. Isso mesmo. Cozinhar. Mas com Luke.
No se importava em fazer limpeza tambm. De fato, limpar o cho da cozinha de alguma maneira a deixava relaxada e livrava sua mente de problemas. E quanto  troca de fraldas... bem, isso nunca a incomodara.
Quando criana, cuidar da irm mais nova fora como brincar de casinha. E atualmente, quantas vezes desejara que Luke lhe pedisse para trocar a fralda de Emily?
Sabia o motivo de ele no ter pedido. Fora por causa de sua falsa alegao de que no queria filhos, mas apenas desenvolver a carreira. Se era isso mesmo, ento por que sentia um vazio to grande no peito?
  uma pena  disse Roxie, dobrando um papel rosa e azul.  No posso imaginar nada mais compensador do que ter um beb, uma famlia e um marido maravilhoso.
Sydney achou que desabaria em um choro compulsivo bem ali, diante das colegas de trabalho. Mas se conteve.
Sim, Roxie tinha razo. Nada a alegrara tanto quanto cuidar de Jennie, Paul e Scott. Nada jamais a satisfaria daquela maneira novamente. Nem seu emprego, promoo, definitivamente no sua vida solitria.
Queria mais do que uma tola promoo. Gostaria de sentir-se necessria novamente, amada e querida.
Queria um marido... algum to maravilhoso quanto Luke. Mas seria impossvel.
Ela gostaria de ter um beb... um beb doce e com os olhos como os de Emily. Mas esse sonho no seria concretizado.
Luke certamente a rejeitaria se descobrisse a verdade. Mas no saberia de sua deficincia enquanto pudesse neg-la.
Ele queria mais filhos, e merecia-os. No, no merecia ter metade de uma mulher. E Sydney comeava a se sentir como se houvesse perdido alguns dos genes femininos essenciais.
Luke e Emily formavam uma famlia. No precisavam mais dela.
Deu um sorriso trmulo s amigas apesar do corao dilacerado. 
 Todos precisamos fazer o que somos capazes de fazer.

 Achei que nunca iriam embora  Scott falou, desabando sobre o sof e apoiando os ps na mesinha central.  Estou exausto!
Luke pegou Emily no colo.
 Acho que podemos considerar o evento um sucesso absoluto.
Observando os irmos e irm de Sydney trabalhando juntos, Luke percebeu que queria ter uma forte unidade familiar para sua filha e para si. Mas seria to capaz e eficiente quanto Sydney fora?
Virou-se para sorrir para ela, mas viu-a baixando a cabea e entrando na cozinha.
 O que eu fiz agora?  Paul perguntou, saboreando uma poro de mousse.  Scott, o que voc acha?  falou, dando um chute no p do irmo.
 No acho nada. 
Luke interveio:
 Provavelmente est apenas cansada.
 Eu vou dar uma olhada nela  disse Jennie.
 Deixe que eu vou.
Luke estendeu Emily  irm mais nova de Sydney.
 Voc  to linda  disse a moa, aconchegando a garotinha. Luke entrou na cozinha. Fechou a porta atrs de si. Ela estava em frente ao fogo, de costas para a porta. Os ombros sacudiam levemente e ouviu-a soluar.
Aproximou-se e pousou a mo em suas costas, sentindo-a estremecer em resposta.
 Voc est bem?
 Estou.
 A festa foi um sucesso.
 Sim, claro.
 Roxie falou que voc conseguiu aquela promoo. A vice-presidente lhe pediu para ficar no lugar dela quando entrar em licena-maternidade e deixar definitivamente a empresa.
 Foi excelente. 
Com delicadeza e vagar, Luke fez com que se virasse. Passou o polegar com ternura pelo rosto umedecido. Parecia que as lgrimas queimavam o corao dele.
 O que foi?
 Nada.  Soluou e tentou dar um passo para trs, mas foi detida pelo fogo.  Estou bem.
 Sim, posso perceber. Saudade da festa? E isto?
 Sim, estou lamentando que tenha acabado. Por que no est pulando? Agora no precisa mais dividir seu tempo comigo.
Ele meteu as mos nos bolsos da cala jeans.
 Voc quer que isto seja um adeus?
 No precisa de mim. Eu j no tenho um doce para fazer.
 Pensei que houvssemos nos tornado amigos. Dividimos tanto nas ltimas semanas. Voc me ajudou com Emily, enquanto eu a auxiliei a realizar esta festa. A verdade  que eu no desejo que termine.
Ela arregalou os olhos.
 Como assim?
 No quero deixar de v-la. Na verdade, eu quero v-la ainda mais. Eu quero...
 No!  Afastou-se.  Pare. No diga mais nada.
 Por qu?  quis saber, estendendo a mo para alcan-la, mas em vo.
 Porque no h futuro para ns, Luke. No h... 
Luke ficou confuso, sem saber o que pensar.
 Voc j deve ter contemplado isto ou no estaria to determinada.
Como no obteve resposta, instigou-a a falar atravs de outra pergunta.
 Como pode saber?
 Voc tem sua prpria vida. Sua filha. E eu tenho a minha vida.
 Ns no vamos falar de novo sobre sua vida ser orientada para a carreira, no  mesmo?
 Tenho um novo cargo. 
Luke ficou irado e ressentido.
 Eu sei. S porque tenho um beb, voc no quer se envolver comigo. E isto o que est tentando me dizer?
Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu.
 Minta para si mesma, Sydney, mas eu no acho que seja este seu problema.
 Nada sabe a meu respeito, Luke.
 Sei o bastante. E eu a adoro e amo. Sim, voc me ouviu corretamente.  A confiana de Luke crescia, alimentada por sua frustrao.  O que no gosto em voc  quando finge ser corajosa e destemida, dona da prpria vida, quando na verdade  covarde.
 No sou covarde!
 Claro que . Est com medo, Sydney. Medo de escolher o caminho errado. Medo de ser magoada novamente. Medo de importar-se comigo tanto quanto eu me importo com voc. E medo de apaixonar-se por Emily tambm.
 Luke, voc no sabe o que est falando.
 Sei sim. J pensei bastante a respeito. De fato,  o que mais venho fazendo na ltima semana. Eu preciso de voc, Sydney. Emily precisa de voc.
Ela arregalou os olhos e parecia prestes a sair correndo dali. Luke praguejou. Havia feito tudo errado. Deixara-a apavorada. Dissera que a queria como uma bab.
 No quero que cuide de minha filha. Quero que seja minha companheira. Sabe o que eu percebi nesta semana? Que no gosto de cozinhar.
Ela o fitou, espantada.
 O qu?
 Sem voc. No gosto de fazer nada sem voc por perto. Quero que compartilhemos nossas vidas.
Sydney empalideceu.
 Luke...
 Sei que tudo  repentino, mas aprendi muito nos ltimos dias. Voc me mostrou que no sou como meu pai. E que posso ser responsvel e ter uma famlia. J no tenho mais medo, Sydney. Tambm no tenha. D este salto gigantesco. E acredite, irei ampar-la. Eu prometo.
 Luke!  exclamou, a voz embargada pelas lgrimas.  Eu no posso. Voc no entende...
 Voc quer seu prprio beb? Ora, poderemos trabalhar nisto. Voc disse que j cuidou de todas as crianas que queria, crianas dos outros e no suas. Mas Emily ser sua. Voc ver. E teremos mais. Sydney, deixe-me am-la. Deixe-me entrar em seu corao.
Ela ficou completamente imvel e, quando Luke a abraou e a puxou para um beijo, notou como estava trmula. Seus sentidos fraquejaram. Beijou-a. Queria aquela mulher mais do que tudo na vida.
O beijo era uma mistura de doces desejos e paixo urgente. Sydney entreabriu os lbios, e Luke soube, atravs dessa resposta, que j era dono de seu corao. Faltava faz-la perceber isso.
Ento sentiu o sabor salgado das lgrimas de Sydney. Luke afastou-se.
 O que foi?
 Luke, no posso...  balbuciou, afastando-se. Colocou as mos na cintura e falou em tom baixo:  Eu no posso ter filhos. Foi por isto que meu casamento acabou. Foi este o motivo de Stan ter encontrado outra mulher, uma mulher frtil. Por isto, esse seu lindo sonho de ter uma grande famlia  pura fantasia. No vai acontecer. Por favor, no me ame.
Sydney saiu de casa, a bolsa pendurada no brao, as chaves balanando na mo. Anestesiada, entrou no refgio de seu carro. O silncio pulsava a seu redor, pontuado por sua respirao pesada.
Por um instante ficou imvel, lutando por respirar e deixando as lgrimas carem.
Seu corao estava despedaado.
Haveria lgrimas suficientes para livr-la de tamanho pesar? Um dia se recuperaria das perdas que enfrentara?
Era uma covarde, conforme ouvira Luke dizer. Ficara petrificada ao ver pena naqueles olhos quando lhe contara a verdade.
Quando viu Luke aparecendo na varanda de sua casa, obrigou-se a girar a chave e a colocar o carro em movimento. Precisava ir embora. No poderia mais discutir aquele assunto. No queria a pena, raiva ou compreenso de Luke. Apenas seu amor.
Chegara a ter esse amor, por um breve segundo. Durara como a primavera, cheia de possibilidades e esperanas. Ela ficara a seu lado, amando-o, mas sabendo que aquele amor jamais desabrocharia.
Dirigiu durante algum tempo sem destino. Deixou a mente vagar, concentrando-se no som dos pneus contra o asfalto. Seu corao ardia como nunca.
Ficara magoada quando soubera da traio de Stan e do fracasso de seu casamento. Mas sentira mais humilhao do que mgoa.
Quanto a Luke... Se ao menos houvessem se conhecido muitos anos antes, antes de ela saber da verdade! Ento talvez pudessem ter sobrevivido juntos. Porque Sydney no o imaginava rejeitando-a conforme Stan fizera.
Mas se houvessem se conhecido tanto tempo atrs, ento a doce Emily no existiria. E era essa criana quem o alegraria doravante, no importava quanto a mgoa da rejeio dela a seu amor lhe doesse. A verdade mais triste era que Sydney no tinha algum.
Oh, durante alguns momentos tivera sua famlia ao redor, os irmos e a irm. E graas a Luke. Foi o presente mais doce que j recebera. Sabia que viera de seu generoso corao.
Aos poucos tornou-se consciente de onde estava. Das sombras das rvores cobrindo a rua estreita.
Percebeu que estacionara defronte  casa de Luke. O que a levara at ali? Tolice? Ou a necessidade de considerar o que poderia ter sido?
Apoiou a cabea no volante e chorou. Talvez o destino houvesse decidido que ela no era talhada para a maternidade. Ou era possvel que tivesse falhado de alguma maneira na criao dos irmos e irm. Ou talvez Ann tivesse razo. Algumas mulheres no deviam ter famlia, marido e filhos.
Atravs da neblina que a impedia de enxergar direito, escutou uma porta de carro sendo fechada de maneira abrupta. Olhou pela janela e assustou-se.
Fora seguida por Luke. Observou o rosto irado atravs da janela do carro. Ele tentou abrir a porta, mas esta permanecia trancada. Fez um sinal para que Sydney descesse.
Reunindo o que restava de sua compostura, enxugou o rosto e abriu a porta.
Fingiria que estava bem. Fingiria que no estava magoada. Prosseguiria no fingimento, porque era tudo o que lhe restava. Ao sair, Luke tomou-a nos braos, mergulhando o rosto contra seu pescoo e sussurrando em agonia: 
 Eu a amo.
Abraava-a to fortemente que Sydney achou que sua circulao houvesse sido interrompida. Sentia-se zonza naqueles braos e, ao mesmo tempo, como se houvesse encontrado seu lar. Como algo maravilhoso assim podia magoar tanto?
Tentou resistir  declarao maravilhosa. Chegara a considerar a hiptese de acreditar na fantasia. Mas no poderia. Pois no final, tudo desapareceria.
Com uma voz abafada de encontro ao peito largo, sussurrou: 
 Onde est Emily? 
 Com Jennie.  Ele passava as mos por suas costas, ento abraou-a forte mais uma vez.  Oh, Sydney... Eu lamento. 
Ela tremeu em resposta. Mordeu o lbio e tentou permanecer controlada, mas seu corao no permitia.
 Voc pode me perdoar?  perguntou angustiado, beijando-a no pescoo, rosto e lbios.  Eu no sabia. Jamais teria sugerido...
Ela pousou uma mo no rosto amado.
 Eu sei. Eu no poderia ter dito antes, no teria suportado sua rejeio.
 Rejeit-la? Mas eu... eu a amo, Sydney.
As palavras penetraram em sua concha protetora e abalaram sua resoluo. Ela cobriu o rosto com as mos. Seus ombros comearam a tremer. Mais uma vez seu mundo se despedaava. E Luke no conseguiria reconstru-lo.
Ele se sentia to indefeso como nas vezes em que Emily chorava. O que poderia fazer? Apenas uma coisa lhe ocorreu. Abraou Sydney de encontro ao peito e deixou que chorasse, absorvendo seus soluos. Sentia as lgrimas umedecendo-lhe a camisa.
Conforme o acesso de choro amansava, fez com que o acompanhasse at a varanda e entrasse em sua casa.
 Este  o lugar ao qual voc pertence.
 Luke, isto no pode acontecer. No h... 
Ele interrompeu o protesto com um beijo.
 Eu a amo.
 Luke...
Beijou-a novamente, com mais fora, at bloquear-lhe todos os protestos e sentir que seu corpo ficava mais suave de encontro ao dele. Sabia que Sydney no o estava rejeitando, mas a si mesma.
 Luke...
Baixou a cabea para beij-la novamente, mas dois dedos cobriram seus lbios.
 Oua-me. Voc no pode compreender minha agonia. Eu no posso ter um beb. Nunca. J fui a muitos mdicos, e a resposta foi unnime.  impossvel. Impossvel!
Apoiou-se nele, dessa vez enlaando-lhe o pescoo como se no quisesse deix-lo partir. Luke beijou-a na testa. E dessa vez deixou que falasse, permitiu que abrisse o corao.
 Voc no pode compreender como . Voc tem Emily...
 Ora, isto  bobagem!
O tom rspido a fez arregalar os olhos.
 Voc no compreende, Sydney? No est sozinha, mas sempre afasta os outros. E est tentando me afastar quando pode ter tudo.
 Ora, voc j tem seu pedao de imortalidade. Mas no haver nada meu aqui na Terra quando eu partir. Embora minha me tenha vivido pouco, deixou quatro filhos com seus traos, assim como Emily se parece com voc. O que eu deixarei para trs? Nada. Por algum motivo, Deus achou que eu no seria uma boa me. Mas por favor, no tenha pena de mim.
 Pena de voc? Eu poderia estrangul-la.
 O qu?
 Estou bravo. Estou louco da vida por voc no poder ter filhos, seja quem for o responsvel. Eu poderia dar um tiro em Stan por t-la feito se sentir humilhada.
Sydney limitou-se a fit-lo, sem compreender de que falava.
 Voc no percebe o que fez, Sydney? No v o efeito que tem sobre seus irmos? Deu tanto de si, a parte mais importante, seu corao e alma, para cri-los bem. E porque se sacrificou e os amou j que a me deles no podia, cresceram e tornaram-se adultos carinhosos e amorosos. Voc no compreende? Eles so seu legado. Seu pedao de imortalidade.
Ergueu o rosto de Sydney banhado em lgrimas para que encontrasse seu olhar.
 E voc  a mulher que me completa. No por se dar bem com crianas ou com Emily, mas porque lida bem com a vida. Preciso que seja parte da minha vida.  Luke mergulhou completamente naqueles olhos da cor do mar.  Diga-me a verdade. Emily lhe provoca dor, mgoa? Faz com que anseie pelo filho que no ter?
 A princpio, talvez. Mas agora ela faz parte de minha vida... de nossas vidas. Eu amo Emily como se ela fosse minha. 
Ele beijou-a sonoramente, roubando-lhe o flego.
 Eu a amo, Sydney Reede. E quero que seja minha esposa. 
 Luke...
 Nunca pedi uma mulher em casamento antes. Quero acordar a seu lado todos os dias. Quero abra-la antes de adormecer. No posso viver sem voc.
Sydney continuava a fit-lo, sabendo que jamais se cansaria de contemplar o belo rosto.
 Honestamente, no posso imaginar um presente melhor para dar  minha filha do que uma me com sua compaixo e fora. A questo de termos mais filhos no me preocupa. Francamente, eu nunca havia pensado em ter um filho. Voc me ajudou a perceber que no sou como meu pai. Tenho outra personalidade.
Ele passou a mo pelo rosto ainda umedecido pelas lgrimas.
 O casamento  um compromisso para toda a vida. No deve ser rompido e sim partilhado nos bons e maus momentos. Pois eu amo o que voc tem de melhor e pior. Sydney Reede, eu amo seu sorriso, seu calor, compaixo, lgica e perfeccionismo. Voc tem um raciocnio brilhante. E me desafia como ningum. Mas tambm deixa-me um pouco maluco.  sempre to pontual, no  muito espontnea... Mas est melhorando.
Deu-lhe um sorriso ao qual Sydney no pde resistir.
 Acho que est me convencendo...
 Sim! Juntos, do nosso modo to nico, formamos uma famlia.
 Oh, Luke...
Beijou-a novamente, temendo ouvir sua resposta. E se Sydney o descartasse mais uma vez? Como sobreviveria?
Enquanto a beijava, tentava pensar em outros argumentos para convenc-la a ficar a seu lado, a am-lo, a casar-se com ele.
 Luke  murmurou, afastando-se.  Deixe-me terminar desta vez, est bem?
Ele assentiu, o corao disparado.
Os olhos de Sydney novamente se encheram de lgrimas.
 Eu tambm o amo. E amo Emily. E qual seja o motivo de voc me amar, sinto-me grata. Isto no parece real, mas se voc acha que formamos uma famlia, ento eu aceito fazer parte de sua vida.
Estendeu os braos, enlaou-lhe o pescoo e o beijou antes que Luke pudesse respirar ou dizer qualquer coisa mais.
Acabavam de aprender uma lio de amor.



FIM
